Novidades do baú

Escolher o visual num brechó ficou fácil.
Há mais lojas na cidade e as peças nem
sempre
têm a cara da vovó

Valéria França

 
Fotos Mário Rodrigues/Cabelo e maquiagem Edu Lopes/M2 Agent
"Adorei. Faço mesmo um estilo mais hominho. O Supla tem um olhar muito desenvolvido."
Costanza Pascolato, consultora de moda
"Fiquei um lorde inglês, mas não perdi o jeito de roqueiro. Gosto de roupas como estas, diferentes e com personalidade."
Supla,
cantor
Por R$ 260,00
Terno risca de giz de casimira inglesa (80 reais), sandália vermelha da década de 80 (20 reais), anéis de strass e metal banhados a ouro branco (60 reais), broche de metal dourado e cristal imitando uma aranha (80 reais) e brincos em formato de dado (20 reais). Minha Avó Tinha
Por R$ 320,00
Calça boca-de-sino de anarruga (60 reais), foulard (40 reais), paletó de chambre de veludo cristal (150 reais), sapato branco de couro (40 reais) e bengala de cana- da-índia (30 reais). Minha Avó Tinha

O que não falta nos brechós da cidade são mercadorias coloridas penduradas em araras e enfurnadas em gavetinhas de móveis antigos. Essa suposta desorganização afastava muitos consumidores paulistanos, que nunca se imaginaram garimpando roupas dentro de um deles. A boa notícia é que essas lojas se modernizaram e ampliaram suas ofertas. Hoje, não investem apenas em peças de grife e usadas. Aproveitam a fama de barateiras para vender também produtos novos, muitas vezes conservando o jeitão de antigo. Tops de vidrilhos trazidos de Nova York, que remetem à década de 30, brilham entre modelos mais surrados no tradicional brechó Troço sem Traça, na Vila Madalena. "É uma forma de quebrar preconceitos e conquistar mais clientes", diz o dono, Paulo Rogério Giorgi. O negócio se popularizou ainda mais depois que Ivete, personagem de Vera Fischer na novela O Clone, virou dona de um. No último semestre, só em São Paulo foram inaugurados quatro.

Aberto em setembro, o Pepi, Luci, Bom, na Vila Madalena, vende roupas customizadas, isto é, atualizam o velho. Transformam uma colcha de piquê da década de 60, por exemplo, em uma calça estilo 70 – 50 reais. O Guaraná de Rolha, inaugurado há quatro meses numa modesta galeria da Rua Augusta, usa como chamariz roupas e acessórios de gente famosa. Lá, é possível encontrar as extravagantes camisas que o vocalista Tato usa nos shows do grupo de forró Falamansa (veja quadro). "As pessoas entram atraídas por isso, mas sempre esbarram em outros achados", diz Malena Cremonini, uma das sócias. No mês passado, uma modelo deixou ali (em consignação) um sapato feito pelo estilista Marcelo Sommer. Ela usou o par 37 apenas uma vez na passarela. "Espalhei a notícia, e formou-se uma fila de pretendentes em minha porta", conta. "Parecia a história da Cinderela." Não é para menos. O sapato preto e branco foi arrematado por 30 reais, quase um sétimo do preço de um exemplar vendido na loja de Sommer nos Jardins.

 
"Iria assim a uma festa. Fiquei com cara de pequeno príncipe."
Max Fivelinha, apresentador da MTV

Por R$ 120,00

Óculos Jack-O (45 reais), blusa de seda de babado e renda (20 reais), colete bordado de algodão (10 reais), calça listrada de linho (15 reais) e coturno de couro (30 reais).
Troço sem Traça
Fotos Heudes Régis
"Estava em dúvida se encontraria roupas no meu estilo. Adorei as fivelinhas do cabelo."
Cecilia Neves, designer de jóias

Por R$ 130,00

Vestido verde de lese de fita passada (100 reais) e colar de pérolas falsas (30 reais). Garage Sale
Usou sua própria sandália e as fivelinhas de Max.

Na última terça-feira, a convite de Veja São Paulo, seis personalidades visitaram alguns brechós da cidade. Missão: um produzir o visual do outro com as peças encontradas ali. Alguns tiveram dificuldade. A jornalista Erika Palomino, por exemplo, não conseguiu encontrar uma calça que coubesse na apresentadora Luciana Gimenez (1,20 metro de pernas). Neste caso, ela criou um look aproveitando o jeans da própria apresentadora.

"Optei por um estilo anos 70, com referências Dolce & Gabbana, Miu Miu e Luella", explica Erika. A jornalista escolheu um casaco de antílope e uma blusa de seda transparente estampada na Passado Presente Bric à Brac. Há quinze anos, a loja instalada no subsolo da Galeria Ouro Fino faz sucesso entre os modernos. Como acessórios, optou por uma bolsa e chapéu de palha. "Até sairia assim, mas se alguém me perguntasse diria que meu look é da Erika", brincou Luciana, que acabou comprando um vestido preto rodado. Nas mãos da apresentadora, a jornalista virou uma princesinha: vestido preto comportado tomara-que-caia de tafetá da década de 80 e bolsinha preta.a de tafetá da década de 80 e bolsinha preta. "Eu nunca me vestiria com essas roupas", disse Erika, que gosta de xeretar nos brechós, porém evita muitas visitas por ser alérgica à poeira. "Mas ficou surpreendentemente bom!"

O cantor Supla e a consultora de moda Costanza Pascolato foram aventurar-se no Minha Avó Tinha, instalado em um casarão nas Perdizes. Lá, tudo que está à venda não tem menos de cinco anos de vida. O lugar, porém, é estiloso e oferece roupas bem datadas em ótimo estado de conservação. Nada de poeira nem mofo. É o endereço certo para quem quer óculos Jack-O (40 reais) ou paletó estilo Beatles (80 reais). Há dez anos no mercado, a loja é a queridinha dos produtores de moda e figurinistas. As ofertas que saem direto do baú fazem a cabeça até dos mais exigentes. Agradaram a elegante Costanza, que costuma pesquisar o mercado de usados com o objetivo de tirar referências para sua fábrica de tecidos, e Supla, que nunca pisou em um. "Esporadicamente arremato peças para meu guarda-roupa", conta ela. O cantor, que gosta de bolar seus modelitos, tem suas calças de couro confeccionadas por uma amiga, em Nova York. "Ela também faz as roupas dos Rolling Stones", garante. Mesmo assim, gostou do visual escolhido por Costanza. "Pareço um lorde inglês. O casaco lembra o do meu show", disse o roqueiro assim que se olhou no espelho. Ele estava com um paletó de chambre vinho de veludo cristal, sem camisa por baixo, tendo apenas um foulard amarelo como arremate. Uma calça de linho de riscas coloridas com boca-de-sino deu o tom divertido. Sentindo-se muito à vontade, ele saiu à procura de uma bengala. "Desculpe interferir, mas é um acessório que está fazendo falta", disse.

 

 

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