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NEGÓCIOS
Mascates do século XXI As aventuras de paulistanos
que ganham a vida vasculhando países da Ásia e do norte
da África atrás de móveis, objetos e idéias para
vender aqui
Nana
Caetano
Timor, Malásia
e adjacências Heudes
Régis
 | Fotos
arquivo pessoal
 |  | | À
esquerda, Andrea Simioni e Tatiana Leite na loja Casa 15, em Pinheiros. Tatiana
recebe bênção no Nepal (no lato, à dir.) e Andrea
negocia casaco no Laos |
No Vietnã,
elas experimentaram macarrão com sangue de pato coagulado. Para ir de navio
do Timor para Bali, passaram trinta horas sentadas numa esteira. Nada disso, no
entanto, desencoraja as empresárias Tatiana Leite, de 27 anos, e Andrea
Simioni, de 28, a arrumar as malas para uma próxima viagem. Elas buscam
no Sudeste Asiático os produtos que vendem na Casa 15, loja de Pinheiros
inaugurada em 2003. Decolagem Depois
da formatura em moda na Faculdade Santa Marcelina, em 2001, Tatiana e Andrea rasparam
as economias e partiram para um giro de um ano pelo Timor, Vietnã, Malásia
e adjacências. Nesse período, enviaram por navio seis caixas com
produtos garimpados por lá. Na volta, promoveram um bazar e, com o dinheiro,
compraram outras duas passagens. Três meses depois retornaram à Ásia,
e a diversão virou negócio. As pequenas caixas se transformaram
em contêineres. "Os custos com transporte e impostos normalmente elevam
o preço da mercadoria em 100%", diz Andrea. Ainda hoje ela se surpreende
ao tratar com os nativos. "Eles são capazes de vender os móveis
de sua casa ou a própria roupa do corpo." A
maior aventura Conhecer aldeias no Vietnã, onde provaram o tal
macarrão com sangue de pato coagulado. O
que veio na mala Colares de pedras do Afeganistão (a partir
de 300 reais) e seda tailandesa com a qual confeccionaram túnicas (a partir
de 400 reais). No caminho da Índia Heudes
Régis
 | | A
decoradora Neza Cesar em três momentos: em sua casa no Morumbi, em uma loja
de tecidos em Puttaparthi e em visita a oficina de esculturas de Mamallapuram,
cidades da Índia | Fotos arquivo
pessoal
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A decoradora Neza Cesar é famosa por utilizar em seus projetos objetos
e tecidos trazidos da Índia. De tão tarimbada no assunto, foi contratada
em 2003 para enfeitar a residência da ex-consulesa indiana em São
Paulo Shyella Bhojwani, no Morumbi. Neza lida de maneira peculiar com os imprevistos
comuns aos, digamos, caixeiros-viajantes como ela. "Uma vez cheguei às
3 da manhã a um hotel péssimo em Mumbai (antiga Bombaim, na Índia),
imundo, cheio de gente dormindo na recepção", recorda. "Não
pensei duas vezes: saí de lá correndo para um cinco-estrelas."
Decolagem Nos anos 80, o point de Neza era o
Japão. Embarcava para lá assim como quem vai a Ubatuba ou Guarujá.
Segundo ela, ia em busca de inspiração para as criações
da confecção que tinha na época. Foram, ao todo, doze viagens.
Na década seguinte virou decoradora e, em 2000, descobriu a Índia,
para onde já viajou três vezes. A intenção ao fazer
a primeira visita era apenas se espiritualizar. Além da paz, trouxe do
Oriente 150 quilos de excesso de bagagem. "É tudo muito barato, não
dá para resistir", explica. "Um sári, tecido de 7 metros que as
indianas usam enrolado no corpo, sai por menos de 10 dólares."
A maior aventura Hospedar-se em Puttaparthi,
cidadezinha da Índia onde fica a casa do guru Sathya Sai Baba, de quem
é devota. O que veio na mala
Tecidos indianos que usa para fazer cortinas, almofadas e forrar sapatos.
Expedições chinesas Heudes
Régis
 | Fotos
arquivo pessoal
 | | Ana
Asmar, dona da Wharehouse: massagem no meio da estrada em Bali (acima)
e visita a antiquário e templo na Tailândia. A alguns lugares que
visita para negociar móveis e objetos, só é possível
chegar de bicicleta |
A empresária Ana Asmar é uma excelente contadora
de histórias. Quem vai comprar um vaso chinês ou uma máscara
indonésia na Wharehouse, loja que tem filial em Moema e em Santo Amaro,
sai encantado com o relato de suas aventuras em países como China, Indonésia,
Vietnã, Tailândia, Marrocos e Índia. Para agradar aos fornecedores
que vivem em pequenas aldeias, por exemplo, Ana distribui balas e chocolates.
"Em alguns lugares da China, o único jeito de negociar é fazendo
mímica ou apontando para a calculadora", afirma. Decolagem
Ana nasceu no Líbano e, filha de pai egípcio e mãe
brasileira, veio morar em São Paulo aos 9 anos. Aos 18, começou
a rodar o mundo de mochila nas costas. Em 1986, montou uma banca de produtos asiáticos
na feirinha no Shopping Iguatemi influenciada pelo pai, arqueólogo e antiquário.
Hoje, suas lojas têm 30.000 peças de decoração
de estrelinhas esculpidas em madeira (ela compra pelo equivalente a 70 centavos
e vende a 3 reais) a portas indianas que valem cerca de 12.000 reais. Tudo o que
está lá foi escolhido pessoalmente por ela, que viaja sempre sozinha.
A maior aventura Negociar móveis
em Cixi, no interior da China. "Nem no melhor hotel da cidade se falava inglês",
lembra. "Os ocidentais são tão raros lá que as pessoas corriam
atrás de mim para tentar me tocar." O
que veio na mala Vasos chineses de cerâmica (a partir de 78 reais)
e luminárias marroquinas (a partir de 54 reais). Entre
as cobras de Bali Heudes
Régis
 | | Louise
e Roberto Saboya, da Indoasia: negócios em São Paulo e em Bali,
onde compram mercadorias até no meio da rua |
Arquivo pessoal
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O casal de empresários Roberto e Louise Saboya aprendeu rapidinho a importância
da barganha com os artesãos do Oriente. Sócios da Indoasia, loja
de móveis indonésios e indianos que tem um galpão em São
Paulo e outro em Bali, eles faturam cerca de 2 milhões de reais por ano.
Quanto melhor a lábia, maior o lucro. Assim como os outros mascates paulistanos,
os Saboya afirmam vender os produtos aqui a preços, em média, quatro
vezes mais altos do que aqueles que pagaram originalmente. Decolagem:
Corria 1989. Roberto, carioca que se dividia entre o surfe e um trabalho burocrático
no mercado financeiro, estava insatisfeito com a carreira e resolveu tirar um
ano sabático. Passou quatro meses surfando na Indonésia e voltou
com a mala cheia de "muamba", como ele define. Vendeu tudo e em quinze dias voltou
para o Oriente e às ondas perfeitas do Índico. Quatro anos e dez
viagens depois, mudou-se para São Paulo e montou o galpão da Indoasia,
na Barra Funda, com Louise e mais dois sócios. Pelo menos quatro vezes
por ano Roberto e Louise vão a Bali, onde têm casa, empresa e cinco
funcionários. Barganhar, claro, faz parte do jogo. "Mas o mais importante
é a qualidade dos produtos", diz ela, que geralmente comanda as negociações
com os artesãos locais. A maior aventura
Deparar na varanda de casa, em Bali, com uma cobra píton, que
pode ter 9 metros de comprimento. "Fiquei apavorada", lembra Louise. "Essa espécie
é capaz de comer uma pessoa inteira." O
que veio na mala Banco balinês de madeira teca (a partir de 1.900
reais), máscara balinesa (280 reais) e espada de samurai (380 reais).
Tesouros do Oriente Arquivo
pessoal
 | Heudes
Régis
 | | Peças
garimpadas em mercados da Ásia e do Marrocos decoram o restaurante
Chakras, de Miguel Reis |
Apesar do
cardápio ocidental, o restaurante Chakras é um pedaço do
Oriente nos Jardins: tem pátio interno ao ar livre com piso de azulejos,
luminárias de vidro, estátuas, tecidos estampados de dourado, louças
marroquinas, um pequeno bazar, com roupas e objetos de decoração,
e, o mais surpreendente, mesas em formato de cama. Tudo idéia de Miguel
Reis e de sua mulher e sócia, a italiana Fabiana Vizzani. Viajante profissional,
Miguel coleciona há dez anos as peças da Ásia e do Marrocos
que hoje enfeitam seu empreendimento. Decolagem
Reis nasceu em Moçambique, veio para o Brasil pequeno e desde
então não parou mais de viajar. O pai, português, era executivo
de uma multinacional, profissão que mais tarde seria a dele. Brasileiro
por parte de mãe, já morou na Alemanha, Inglaterra, Suíça
e Itália, e viajou, quase sempre a trabalho e com hospedagem em hotéis
de primeira linha, para a Malásia, Tailândia, Índia e Marrocos.
Montou uma espécie de acervo pessoal de objetos étnicos, hoje exposto
no Chakras. A maior aventura Comprar
as luminárias do restaurante, em Marrakesh. "Eu e Fabiana conhecemos um
marroquino que nos levou por becos que pareciam labirintos até chegarmos
a um serralheiro", conta. "Ficamos com medo, mas compramos tudo por um terço
do valor que tinha sido pedido no mercado." O
que veio na mala Cuscuzeira (220 reais) e prato para frutas (350 reais),
ambos marroquinos. |