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EXPOSIÇÃO Um
século de arte A Pinacoteca inicia as comemorações
de seus 100 anos com uma grande mostra de 239 trabalhos do escultor britânico
Henry Moore Lúcia Monteiro e Orlando Margarido
Mario Rodrigues  | gues
 | | A
fachada do prédio da Praça
da Luz e, à direita, a escultura Guerreiro Goslar: o conjunto das
obras está avaliado em 270 milhões de reais |
Nesta semana, a partir de terça-feira
(12), a Pinacoteca do Estado será a estrela mais brilhante na constelação
paulistana das artes. O 1º andar do edifício de tijolos aparentes
projetado por Ramos de Azevedo estará recheado com peças do inglês
Henry Moore (1898-1986), um dos escultores mais importantes do século XX.
Trata-se de uma mostra literalmente de peso juntas, as 117 esculturas somam
20 toneladas. Cedidas pela Fundação Henry Moore, as obras estão
avaliadas em 270 milhões de reais e constituem a maior retrospectiva do
artista realizada até hoje fora da Europa. O feito se viabilizou após
dois anos de negociações com o Conselho Britânico. E tem mais.
A megaexposição chega em um momento de festa no prédio da
Praça da Luz, número 2: neste ano, a instituição comemora
seu centenário. O evento reforça
os holofotes sobre o museu, um dos mais freqüentados da cidade. Em 2004,
ele recebeu uma média mensal de 33.000 visitantes. É um número
próximo ao do público do Masp (36.000), que tem uma localização
nobre, na Avenida Paulista, e o maior tesouro artístico do Hemisfério
Sul, incluindo desde um clássico Velázquez até modernas telas
de Picasso e Monet. Menos abrangente, a coleção da Pinacoteca é
incomparável quando se trata da arte brasileira, especialmente do século
XIX. Soma 6.300 peças, das quais 1.100 ficam permanentemente expostas no
2º andar. Cada uma tem uma história, pois seu acervo foi montado aos
poucos, ao contrário, por exemplo, do Museu de Arte Contemporânea
da USP (MAC), que herdou o espólio do mecenas Ciccillo Matarazzo. Mestiço,
o primeiro óleo de Portinari vendido a um museu, chegou em 1935. A escultura
A Portadora de Perfume é uma retribuição de Victor
Brecheret à bolsa de pesquisa que o manteve na Europa por um ano. Essa
lista cresce a cada nova exposição na última, a fotógrafa
Cláudia Andujar doou 26 ampliações. Não é só
o valioso acervo que atrai os visitantes. O museu organiza cerca de quarenta mostras
temporárias por ano, algumas delas de grandes artistas internacionais.
Em 2003, as telas do holandês Albert Eckhout atraíram 180.000 pessoas.
Quando se fala das exposições arrasa-quarteirão da Pinacoteca,
é impossível não lembrar a que reuniu em 1995 um conjunto
de 58 bronzes do mestre francês Auguste Rodin, vistos por 150.000 pessoas,
até então um recorde.
Alexandre Schneider  |
| O diretor Marcelo Araújo, no salão que reúne preciosidades
da arte brasileira: esforço para conquistar freqüentadores fiéis | Espera-se
que os ousados contornos criados por Henry Moore repitam esse sucesso. Para muitos,
aliás, Moore é uma espécie de Rodin do século XX.
Sétimo filho de um operário de mina de carvão, o inglês
recebeu péssimas críticas no início de sua carreira. Isso
não o desanimou. Persistiu e conseguiu uma produção extensa,
depois reconhecida por seu valor revolucionário. É autor de quase
12.000 obras, muitas delas de formas abstratas, que requerem um olhar atento e
demorado. Teve também muitas fases figurativas, cujas peças logo
devem cair no gosto dos paulistanos. Algumas são tão tocantes quanto
O Beijo de Rodin. As séries de mães e filhos que Moore adorava
esculpir estão entre as preferidas do público. "Foi uma maneira
que ele encontrou para juntar formas pequenas e grandes no mesmo trabalho", diz
o curador David Mitchinson, um dos responsáveis pela Fundação
Henry Moore. Sua principal marca são corpos reclinados, de variados tamanhos:
desde miniaturas de 8 centímetros de comprimento até realizações
em escala monumental, de 3 ou 4 metros. Outra característica notável
é a brincadeira constante entre os materiais usados (mármore, bronze
e concreto) e a leveza representada por barbantes.
Fotos Alexandre Schneider  | ider
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| Caipira Picando Fumo
(1893) e A Pintura (1891): duas das
cinqüenta obras de Almeida Júnior que estão no acervo |
A maioria das esculturas ficará
abrigada no interior do prédio. Devido ao peso, bronzes como Cabeça
Grande de Totem I e Oval com Pontas tiveram de ser dispostos do lado
de fora. É bem em frente a esse último, de 700 quilos, instalado
na entrada do museu, que são esperadas filas nos fins de semana. A cena
seria impensável há treze anos, quando Emanoel Araújo, atual
secretário municipal de Cultura, assumiu sua direção. Na
época, a Pinacoteca vivia meio às moscas, mais ou menos como infelizmente
acontece hoje em dia com o Museu da Imagem e do Som (MIS). Ele liderou a metamorfose
da Pinacoteca, antes uma espécie de patinho feio no circuito paulistano
das artes plásticas. Além de trazer as esculturas de Rodin (dez
ficaram de presente), Emanoel Araújo conseguiu 10 milhões de reais
para uma reforma que deixou o interior do prédio tinindo de novo e resolveu
um problema antigo: a falta de espaço para exposições.
No seu início, a Pinacoteca ocupava
apenas uma sala no último andar. No mesmo endereço funcionava desde
1900 o Liceu de Artes e Ofícios, comandado por Ramos de Azevedo. Nas décadas
seguintes, quando o museu recebeu pinturas de Almeida Júnior, Pedro Alexandrino
e Oscar Pereira da Silva, surgiram outros inquilinos, como a Escola de Arte Dramática,
a Escola de Belas Artes e um ginásio estadual. Durante a Revolução
de 1932, o prédio chegou a servir de alojamento militar. Convocado para
reformá-lo em 1993, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha bolou soluções
criativas. "O prédio era frágil e até mal construído",
avalia Rocha, que terminaria o trabalho cinco anos depois. "Tive de reforçá-lo
e fiz transformações sem descaracterizar a construção
que existia." Um dos mais bonitos ambientes criados por ele é o octógono,
um vão central coberto por uma clarabóia. Ali, sob abundante luz
natural, estarão três das maiores esculturas de Henry Moore. "Escolhemos
a Pinacoteca pela ótima estrutura e por seus amplos salões, adequados
para receber grandes volumes", explica o curador Mitchinson, que percorreu diversos
museus brasileiros antes de encontrar o espaço ideal. "A luminosidade de
lá é encantadora."
Um verdadeiro sopro de vitalidade passou pela região com a renovação
da Pinacoteca. Até então, o entorno era conhecido pela degradação
de seus edifícios históricos, como a Estação da Luz,
a Estação Júlio Prestes e a Igreja de São Cristóvão.
Foram todos recuperados de sete anos para cá (veja
quadro). A última lufada de preservação atingiu
o prédio do antigo Dops, mais um de Ramos de Azevedo. Ali se instalou a
Estação Pinacoteca, palco de exposições que não
caberiam na Pinacoteca do Estado e abrigo para as mais de 2.000 gravuras do acervo.
A conquista do novo endereço viabilizou a acolhida dos 200 trabalhos de
artistas brasileiros que pertenciam à família Nemirovsky, cedidos
em comodato. "É ótimo termos espaço para acomodar essa coleção
valiosa", diz Maria Alice Milliet, ex-diretora da Pinacoteca.
Discreto e aplicado, o professor de museologia Marcelo Araújo (que não
tem nenhum parentesco com seu antecessor, Emanoel) dirige o museu desde 2002.
Tem um orçamento anual de 1,5 milhão de reais, reforçado
com patrocínios, claro. Nesses três anos, apareceu pouco, realizou
muito e ganhou a simpatia de artistas e críticos. Conquistou um público
fiel, do tipo que vai lá toda semana, nem que seja para tomar um café
nas mesinhas de frente para o Jardim da Luz. "O grande objetivo agora é
ampliar o número de visitantes", diz ele. "Queremos que a Pinacoteca tenha
um lugar privilegiado no coração de todos os paulistanos."
| Henry Moore. Pinacoteca do Estado.
Praça da Luz, 2,
3229-9844, Metrô Luz. Terça a domingo, 10h às 18h. A bilheteria
fecha meia hora antes. R$ 4,00. Grátis aos sábados. Até
12 de junho. A partir de terça (12). |
| Curiosidades do museu
A Pinacoteca começou a funcionar em 1905 dentro
do prédio do Liceu de Artes e Ofícios, ali fundado cinco anos antes.
Apenas 26 peças, doadas pelo Museu do Ipiranga, formavam seu acervo inicial
De autoria do arquiteto Ramos
de Azevedo, o projeto original nunca foi concluído na íntegra. Previa
uma cúpula sobre o pátio interno e reboco na fachada, ou seja, os
tijolos não deveriam ser aparentes
Alexandre Schneider  |
Além de reunir
4000 livros, a biblioteca da Pinacoteca guarda muitas relíquias de artistas.
Há, por exemplo, uma cadernetinha em que a pintora Tarsila do Amaral anotava
as receitas para preparar suas telas e tintas
Algumas das maiores preciosidades de lá são as telas Caipira
Picando Fumo, de Almeida Júnior, Mestiço, de Portinari,
e São Paulo, de Tarsila do Amaral. Entre as esculturas, destacam-se
dez trabalhos do francês Auguste Rodin e A Portadora de Perfume,
de Brecheret O museu tem hoje
6 300 obras. Cerca de 1 100 estão em exposição o restante
fica armazenado na reserva técnica. São gravuras, desenhos, pinturas,
fotografias e esculturas, além de peças de tapeçaria, vestuário,
colagem, cerâmicas e outros objetos
Alexandre Schneider  |
Trabalham na Pinacoteca
163 pessoas. A funcionária mais antiga é Lucila de Sá Carneiro,
72 anos, bibliotecária desde 1971
A estrela que serve de símbolo do centenário da Pinacoteca
está gravada em todos os tijolos do prédio, pois era a marca da
olaria que os produziu São
servidos na lanchonete 600 cafés por fim de semana, a 1,70 real
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| Algumas das boas mostras
programadas na Pinacoteca até 2006 2005 Maio
Wesley Duke Lee (1931) O paulistano sacudiu a cidade nos anos 60.
Foi o primeiro a trabalhar com o realismo mágico, a tecnologia na arte
e o chamado happening, uma atividade artística ao vivo
Junho Antônio Ferrigno (1863-1940)
No período em que morou em São Paulo, o pintor italiano criou
paisagens representando a cidade e seus arredores, muitas delas depositadas no
acervo da instituição
Julho
Evandro Carlos Jardim (1935) Uma das mais bonitas séries desse
gravador e professor paulistano é dedicada ao Pico do Jaraguá. Seus
trabalhos são considerados fundamentais na história da gravura brasileira
Thomaz Farkas (1924) O fotógrafo
de origem húngara integrou o precursor Foto Cine Clube Bandeirante e ganhou
fama com imagens como as da construção de Brasília
Setembro Portugal Novo Otima
oportunidade para conhecer o que há de mais atual na produção
portuguesa, numa extensa seleção de artistas contemporâneos
Divulgação  |
Xul Solar (1887-1963) Inquieto por
natureza, o argentino quebrou a monotonia da cena portenha com seus desenhos,
aquarelas e pinturas de fonte surrealista
Novembro Freitas Valle (1870-1958) e a
Villa Kyrial Mário de Andrade definia a chácara da Vila
Mariana, berço do modernismo de 1922, como um "oásis cultural".
O responsável por tanto agito era o mecenas José de Freitas Valle,
fundador da Pinacoteca
Frans Krajcberg (1921)
Esse eremita da arte brasileira, polonês de origem, recolhe na região
de Nova Viçosa, na Bahia, troncos de árvores mortas para esculturas
originais 2006
Março
Almeida Júnior (1850-1899) O paulista domina uma sala no 2º
andar do prédio. Pinturas como Caipira Picando Fumo confundem-se
com as raízes do academicismo e com as propostas embrionárias da
Pinacoteca Fulvio
Pennacchi (1905-1992) No Palacete Santa Helena, onde hoje está
a Estação Sé do metrô, esse pintor especializado em
afrescos ocupava um ateliê ao lado de artistas como Alfredo Volpi e Francisco
Rebolo Setembro
100 Artistas, 100 Obras O marco secular do endereço da Luz
é abordado nessa coletiva com frescor. Trata-se de trabalhos da arte contemporânea
brasileira
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