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PERFIL Um mestre
em exibir São Paulo Fera no escracho e no
suspense à la Hitchcock, o novelista Silvio de Abreu chega ao
auge de sua carreira levando a cidade em que nasceu ao horário nobre Mônica
Santos
Lailson Santos  |
| Abreu, na sacada do seu apartamento, nos Jardins: o palco
das novelas a seus pés |
Ele está rindo à toa. Enquanto no
país ainda repercutem os destinos de Bia Falcão, Nikos, Vitória,
Júlia, André e tantos outros personagens da engenhosa Belíssima,
o novelista Silvio de Abreu desfruta o melhor momento de sua carreira. Durante
longos oito meses, a bem-humorada trama policial caiu na boca do povo e registrou
números invejáveis de audiência. Na noite de quarta-feira
passada, quando os mistérios que fizeram os telespectadores queimar neurônios
começaram a ser desvendados, o Ibope cravou 57 pontos. De cada 100 televisores
ligados durante o horário nobre, 75 estavam sintonizados na Globo. Nos
últimos dez anos, fenômeno parecido só aconteceu com Senhora
do Destino, de Aguinaldo Silva. "Ele fez um trabalho de mestre ao reunir suas
duas grandes habilidades, o humor escrachado de Guerra dos Sexos e o drama
permeado de suspense que já tinha experimentado com êxito em A
Próxima Vítima", explica Mauro Alencar, doutor em telenovela
pela USP. O Alfred Hitchcock do folhetim das
8 tem outra peculiaridade em relação a Gilberto Braga, Aguinaldo
Silva, Manoel Carlos, Glória Perez, Walcyr Carrasco e Benedito Ruy Barbosa
seus colegas no primeiro time da teledramaturgia brasileira. Com exceção
de Pecado Rasgado (1978), todas as suas histórias são ambientadas
em São Paulo. Além dos cartões-postais como o Mercado Municipal
e o Parque do Ibirapuera, Abreu transformou em cenário a Igreja de Nossa
Senhora da Candelária, na Vila Maria, o casario antigo do Carandiru, o
Estádio do Pacaembu, as marginais... Diferentemente de autores que adoram
retratar as mazelas da sociedade, Abreu prefere exibir uma São Paulo colorida,
leve. "Novela é diversão, por isso gosto de mostrar o lado positivo
da cidade", diz ele, que, como todo paulistano, odeia o trânsito caótico,
a falta de segurança e a sujeirada das ruas.
TV Globo/Zé Paulo Cardeal  |
| Com Fernanda Montenegro: a atriz é uma de suas prediletas
| Nascido na Baixada do Glicério,
na região central, Abreu tem uma vida que também renderia um filme,
um dramalhão daqueles em que o menino pobre e sonhador passa por poucas
e boas até chegar ao estrelato. O novelista descobriu o cinema aos 5 anos,
quando os pais ela costureira, ele pianista do Circo do Piolim o
levaram ao Cine Metro, na Avenida São João, para ver o musical Quando
as Nuvens Passam, com Frank Sinatra e Judy Garland. "Fiquei fascinado e decidi
que queria ser um daqueles que estavam na tela", recorda. Nos anos que se seguiram,
o tímido garoto virou especialista em driblar a vigilância dos pais
para se refugiar nas sessões corridas do Cine Itapura, que ficava a duas
quadras de sua casa. Adolescente, trabalhou como office-boy, balconista e funcionário
público. Mais tarde, cursou cenografia na Escola de Arte Dramática
da USP e chegou a estudar no Actors Studio, de Nova York.
Como ator com pouco talento e nenhuma pinta de galã, sua carreira durou
oito anos. Em filmes, peças de teatro e novelas, Abreu contracenou com
nomes como Cleyde Yáconis, Vera Fischer, Stênio Garcia e Maria Alice
Vergueiro, além de ser dirigido por Antunes Filho e Ademar Guerra. Mas
não decolou. "Ele era um sujeito muito complicado. Não aceitava
sua calvície e insistia em usar peruca", conta o diretor Antonio Abujamra.
Recorreu à peruca em questão, no estilo Beatles da época,
aos 19 anos. "Eu me sentia inseguro com o meu visual", lembra Abreu. Foram dez
anos de inquietação diante do espelho. "Um belo dia resolvi tirá-la
e me descobri. Virei um careca feliz." Coincidência
ou não, dois anos depois sua carreira começou a deslanchar como
diretor de pornochanchadas. Com Rubens Ewald Filho, escreveu sua primeira novela,
Éramos Seis. Estrelado por Gianfrancesco Guarnieri e Nicette Bruno
na TV Tupi em 1977, o folhetim fez sucesso e lhe rendeu o convite para trabalhar
na Globo. Amargou, então, o primeiro fracasso. "Os atores não estavam
adequados nos papéis e o diretor Régis Cardoso não entendia
o humor e a ação de Pecado Rasgado", justifica o autor, que,
enfurecido, se demitiu após o último capítulo. A volta à
emissora carioca deu-se três anos depois, para terminar Plumas e Paetês,
de Cassiano Gabus Mendes, que havia sofrido um infarto.
João Miguel Jr.  |
| Com Iris Bruzzi, de Belíssima: homenagem
às vedetes | Atualmente é
grande o prestígio de Abreu junto à cúpula da Globo. Seus
rendimentos sobem na mesma velocidade do ibope. Enquanto o folhetim está
no ar, um novelista de seu gabarito chega a receber, somados os ganhos com merchandising,
200.000 reais por mês. Mora numa confortável
cobertura nos Jardins e, como gosta de dizer, cultiva pequenos luxos. Não
tão pequenos assim. Possui uma coleção de DVDs com mais de
3.000 títulos, uma bela casa no Guarujá e um apartamento em Nova
York que visita três vezes por ano. "Mas sei economizar para o futuro."
Fotos arquivo pessoal  |
pessoal  |
| Anos 60: à esquerda, com
a peruca no estilo dos Beatles que adotou para esconder a calvície, que
o envergonhava desde os 19 anos; à
direita, com Cleyde Yáconis em cena de Tchin-Tchin, antes de perceber
que não tinha o menor talento para ser ator |
O autor de idéias mirabolantes vive uma
rotina solitária, quase espartana. Romances policiais de Agatha Christie
e Dashiell Hammett são fontes de inspiração para as engenhosas
tramas de Abreu. Para alimentar idéias mais açucaradas, ele também
não dispensa best-sellers de Sidney Sheldon. Suas principais referências,
contudo, são os musicais americanos e, claro, tramas de suspense como
Psicose e Janela Indiscreta, ambos de Hitchcock, do qual é fã
confesso. Escreve um capítulo por dia, das 8 da manhã até
o momento em que a novela começa. "Aí assisto como espectador e
me divirto muito", afirma. O único intervalo é para almoçar
com a mulher, a psicóloga Maria Célia, com a qual está casado
há três décadas, e com a filha, a cenógrafa Juliana.
Também vai à academia duas vezes por semana com o personal trainer
e vez ou outra acompanha Maria Célia à Igreja da Nossa Senhora da
Candelária, na Vila Maria. Outro compromisso sagrado é o almoço
com os pais, ambos com 93 anos, aos domingos.
Terminada a novela, Abreu volta-se a outros trabalhos na emissora. Dá aulas,
faz consultorias na programação, avalia roteiros e supervisiona
novelas em andamento. Nas horas de folga, vai muito ao cinema, ao teatro e a restaurantes
como A Bela Sintra, Vecchio Torino e Vinheria Percussi. Nessas ocasiões,
seus companheiros mais constantes são o psicoterapeuta Flávio Gikovate
e a mulher, Céci, amigos há três décadas, ou atores
como Irene Ravache, com o marido, Edison, que conhece desde o fim dos anos 60,
e Edson Celulari e Cláudia Raia, dos quais foi padrinho de casamento. "Devo
muito ao Silvio de Abreu. A Tancinha, de Sassaricando, foi um marco na
minha carreira", derrete-se Cláudia Raia, que fez seis novelas do autor
e arrasou no papel da fogosa Safira. Badalações e colunas sociais,
ele dispensa. "Sou um pai de família, com uma vidinha bem normal. Por isso,
gosto de escrever novelas", diz. "Na televisão posso fazer coisas mirabolantes,
como matar gente, explodir prédios inteiros e viajar pelo mundo."
| Sucessos inesquecíveis e amargos
fracassos Altos
1983 Guerra
do Sexos O público adora seu humor pastelão. Nasce aí
uma das antológicas cenas da televisão brasileira: a guerra de chá,
biscoitos e tortas protagonizada por Paulo Autran e Fernanda Montenegro durante
um café-da-manhã 1995
A Próxima Vítima Pela primeira vez um folhetim foi estruturado
inteiramente num enredo policial. Os telespectadores queriam desvendar a identidade
do serial killer que matou treze personagens da trama. Outro feito foi exibir
um casal gay quem não se lembra de Sandrinho e Jeferson?
em rede nacional 2005
Belíssima Com uma combinação de humor e suspense,
Abreu transforma os telespectadores em detetives mais uma vez. A audiência
não sofreu nem no Carnaval: todos os 209 capítulos traziam pistas
verdadeiras ou não sobre os enigmas da história
Baixos 1978
Pecado Rasgado Narrativa mal estruturada, atores em papéis inadequados
e brigas com o diretor Régis Cardoso fizeram de sua estréia na Globo
um total fiasco. Abreu pediu demissão em seguida e só voltou três
anos depois 1998
Torre de Babel O casal de lésbicas interpretado por Silvia Pfeifer
e Christiane Torloni virou polêmica e o ibope despencou. Além disso,
não se sabia quem era o vilão. Abreu driblou a rejeição
popular com a explosão de um shopping que matou muito mais gente do que
previa o roteiro original 2001
As Filhas da Mãe As estrelas de Belíssima
Fernanda Montenegro, Cláudia Raia e Tony Ramos, entre outros
estavam no elenco, mas o público não engoliu o ritmo frenético
e modernoso da trama | |