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12 de julho de 2006
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CRÔNICA

Falta de privacidade

Walcyr Carrasco

Estou com um amigo. Assunto sério. Ele passa por dificuldades. Desabafa. Aconselho. Toca o celular. Peço um instante. Atendo. Do outro lado, a voz animada de uma conhecida:

– Ah, é você? Queria contar...

Explico que não posso falar no momento. Ela insiste.

– É só uma coisinha...

Só consigo desligar depois de alguns minutos. Volto a meu amigo. Retomamos o papo. O celular volta a tocar. Um recado profissional. São quase 10 da noite, mas graças a ele... fui encontrado. No fim, a conversa séria desmorona. Também é desagradável quando estou no telefone fixo e alguém liga uma, duas, três vezes no móvel. Imagino se tratar de uma catástrofe. Quando atendo, ouço:

– É que seu telefone estava ocupado...

Ora, se eu falava com outra pessoa, por que ela se julga no direito de me interromper? Seu assunto, por acaso, é mais importante? Que egoísmo!

Adoro tecnologia. Mas tenho saudade dos tempos em que só podia ser encontrado no horário comercial. Não sou o único caso. Chefes estão sempre com pressa. Amigos meus perdem o churrasco do fim de semana atendendo o patrão no celular. Em questões que podiam ser adiadas até a segunda-feira. Um advogado foi viajar de férias. Levou a maquininha. Um cliente ligou.

– Não posso resolver seu problema porque estou na Europa! – explicou. – É melhor falar com outra pessoa no escritório.

O cliente agiu como se não acreditasse. Quase desistiu do negócio!

– E o Bina para filtrar as ligações? – alguém pode perguntar.

Cada vez é maior o número de telefones não identificados. Ou na telinha surge um outro, que nada tem a ver com a ligação original. Explica-se: muitas empresas transferem automaticamente a ligação feita pelo funcionário para outro número, por questões econômicas. Na tela surge um número virtual! Corre-se o risco de não atender uma ligação realmente importante.

Programas como o Messenger vão pelo mesmo caminho. Adicionei alguns amigos. Gosto de escrever à noite. Freqüentemente, alguém entra on-line. Se não respondo, fica insistindo. Tento explicar através de uma mensagem breve: "Agora não dá para bater papo". Adianta? A pessoa insiste: "Só tenho que dizer...". Para se despedir, é mais difícil que se livrar de vendedor de bilhete de loteria.

Há quem ligue quando estou no trânsito e não se conforme. Continua falando sem parar, embora eu explique que estou em uma avenida, ou na estrada, rodeado por caminhões, com o risco de bater! Já ouvi uma senhora conversando no teatro, durante a peça. Quando reclamaram, sorriu:

– É um político do outro lado da linha!

Como se isso fosse motivo para atrapalhar todo o espetáculo!

Outros aparatos tecnológicos estão entrando em vigor, como o Skype, o programa que faz ligações telefônicas de graça ou a custo baixíssimo, via internet. Novos surgirão! Mais conversa! Mais trabalho fora de hora!

Os bons modos não evoluíram com os aparelhos eletroeletrônicos! Nem o bom senso! Amigos deveriam entender que estão entrando na intimidade alheia ao toque do celular, ou no Messenger. Mas não. Agem como se estivessem sendo maltratados na sala de visitas! Pior ainda, chefes só poderiam requisitar o funcionário em casos de extrema necessidade. Até urso hiberna. Por que um ser humano não teria direito a um reles fim de semana livre de preocupações?

Os manuais de etiqueta explicam o uso de talheres. Os mais avançadinhos revelam não ser feio mulher dividir a conta. Mas já está na hora de serem criadas normas de comportamento para as novas tecnologias. E acabar com tanta invasão de privacidade!

e-mail: walcyr@abril.com.br

     
   
 
 
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