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Beco
da memória
Floreiras
vão fechar a Rua do Comércio,
a única
do centro que só tem prédios antigos
Erika
Sallum
Rogério Montenegro
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Mário Rodrigues
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Rogério Montenegro

A
Rua do Comércio vista da Quinze de Novembro
(à
esq.) e do Largo do Café (no detalhe);
a fachada do
antigo hotel que existia no local no início
do
século XX (acima) e a ruela em 1911, quando
ali funcionava
a sede do jornal A Platéia |
Departamento de Patrimônio
Histórico
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Com
apenas 50 metros de comprimento e 5 de largura, a pequena
Rua do Comércio nunca chamou muito a atenção
de quem anda pelo centro. Localizada entre o Largo do Café
e a Rua Quinze de Novembro, a estreita travessa é composta,
no lado par, de três prédios comerciais do início
do século XX. No térreo funcionam duas lanchonetes,
joalheria, mercadinho, lotérica, sapataria, tabacaria,
lojinha de gravatas e um fast food japonês. Os demais
pisos estão quase vazios, exceto por alguns escritórios
e um restaurante vegetariano. O lado ímpar é
tomado por uma fachada da Bovespa. Ironicamente, a pouca relevância
dessa viela foi sua salvação. Trata-se da única
rua do centro onde só há construções
antigas e protegidas pela Lei de Zoneamento. "Existem outras
ruas com imóveis históricos nas redondezas",
diz José Evaristo Bechelli, dono da lanchonete Reno.
"Mas aqui ninguém se atreveu a erguer um edifício
de vidro fumê para quebrar a harmonia."
Os comerciantes
querem transformá-la em ponto turístico. Para
começar, vão fechar as entradas com floreiras.
Apesar de ser proibido o trânsito de veículos,
caminhões de carga, carros oficiais e carros-fortes
passam arranhando as paredes e provocam trepidação.
Para o arquiteto e urbanista Paulo Bastos, esse tráfego
é um atentado contra um importante testemunho da história
paulistana. "A cidade já foi tortuosa e cheia de bequinhos
como este, que tem de ser preservado", afirma. No início
do século XIX, a viela era chamada de Beco do Inferno.
De acordo com alguns documentos, ficou conhecida assim por
causa do "pouco asseio e aspecto horroroso" e do "alinhamento
de botequins, onde as rixas e as bordoadas eram coisa de todos
os dias". Em 1865, foi rebatizada de Travessa do Comércio.
O desenvolvimento
econômico do início do século XX trouxe
construções neoclássicas e de estilos
ecléticos. Na esquina com a Quinze de Novembro tem
um prédio de 1912 que, embora malcuidado, ainda exibe
imponência nos desenhos das grades das janelas e nos
detalhes de serralheria dos beirais. Um antigo hotel restaurado
há cinco anos domina a esquina oposta. "Essa arquitetura
retrata a época em que São Paulo deixa de ser
vila e sai em busca do título de metrópole",
diz Paulo Bastos. O próprio comércio é
mais um passeio histórico. A sapataria Centro Velho,
por exemplo, foi aberta em 1957. Fausto Aiello, 54 anos, o
proprietário, trabalha ali desde os 12. A poucos metros,
uma lojinha de gravatas mantém em seu toldo a frase
"Beba Café do Centro" último vestígio
de um estabelecimento que deixou saudade quando fechou, no
final dos anos 80. Os comerciantes mais velhos juram que se
lembram do cheiro de café moído que tomava conta
da travessa. "É uma São Paulo que não
volta mais", suspira Aiello.
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