Walcyr Carrasco

Cena eletrônica

Um tour pela democrática noite paulistana

Só os iniciados participam, mas a noite paulistana vibra com a música eletrônica. Como sou um bom dorminhoco, não posso imaginar alguém chegando a uma casa noturna ao amanhecer. Mas já vi gente ir deitar-se à meia-noite para acordar às 3 da manhã e sair para a farra. Tem quem chegue às 5, 6 da manhã, para ficar na pista até depois do meio-dia, com pique total. Resolvi fazer um tour por esse mundinho tão exclusivo. Já tinha ouvido falar em raves, mas não sabia bem o que eram. Descobri. São megafestas de música eletrônica, boa parte delas em sítios. Houve uma em Bragança Paulista com cerca de 1.000 jovens dentro de uma caverna. Que farra, hem?

O povo eletrônico adora as lojas da Galeria Ouro Fino, com sua moda arrojada, cibercafé, estúdios de tatuagem e piercing. Seus templos são casas noturnas como Lov.e, Disco e Botechno, na região da Vila Olímpia e do Itaim. Há também a Club, mais elitizada, e A Lôca, mais underground. Essa turma gosta de usar a palavra absurdo:

– Meu, eu fui numa festa absurda.

Traduzido para o meu tempo, seria como:

– Foi uma brasa, mora!

Os eletrônicos dividem-se em tribos, com jeito próprio de viver:

Modernosos: cabelos cortados na última moda. Não dispensam uma tatuagem. Vestem-se com trajes que vão dos encontrados no brechó aos da última coleção lançada em Milão pelo estilista John Galliano, seu ídolo. São do tipo que abre a cômoda da vovó, acha uma pulseirinha, bota com uma roupa preta e se sente o máximo.

Clubbers: estou pasmo! Descobri que já existe o clubber "tradicional". Virou uma categoria quase fora de moda. Embora eles façam questão exatamente disso, de estar na moda. É o tal mundinho fashion. Adoram usar expressões do tipo:

– Ela é fashion.

– A festa era "tipo incrível".

– Botei uma roupinha "básica".

– Eu estava saindo com ela e era "tudo de bom" até que... oh, meu Deus!

Mauricinhos e patricinhas: manjadérrimos. Eles ostentam relógios e carros. Elas são aferradas a um salto alto, calça justa, tops, acessórios de ouro e prata. Os cabelos, muitas vezes loiríssimos, são esticados com fervor. Assim, todas evitam chuva, pois algumas gotas no penteado podem transformá-las em poodles!

Neo-hippies: nos anos 70, os hippies queriam viver à parte, na base da paz e do amor. Os de hoje fizeram o caminho inverso: são conectados com o mundo, têm acesso à informação, à cultura. Adoram uma roupa fantasiosa: cabelos com trancinhas à Bob Marley, mas menos radicais. Roupas com muita renda, cores, grafismos. Calças boca-de-sino para eles, lenços gigantescos para elas.

Góticos: roupas pretas, ar melancólico. Usam maquiagem para parecer mais pálidos, no melhor estilo conde Drácula – aliás, o grande patrono dos góticos. Reúnem-se principalmente no já tradicional Madame Satã, na Bela Vista. Dizem que caminham para a extinção.

Cibermanos: invadem as raves e entram em grupos barulhentos nas casas noturnas. Vêm da periferia, sempre em turma. Uma garota típica poderia usar sapatos laranja, maria-chiquinha verde e vestido prata. Os rapazes também gostam de um figurino colorido. Assustam os outros com seu jeito mais radical.

Juro, fiquei fascinado com a cena eletrônica da cidade. Não que eu me assemelhe a qualquer uma das tribos. Com o meu entusiasmo, na pista de dança mais pareço um elefante em um galinheiro. Nem por isso me senti constrangido. Boa parte adora óculos escuros, mesmo na madrugada. Fica impossível perceber os olhares de surpresa ou, quem sabe, desdém. Pois, afinal, o que um barrigudinho como eu estaria fazendo no meio dessa turma?

 

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