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13 de abril de 2005
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Mascates do século XXI

As aventuras de paulistanos que ganham
a vida vasculhando países da Ásia e do
norte da África atrás de móveis, objetos
e idéias para vender aqui

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Nana Caetano

 

Timor, Malásia e adjacências

 
Heudes Régis
Fotos arquivo pessoal
À esquerda, Andrea Simioni e Tatiana Leite na loja Casa 15, em Pinheiros. Tatiana recebe bênção no Nepal (no lato, à dir.) e Andrea negocia casaco no Laos

No Vietnã, elas experimentaram macarrão com sangue de pato coagulado. Para ir de navio do Timor para Bali, passaram trinta horas sentadas numa esteira. Nada disso, no entanto, desencoraja as empresárias Tatiana Leite, de 27 anos, e Andrea Simioni, de 28, a arrumar as malas para uma próxima viagem. Elas buscam no Sudeste Asiático os produtos que vendem na Casa 15, loja de Pinheiros inaugurada em 2003.

Decolagem – Depois da formatura em moda na Faculdade Santa Marcelina, em 2001, Tatiana e Andrea rasparam as economias e partiram para um giro de um ano pelo Timor, Vietnã, Malásia e adjacências. Nesse período, enviaram por navio seis caixas com produtos garimpados por lá. Na volta, promoveram um bazar e, com o dinheiro, compraram outras duas passagens. Três meses depois retornaram à Ásia, e a diversão virou negócio. As pequenas caixas se transformaram em contêineres. "Os custos com transporte e impostos normalmente elevam o preço da mercadoria em 100%", diz Andrea. Ainda hoje ela se surpreende ao tratar com os nativos. "Eles são capazes de vender os móveis de sua casa ou a própria roupa do corpo."

A maior aventura – Conhecer aldeias no Vietnã, onde provaram o tal macarrão com sangue de pato coagulado.

O que veio na mala – Colares de pedras do Afeganistão (a partir de 300 reais) e seda tailandesa com a qual confeccionaram túnicas (a partir de 400 reais).

 

No caminho da Índia

 
Heudes Régis
A decoradora Neza Cesar em três momentos: em sua casa no Morumbi, em uma loja de tecidos em Puttaparthi e em visita a oficina de esculturas de Mamallapuram, cidades da Índia
Fotos arquivo pessoal

A decoradora Neza Cesar é famosa por utilizar em seus projetos objetos e tecidos trazidos da Índia. De tão tarimbada no assunto, foi contratada em 2003 para enfeitar a residência da ex-consulesa indiana em São Paulo Shyella Bhojwani, no Morumbi. Neza lida de maneira peculiar com os imprevistos comuns aos, digamos, caixeiros-viajantes como ela. "Uma vez cheguei às 3 da manhã a um hotel péssimo em Mumbai (antiga Bombaim, na Índia), imundo, cheio de gente dormindo na recepção", recorda. "Não pensei duas vezes: saí de lá correndo para um cinco-estrelas."

Decolagem – Nos anos 80, o point de Neza era o Japão. Embarcava para lá assim como quem vai a Ubatuba ou Guarujá. Segundo ela, ia em busca de inspiração para as criações da confecção que tinha na época. Foram, ao todo, doze viagens. Na década seguinte virou decoradora e, em 2000, descobriu a Índia, para onde já viajou três vezes. A intenção ao fazer a primeira visita era apenas se espiritualizar. Além da paz, trouxe do Oriente 150 quilos de excesso de bagagem. "É tudo muito barato, não dá para resistir", explica. "Um sári, tecido de 7 metros que as indianas usam enrolado no corpo, sai por menos de 10 dólares."

A maior aventura – Hospedar-se em Puttaparthi, cidadezinha da Índia onde fica a casa do guru Sathya Sai Baba, de quem é devota.

O que veio na mala – Tecidos indianos que usa para fazer cortinas, almofadas e forrar sapatos.

 

Expedições chinesas

 
Heudes Régis
Fotos arquivo pessoal
Ana Asmar, dona da Wharehouse: massagem no meio da estrada em Bali (acima) e visita a antiquário e templo na Tailândia. A alguns lugares que visita para negociar móveis e objetos, só é possível chegar de bicicleta

A empresária Ana Asmar é uma excelente contadora de histórias. Quem vai comprar um vaso chinês ou uma máscara indonésia na Wharehouse, loja que tem filial em Moema e em Santo Amaro, sai encantado com o relato de suas aventuras em países como China, Indonésia, Vietnã, Tailândia, Marrocos e Índia. Para agradar aos fornecedores que vivem em pequenas aldeias, por exemplo, Ana distribui balas e chocolates. "Em alguns lugares da China, o único jeito de negociar é fazendo mímica ou apontando para a calculadora", afirma.

Decolagem – Ana nasceu no Líbano e, filha de pai egípcio e mãe brasileira, veio morar em São Paulo aos 9 anos. Aos 18, começou a rodar o mundo de mochila nas costas. Em 1986, montou uma banca de produtos asiáticos na feirinha no Shopping Iguatemi influenciada pelo pai, arqueólogo e antiquário. Hoje, suas lojas têm 30.000 peças de decoração – de estrelinhas esculpidas em madeira (ela compra pelo equivalente a 70 centavos e vende a 3 reais) a portas indianas que valem cerca de 12.000 reais. Tudo o que está lá foi escolhido pessoalmente por ela, que viaja sempre sozinha.

A maior aventura – Negociar móveis em Cixi, no interior da China. "Nem no melhor hotel da cidade se falava inglês", lembra. "Os ocidentais são tão raros lá que as pessoas corriam atrás de mim para tentar me tocar."

O que veio na mala – Vasos chineses de cerâmica (a partir de 78 reais) e luminárias marroquinas (a partir de 54 reais).

 

Entre as cobras de Bali

 

Heudes Régis
Louise e Roberto Saboya, da Indoasia: negócios em São Paulo e em Bali, onde compram mercadorias até no meio da rua
Arquivo pessoal

O casal de empresários Roberto e Louise Saboya aprendeu rapidinho a importância da barganha com os artesãos do Oriente. Sócios da Indoasia, loja de móveis indonésios e indianos que tem um galpão em São Paulo e outro em Bali, eles faturam cerca de 2 milhões de reais por ano. Quanto melhor a lábia, maior o lucro. Assim como os outros mascates paulistanos, os Saboya afirmam vender os produtos aqui a preços, em média, quatro vezes mais altos do que aqueles que pagaram originalmente.

Decolagem: Corria 1989. Roberto, carioca que se dividia entre o surfe e um trabalho burocrático no mercado financeiro, estava insatisfeito com a carreira e resolveu tirar um ano sabático. Passou quatro meses surfando na Indonésia e voltou com a mala cheia de "muamba", como ele define. Vendeu tudo e em quinze dias voltou para o Oriente e às ondas perfeitas do Índico. Quatro anos e dez viagens depois, mudou-se para São Paulo e montou o galpão da Indoasia, na Barra Funda, com Louise e mais dois sócios. Pelo menos quatro vezes por ano Roberto e Louise vão a Bali, onde têm casa, empresa e cinco funcionários. Barganhar, claro, faz parte do jogo. "Mas o mais importante é a qualidade dos produtos", diz ela, que geralmente comanda as negociações com os artesãos locais.

A maior aventura – Deparar na varanda de casa, em Bali, com uma cobra píton, que pode ter 9 metros de comprimento. "Fiquei apavorada", lembra Louise. "Essa espécie é capaz de comer uma pessoa inteira."

O que veio na mala – Banco balinês de madeira teca (a partir de 1.900 reais), máscara balinesa (280 reais) e espada de samurai (380 reais).

 

Tesouros do Oriente

 
Arquivo pessoal
Heudes Régis
Peças garimpadas em mercados da Ásia e do Marrocos decoram o restaurante Chakras, de Miguel Reis

Apesar do cardápio ocidental, o restaurante Chakras é um pedaço do Oriente nos Jardins: tem pátio interno ao ar livre com piso de azulejos, luminárias de vidro, estátuas, tecidos estampados de dourado, louças marroquinas, um pequeno bazar, com roupas e objetos de decoração, e, o mais surpreendente, mesas em formato de cama. Tudo idéia de Miguel Reis e de sua mulher e sócia, a italiana Fabiana Vizzani. Viajante profissional, Miguel coleciona há dez anos as peças da Ásia e do Marrocos que hoje enfeitam seu empreendimento.

Decolagem – Reis nasceu em Moçambique, veio para o Brasil pequeno e desde então não parou mais de viajar. O pai, português, era executivo de uma multinacional, profissão que mais tarde seria a dele. Brasileiro por parte de mãe, já morou na Alemanha, Inglaterra, Suíça e Itália, e viajou, quase sempre a trabalho e com hospedagem em hotéis de primeira linha, para a Malásia, Tailândia, Índia e Marrocos. Montou uma espécie de acervo pessoal de objetos étnicos, hoje exposto no Chakras.

A maior aventura – Comprar as luminárias do restaurante, em Marrakesh. "Eu e Fabiana conhecemos um marroquino que nos levou por becos que pareciam labirintos até chegarmos a um serralheiro", conta. "Ficamos com medo, mas compramos tudo por um terço do valor que tinha sido pedido no mercado."

O que veio na mala – Cuscuzeira (220 reais) e prato para frutas (350 reais), ambos marroquinos.

     
   
 
 
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