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13 de novembro de 2002
ESTILO
PARA AS CRIANÇAS
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AS BOAS COMPRAS
TERRAÇO PAULISTANO
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
   

ESTILO

Criativos, descolados
e mais em conta

Com preços acessíveis e projetos
adequados ao dia-a-dia dos paulistanos,
objetos feitos por
designers conquistam
espaço
no mercado da decoração

Valéria França

 
Fotos Fabio Mangabeira/produção Kiki Romero e Flávia Salvetti

Escultura de madeira (também em laranja, branco e amarelo) de Jaime Prades, R$ 180,00. Arango, Praça Benedito Calixto, 42, Pinheiros, 3061-5127.

Porta-retratos da dupla Bufe e Luzio. R$ 10,00 o menor e R$ 86,00 o maior, com função de calendário. Arango.


Apoio de livro (também em azul) de Bernardo Krasniansky, R$ 85,00. Inter/Design, Alameda Lorena, 1647, Jardim Paulista, 3062-9896. Luminária de acrílico (disponível em outras quatro cores), de Luciana Martins e Gerson de Oliveira, R$ 220,00. Ovo, Rua Gomes de Carvalho, 830, Vila Olímpia, 3045-0309.

Quando está em busca de um presente diferente, com jeitão moderno e descolado, o paulistano muitas vezes acaba entrando numa loja de design. Lá, apesar da infinidade de peças bonitas nas prateleiras, ele enfrenta algumas dificuldades para sair com o que deseja. A serventia de muitos dos objetos expostos é um enigma para o consumidor. Outros, mesmo funcionais, custam uma pequena fortuna. Há, finalmente, a questão da praticidade. Certas poltronas e sofás com desenho assinado carregam a fama de ser tão desconfortáveis quanto uma cama de faquir. Com tantos problemas, não é de estranhar que o cliente, não raro, saia de mãos vazias. Mas essa história está mudando. Aos poucos, produtos concebidos por designers criativos que viraram grife estão se tornando mais práticos e acessíveis. Profissionais que abastecem sofisticadas casas de decoração vendem, simultaneamente, para pequenas lojas de bairro, magazines e até supermercados. "Mais do que um luxo, quando deparamos com algo assinado por um designer temos garantia de qualidade", diz Auresnede Pires Stephan, coordenador do curso de desenho industrial da Faculdade de Belas Artes de São Paulo. "E hoje não precisamos pagar por isso um preço absurdo."

Heudes Regis
Duílio Ferronato, que ganhou fama com uma luminária de bolinhas de gude: produtos de 30 a 407 reais, como o castiçal de alumínio fundido, da Benedixt


Formado em desenho industrial, o paulistano Duílio Ferronato é um exemplo dessa transformação. Ferronato ficou conhecido por ter desenvolvido uma luminária com bolinhas de gude, que há uma década é copiada. Atualmente tem à venda outras 102 peças. Projeta de revisteiros de plástico a castiçais de aço fundido, encontrados em endereços especializados, como a Benedixt, em Pinheiros, e em grandes casas de decoração e presentes, como a Mickey ou a Cleusa. H&aas, como a Benedixt, em Pinheiros, e em grandes casas de decoração e presentes, como a Mickey ou a Cleusa. Há um mês, ele foi contratado por uma indústria de papel para desenhar uma linha de guardanapos. Entre os supermercados, o Pão de Açúcar foi o primeiro a apostar nesses profissionais. Em prateleiras das chamadas lojas especiais da rede apareceram artigos diferenciados, caso das refinadas bandejas de vidro desenhadas por Camila Fix. "Como os supermercados trabalham com grandes quantidades, meus utilitários tinham preços compatíveis com qualquer produto exposto", afirma Camila. Segundo o Pão de Açúcar, artigos como esses devem voltar às gôndolas na temporada de vendas de Natal.

 
Heudes Regis
Os irmãos Humberto e Fernando Campana: dois anos de pesquisas com materiais para reduzir o preço da estante Labirinto de 4.000 para 1.652 reais

De olho no filão, a Camicado, uma mistura de magazine e loja de presentes, contratou a ex-gerente de produtos da Tok&Stok Adriana Pereira dos Santos para identificar nomes no mercado que teriam um perfil adequado à loja. "Não podemos ficar de fora dessa nova tendência", diz Adriana. A Tok&Stok, com sete lojas na capital, foi uma das pioneiras no trabalho com designers. Buscar novos talentos também é a função de Baba Vacaro, diretora de arte da Dominici, especializada em luminárias. Além de coordenar toda a área de estilo, ela faz projetos próprios. "Meu cargo é a prova de que a indústria está reconhecendo a necessidade de pensar no visual", acredita Baba.

 
Fotos Fabio Mangabeira/produção Kiki Romero e Flávia Salvetti

Cadeira Spaguetti (mais três cores), de Fernando Jaeger,
R$ 174,00. Fernando Jaeger Design, Avenida Miruna, 300, Moema,
5543-4320.

Moringa
(R$ 260,00) e saboneteira
(R$ 80,00) de porcelana, de Isabelle Touchband. Sob encomenda.
3887-2720.

Cestos de plástico maleávelde Carol Gay.
O pequeno tem 15 centímetros de altura
(R$ 33,00) e o grande, 37 centímetros de altura
(R$ 110,00). Disponíveis ainda em verde, vermelho e azul. Zona D, Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 147, Jardim América,
3082-1769.

Revisteiro Spaguetti,
de Duílio Ferronato,
R$ 39,90. Feito também com plástico transparente e amarelo. Tok & Stok, Avenida Eusébio Matoso, 1231, Pinheiros, 3813-2800.
Prato pequeno (R$ 23,61) e grande (R$ 96,24), de Jacqueline Terpins. Rua Gustavo Teixeira, 374, Pacaembu, 3872-4497.

Nos últimos dez anos, o design nacional cresceu muito. Há uma turma de paulistanos que ganhou fama e projeção. Os mais bem-sucedidos são os irmãos Humberto e Fernando Campana. Um advogado e outro arquiteto, eles começaram a trabalhar juntos em 1984. Nove anos depois, criaram a Vermelha, uma poltrona de formas arredondadas feita de cordas que foi colocada no mercado pela empresa italiana Edra. Coisa rara: além de bonita, era confortável. Esse foi o primeiro projeto de uma série de vinte que a dupla desenvolveu com a indústria italiana. A partir daí, puderam deixar de lado a produção artesanal – que encarecia o produto.– e passaram a fabricar em escala industrial. "Aprendemos a viabilizar nossas idéias", afirma Fernando. "Agora pensamos em funcionalidade e custo", completa Humberto.

 
Mario Rodrigues
Jaeger: "Artesãos dão toque diferenciado aos móveis"

Em agosto último, os irmãos lançaram a estante Labirinto. Desenhada em 1997, ela tinha custo inicial bastante alto: 4.000 reais. Seu preço caiu para 1.652 reais. "Levamos dois anos para chegar à versão mais econômica", diz o francês Régis Dubrule, presidente da Tok&Stok, que patrocinou o projeto. Dubrule é um apaixonado por design. Ele calcula que, em suas lojas, nove de cada dez produtos são assinados. Alguns estão na exposição Gênios do Design, que fica até 1º de dezembro na filial de Pinheiros. São nove peças elaboradas para um público jovem, com preços mais acessíveis e linhas arrojadas, como a luminária dos irmãos Ana e Dino Galli. Confeccionada em acrílico, em formato de cone, ela pode ser colocada em cima da mesa ou no chão. Custa 120 reais. "Não nos preocupamos em fazer móveis para a vida toda, pois o gosto das pessoas muda com o tempo", explica Dubrule. "Móvel tem de ser como roupa: fácil de trocar."

 
Renata Ursaia
Luciana Martins e Gerson de Oliveira: tapete montável com dezessete cores

Tais produtos costumam ter muito mais valor agregado do que suas formas deixam transparecer. Os designers, em geral, se preocupam com a mão-de-obra envolvida na produção e com a procedência do material. Alguns estabelecem parcerias com organizações não-governamentais. Veterano no ramo de móveis, Fernando Jaeger dá a artesãos a oportunidade de fazer o acabamento de suas peças. "Além de gerar emprego, consigo me diferenciar ainda mais", diz Jaeger, que trabalha apenas com madeira certificada – retirada de áreas de reflorestamento ou extraída sob o controle do Ibama. "Tudo isso acaba encarecendo a mercadoria", afirma. Mesmo assim, a poltrona Decô (480 reais) está na faixa de preço de outras, do mesmo estilo, à venda em qualquer loja de decoração da Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros.

 
Heudes Regis
Isabelle Touchband: "Consegui colocar um pouco de arte no cotidiano"

"Uma das vantagens das peças planejadas é poder oferecer maior funcionalidade", diz o professor Stephan. Luciana Martins e Gerson de Oliveira, por exemplo, bolaram um tapete montável, formado por quadrados individuais de 30 centímetros ligados por velcro. O cliente escolhe entre dezessete cores, que podem ser combinadas entre si, e regula o tamanho e o formato do tapete conforme suas necessidades. Outro destaque da linha da dupla é a mesa-lousa para reuniões. Produzida com uma pintura especial, permite anotações de giz sobre sua superfície. Na quinta-feira passada, na Vila Olímpia, Luciana e Oliveira inauguraram, com uma exposição, sua primeira loja.

 
Heudes Regis
Baba Vacaro, entre os modelos que produziu para a Dominici: missão de encontrar novos talentos para a empresa

Com o mercado efervescente, não faltam profissionais cheios de boas idéias. Na cidade, existem quarenta cursos dessa área em faculdades. Tem tanta gente se formando que o Museu Brasileiro de Escultura (MuBE), na Avenida Europa, 218, cedeu um espaço permanente para quarenta novos designers divulgarem suas produções. Todo sábado, das 10 às 18 horas, eles vendem desde jóias até móveis. A partir das 15 horas, há shows de jazz. "Precisamos estar abertos aos trabalhos de vanguarda", afirma Marilisa Rodrigues Rathsam, fundadora do MuBE. O limite entre arte e design é tênue. Até porque há muito artista plástico que enveredou por esse caminho. Jacqueline Terpins, que começou trabalhando com vidro, faz parte do grupo. Hoje, ela tem uma loja de 180 metros quadrados no Pacaembu. Produz 1.000 peças por mês, em sua maioria compradas por 190 revendedores. Entre elas, há copos com textura de bolhas, vasos e lamparinas estilizadas. Jacqueline virou uma grife que, ao lado dos irmãos Campana, volta e meia é citada com destaque em revistas italianas de decoração e estilo. Ela também cria móveis, como poltronas de vidro – muito mais bonitas do que gostosas de sentar. Isabelle Touchband tem um perfil semelhante. Cresceu brincando com as tintas do pai, que era pintor, e dedica-se à pintura, mas ficou conhecida por suas porcelanas. Como se fossem um mimo, as xícaras brancas de Isabelle são decoradas com figuras estilizadas e dizeres amorosos escritos em dourado. "Fazer coisas bonitas para o dia-a-dia foi o jeito que encontrei de colocar um pouco de beleza no cotidiano", diz ela. É essa arte que agora está um pouco mais próxima do consumidor.

 
Mario Rodrigues
Jacqueline Terpins, especializada em vidro: 1.000 peças por mês e 190 revendedores

         
     
 
 
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