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CRÔNICA
Palavras em fuga
Quantas vezes isso acontece? Você procura
uma palavra e ela se esconde. Revira almofadas na mente, descerra
portas, abre gavetas nos compartimentos do passado, bate nos bolsos
da memória, levanta tapetes, ela estava bem à vista,
ali, ou ali, e não mais a encontra. Palavras brincalhonas,
molecas, brincando de esconde-esconde. Palavras que o evitam, mal-agradecidas,
esquecidas do tempo em que delas você fez bom uso, trabalhando
o que elas têm de mais caro: a precisão e a imprecisão.
Você percebe, no exato momento, que
uma palavra está fugindo. No meio de um assunto, quase chegando
a ela, ainda atento a duas ou três palavras que deveriam vir
antes dela, a vê retirar-se, vislumbra sua fuga, persegue-a,
quase a agarra pelos cabelos, ela escapa, você não
consegue mais pegá-la, perdeu-a.
Pode acontecer ao contar uma piada: de repente
você não consegue se lembrar de um detalhe sobre o
qual se apóia toda a estrutura da piada e ela vira um desastre
que o amargura; ou acontece ao contar um caso sobre uma pessoa cujo
nome é essencial e ele não vem; ou ao recomendar um
livro, e o título se apaga de repente junto com oh,
céus! o nome do autor; ou ao encontrar aquele amigo
de cerimônia que você sabe perfeitamente quem é,
mas o nome, o nome, o nome oh, céus!
Muitas vezes, quando a roda é amiga
e acontece uma falha dessas, você estala os dedos, espera
que eles funcionem como a faísca que dá a partida
a um motor; ou como um estimulante: você os estala açulando
os neurônios, mas neurônios não são cachorrinhos
nem saltam, ativos, agitando o rabinho. Você recorre aos amigos
da roda, a alguém que talvez estivesse a par daquilo de que
você quer se lembrar, e começa um jogo de palavra puxa
palavra, como é que se chama aquele camarada?, aquele!, e
segue atirando dicas que poderiam levar o amigo a localizar o dado
fugidio, mas o cérebro do amigo caminha para um lado e o
seu corre para outro, não, não, não é
isso, e você fornece outro dado que também não
funciona, ou só funcionaria no repertório do seu próprio
cérebro, que está em pane momentânea.
Outros assuntos vão entrando na conversa;
a palavra desaparecida deixa de atrair a solidariedade dos amigos;
algo menos trabalhoso, ou mais divertido, ou mais emocionante, ou
mais urgente os conquista, e eles vão indo, e você
é deixado só com seu mistério, Sherlock sem
Watson.
Você pensa no seu cérebro como
um computador com vírus tipo cavalo de Tróia, que
espalhou inimigos por todos os caminhos: trava, não troca
a tela, não abre arquivos, a busca não funciona, você
clica, clica, e nada acontece.
Chega um momento em que as pessoas se dispersam
e vão para seus mundos, desfaz-se aquele grupo que reconheceria
pessoas e fatos e casos comuns, e ao se dispersar deixa você
com aquela falha de memória, sozinho, aquela palavra escondida
atrás de um muro, desafiando você, ou brincando com
você, e você não consegue se libertar daquela
necessidade de lembrar, e o seu dia vira um labirinto por onde você
caminha procurando a palavra.
As pessoas, outras pessoas, conversam com
você, parece que está tudo bem, mas você se distrai
na perseguição obsessiva, porque lhe pareceu, no meio
da conversa, que a tal palavra estava ali se avizinhando, ou mesmo
passou, reluzente e irrecuperável, estrela cadente.
Você custa a dormir, acorda de madrugada,
sente aquela faísca e lá está ela, a palavra,
inteira, quieta e agora inútil.
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