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12 de julho de 2006
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PERFIL

Um mestre em
exibir São Paulo

Fera no escracho e no suspense à la
Hitchcock, o novelista Silvio de Abreu
chega ao auge de sua carreira levando
a cidade em que nasceu ao horário nobre

Mônica Santos


Lailson Santos
Abreu, na sacada do seu apartamento, nos Jardins: o palco das novelas a seus pés


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A trajetória do novelista
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Ele está rindo à toa. Enquanto no país ainda repercutem os destinos de Bia Falcão, Nikos, Vitória, Júlia, André e tantos outros personagens da engenhosa Belíssima, o novelista Silvio de Abreu desfruta o melhor momento de sua carreira. Durante longos oito meses, a bem-humorada trama policial caiu na boca do povo e registrou números invejáveis de audiência. Na noite de quarta-feira passada, quando os mistérios que fizeram os telespectadores queimar neurônios começaram a ser desvendados, o Ibope cravou 57 pontos. De cada 100 televisores ligados durante o horário nobre, 75 estavam sintonizados na Globo. Nos últimos dez anos, fenômeno parecido só aconteceu com Senhora do Destino, de Aguinaldo Silva. "Ele fez um trabalho de mestre ao reunir suas duas grandes habilidades, o humor escrachado de Guerra dos Sexos e o drama permeado de suspense que já tinha experimentado com êxito em A Próxima Vítima", explica Mauro Alencar, doutor em telenovela pela USP.

O Alfred Hitchcock do folhetim das 8 tem outra peculiaridade em relação a Gilberto Braga, Aguinaldo Silva, Manoel Carlos, Glória Perez, Walcyr Carrasco e Benedito Ruy Barbosa – seus colegas no primeiro time da teledramaturgia brasileira. Com exceção de Pecado Rasgado (1978), todas as suas histórias são ambientadas em São Paulo. Além dos cartões-postais como o Mercado Municipal e o Parque do Ibirapuera, Abreu transformou em cenário a Igreja de Nossa Senhora da Candelária, na Vila Maria, o casario antigo do Carandiru, o Estádio do Pacaembu, as marginais... Diferentemente de autores que adoram retratar as mazelas da sociedade, Abreu prefere exibir uma São Paulo colorida, leve. "Novela é diversão, por isso gosto de mostrar o lado positivo da cidade", diz ele, que, como todo paulistano, odeia o trânsito caótico, a falta de segurança e a sujeirada das ruas.

TV Globo/Zé Paulo Cardeal
Com Fernanda Montenegro: a atriz é uma de suas prediletas


Nascido na Baixada do Glicério, na região central, Abreu tem uma vida que também renderia um filme, um dramalhão daqueles em que o menino pobre e sonhador passa por poucas e boas até chegar ao estrelato. O novelista descobriu o cinema aos 5 anos, quando os pais – ela costureira, ele pianista do Circo do Piolim – o levaram ao Cine Metro, na Avenida São João, para ver o musical Quando as Nuvens Passam, com Frank Sinatra e Judy Garland. "Fiquei fascinado e decidi que queria ser um daqueles que estavam na tela", recorda. Nos anos que se seguiram, o tímido garoto virou especialista em driblar a vigilância dos pais para se refugiar nas sessões corridas do Cine Itapura, que ficava a duas quadras de sua casa. Adolescente, trabalhou como office-boy, balconista e funcionário público. Mais tarde, cursou cenografia na Escola de Arte Dramática da USP e chegou a estudar no Actors Studio, de Nova York.

Como ator com pouco talento e nenhuma pinta de galã, sua carreira durou oito anos. Em filmes, peças de teatro e novelas, Abreu contracenou com nomes como Cleyde Yáconis, Vera Fischer, Stênio Garcia e Maria Alice Vergueiro, além de ser dirigido por Antunes Filho e Ademar Guerra. Mas não decolou. "Ele era um sujeito muito complicado. Não aceitava sua calvície e insistia em usar peruca", conta o diretor Antonio Abujamra. Recorreu à peruca em questão, no estilo Beatles da época, aos 19 anos. "Eu me sentia inseguro com o meu visual", lembra Abreu. Foram dez anos de inquietação diante do espelho. "Um belo dia resolvi tirá-la e me descobri. Virei um careca feliz."

Coincidência ou não, dois anos depois sua carreira começou a deslanchar como diretor de pornochanchadas. Com Rubens Ewald Filho, escreveu sua primeira novela, Éramos Seis. Estrelado por Gianfrancesco Guarnieri e Nicette Bruno na TV Tupi em 1977, o folhetim fez sucesso e lhe rendeu o convite para trabalhar na Globo. Amargou, então, o primeiro fracasso. "Os atores não estavam adequados nos papéis e o diretor Régis Cardoso não entendia o humor e a ação de Pecado Rasgado", justifica o autor, que, enfurecido, se demitiu após o último capítulo. A volta à emissora carioca deu-se três anos depois, para terminar Plumas e Paetês, de Cassiano Gabus Mendes, que havia sofrido um infarto.


João Miguel Jr.
Com Iris Bruzzi, de Belíssima: homenagem às vedetes

Atualmente é grande o prestígio de Abreu junto à cúpula da Globo. Seus rendimentos sobem na mesma velocidade do ibope. Enquanto o folhetim está no ar, um novelista de seu gabarito chega a receber, somados os ganhos com merchandising, 200.000 reais por mês.

Mora numa confortável cobertura nos Jardins e, como gosta de dizer, cultiva pequenos luxos. Não tão pequenos assim. Possui uma coleção de DVDs com mais de 3.000 títulos, uma bela casa no Guarujá e um apartamento em Nova York que visita três vezes por ano. "Mas sei economizar para o futuro."


Fotos arquivo pessoal
pessoal
Anos 60: à esquerda, com a peruca no estilo dos Beatles que adotou para esconder a calvície, que o envergonhava desde os 19 anos; à direita, com Cleyde Yáconis em cena de Tchin-Tchin, antes de perceber que não tinha o menor talento para ser ator

O autor de idéias mirabolantes vive uma rotina solitária, quase espartana. Romances policiais de Agatha Christie e Dashiell Hammett são fontes de inspiração para as engenhosas tramas de Abreu. Para alimentar idéias mais açucaradas, ele também não dispensa best-sellers de Sidney Sheldon. Suas principais referências, contudo, são os musicais americanos e, claro, tramas de suspense como Psicose e Janela Indiscreta, ambos de Hitchcock, do qual é fã confesso. Escreve um capítulo por dia, das 8 da manhã até o momento em que a novela começa. "Aí assisto como espectador e me divirto muito", afirma. O único intervalo é para almoçar com a mulher, a psicóloga Maria Célia, com a qual está casado há três décadas, e com a filha, a cenógrafa Juliana. Também vai à academia duas vezes por semana com o personal trainer e vez ou outra acompanha Maria Célia à Igreja da Nossa Senhora da Candelária, na Vila Maria. Outro compromisso sagrado é o almoço com os pais, ambos com 93 anos, aos domingos.

Terminada a novela, Abreu volta-se a outros trabalhos na emissora. Dá aulas, faz consultorias na programação, avalia roteiros e supervisiona novelas em andamento. Nas horas de folga, vai muito ao cinema, ao teatro e a restaurantes como A Bela Sintra, Vecchio Torino e Vinheria Percussi. Nessas ocasiões, seus companheiros mais constantes são o psicoterapeuta Flávio Gikovate e a mulher, Céci, amigos há três décadas, ou atores como Irene Ravache, com o marido, Edison, que conhece desde o fim dos anos 60, e Edson Celulari e Cláudia Raia, dos quais foi padrinho de casamento. "Devo muito ao Silvio de Abreu. A Tancinha, de Sassaricando, foi um marco na minha carreira", derrete-se Cláudia Raia, que fez seis novelas do autor e arrasou no papel da fogosa Safira. Badalações e colunas sociais, ele dispensa. "Sou um pai de família, com uma vidinha bem normal. Por isso, gosto de escrever novelas", diz. "Na televisão posso fazer coisas mirabolantes, como matar gente, explodir prédios inteiros e viajar pelo mundo."

 

Quando a cidade virou cenário

Das treze novelas de Silvio de Abreu,
doze foram ambientadas em São Paulo


Sergio Berezovsky
1984
Mário Gomes, o Luca de Vereda Tropical, no Morumbi: o novelista foi a um estádio de futebol pela primeira vez na vida



Lailson Santos
1986
Cambalacho: a gravação do último capítulo no Viaduto Santa Ifigênia parou o centro



Cida Souza
TV Globo
1995
A banca do Juca (Tony Ramos) no Mercado Municipal e o Parque do Ibirapuera, ambos em A Próxima Vítima: os cartões-postais preferidos de Abreu



2005
Belíssima: edifício da Avenida Paulista em horário nobre
Mario Rodrigues

 

Sucessos inesquecíveis
e amargos fracassos

Altos

1983
Guerra do Sexos

O público adora seu humor pastelão. Nasce aí uma das antológicas cenas da televisão brasileira: a guerra de chá, biscoitos e tortas protagonizada por Paulo Autran e Fernanda Montenegro durante um café-da-manhã

1995
A Próxima Vítima
Pela primeira vez um folhetim foi estruturado inteiramente num enredo policial. Os telespectadores queriam desvendar a identidade do serial killer que matou treze personagens da trama. Outro feito foi exibir um casal gay – quem não se lembra de Sandrinho e Jeferson? – em rede nacional

2005
Belíssima
Com uma combinação de humor e suspense, Abreu transforma os telespectadores em detetives mais uma vez. A audiência não sofreu nem no Carnaval: todos os 209 capítulos traziam pistas – verdadeiras ou não – sobre os enigmas da história

 

Baixos

1978
Pecado Rasgado

Narrativa mal estruturada, atores em papéis inadequados e brigas com o diretor Régis Cardoso fizeram de sua estréia na Globo um total fiasco. Abreu pediu demissão em seguida e só voltou três anos depois

1998
Torre de Babel

O casal de lésbicas interpretado por Silvia Pfeifer e Christiane Torloni virou polêmica e o ibope despencou. Além disso, não se sabia quem era o vilão. Abreu driblou a rejeição popular com a explosão de um shopping que matou muito mais gente do que previa o roteiro original

2001
As Filhas da Mãe

As estrelas de Belíssima – Fernanda Montenegro, Cláudia Raia e Tony Ramos, entre outros – estavam no elenco, mas o público não engoliu o ritmo frenético e modernoso da trama

 

     
   
 
 
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