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Walcyr
Carrasco
A
praça
Da
turma do couvert aos bancos da República
No
final da adolescência, meu sonho era ser ator. Até
fiz pontas no teatro. O salário era baixo, mas eu cumpria
o ritual de todos os candidatos a astro. Ia religiosamente
ao restaurante Gigetto, onde famosos e aspirantes se cruzavam
(por sinal, o Gigetto mantém até hoje a tradição).
Eu pertencia à turma do couvert. Espécime que,
por falta de fundos, se contentava em filar o couvert alheio.
Puxava uma cadeira e me pendurava em mesas lotadas. Tomava
no máximo um refrigerante. Surrupiava azeitonas e pedaços
de pão com manteiga. Tipos como eu eram comuns. A ponto
de, em certa época, o Piolin, outra meca de aspirantes
a ator, exigir que pelo menos alguém na mesa pedisse
um prato. Entrava no restaurante e espreitava mesa por mesa,
até achar algum conhecido com emprego suficiente para
encomendar um frango à passarinho. As horas passavam,
com longas conversas sobre testes, espetáculos a ser
montados etc. Onde estavam procurando um magricela loirinho
e tão míope a ponto de ser capaz de cair do
palco?
Havia
um problema de horário. Invariavelmente, a chamada
classe teatral ia ao restaurante depois dos espetáculos.
Eu morava no bairro da Lapa, e o ônibus parava à
meia-noite, para voltar a circular ao amanhecer. Eram bons
tempos. Para mim, ao menos. Embora não certamente para
meus pais, que viviam descabelados, olhando a cada quinze
minutos pela janela.
Não veio ainda murmurava minha mãe.
Já está na hora de ele tomar jeito! rosnava
meu pai.
Se não
pintava nenhuma festa, só havia uma maneira de chegar
em casa. Ficar conversando até o amanhecer. Eu e meus
amigos, a pé como eu, caminhávamos pelas ruas,
batendo papo. Um casal de amigos vivia em uma quitinete da
Rua Caio Prado. Era comum receberem meia dúzia de visitantes
às 2 da manhã. Acordavam e ficavam conversando
até o sol raiar. Ou nos acomodávamos no chão,
para esperar o fim da madrugada. Isso quando não éramos
impedidos de entrar pelo porteiro do prédio, que fiscalizava
o excesso de bagunça.
Mas,
na maioria das noites, andávamos. Não bebíamos,
como possa parecer. Só caminhávamos, falando
sobre a vida, sonhos, arte, projetos. Ou sobre a vida alheia,
porque ninguém é de ferro. Lembro-me especialmente
de uma noite em que, junto com um amembro-me especialmente
de uma noite em que, junto com um amigo, Cândido, sentei
em um banco da Praça da República. Absolutamente
vazia. A não ser por uns patos que viviam no laguinho.
Cândido não era ator, mas adorava a noite. Vivia
em uma pensão no raio que o parta. A família
do interior esperava a decisão de um inventário.
Nunca mais o vi e, às vezes, tento imaginar o que aconteceu
com ele. Soube, há anos, que a tal fortuna saiu. Já
é uma vantagem. Passamos a noite batendo papo naquele
banco. Ele lamentava-se. Acabara de romper com a namorada,
trocado por um baiano que ela conhecera no Carnaval em Salvador.
Falamos longamente sobre a vida. Às vezes passava alguém
e nos olhava. Ou até cumprimentava de longe e continuava
seu caminho. O dia amanheceu e nem sentimos o tempo passar.
Ainda fomos tomar uma média com pão e manteiga.
Fui ao ponto, peguei o ônibus. Quase dormi no banco,
mas cheguei em casa leve, após uma boa noite de conversa.
Hoje,
por uma dessas coincidências da vida, moro em um apartamento
que dá frente para a Praça da República.
Patinhos no lago, nem pensar. Não resistiriam mais
de meia hora, até serem levados, depenados e assados.
Quando quero atravessar a praça, evito passar por cima.
Prefiro ir por baixo, pela estação de metrô,
que é mais segura. Outro dia estava com um vizinho,
pronto para voltar à superfície pela escada
rolante. Um rapaz aproximou-se, chocado.
Fui cercado por seis pivetes. Queriam minha carteira, nem
sei como estou aqui.
Meu vizinho
recuou, com medo. Eu ainda conversei. O rapaz só queria
desabafar, ainda tremia. O síndico do meu prédio
participa de um grupo que tenta fazer tai chi na praça.
Pouca gente vai, mas ele insiste a duras penas. Há
sujeira. Há uma coisa pesada no ar. Nunca mais sentei
em um banco, nem mesmo de dia.
Juro,
tenho saudade daquele tempo em que ficar conversando na praça
podia ser uma coisa normal. Não só nela. Não
conheço ninguém capaz de cometer a ousadia de
sentar-se em uma praça, mesmo em um bairro, e passar
a noite batendo papo. Parece que o centro, com tanto policiamento,
ainda é o lugar mais seguro. Pois, em muitos bairros,
assaltam-se até prédios inteiros. Havia menos
linhas de ônibus. Menos projetos disso e daquilo. Mas
o laguinho podia ter patos.
Sinto
que perdi alguma coisa essencial. Hoje, tenho meu apartamento,
carro. Não preciso esperar o horário do ônibus.
Mas, no fundo, sou proprietário de muito menos. Antes,
eu era dono da cidade.
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