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CRÔNICA
Donos das ruas
Ivan Angelo
Ninguém soube me dizer
quando começou esse negócio de tomar conta de carro:
você parar seu automóvel em um lugar público
e aparecer alguém para "tomar conta". Quando eu era rapazinho,
a sociedade brasileira ainda não havia produzido o espécime.
Dois conhecidos meus só dois tinham carro e
nunca foram abordados ao estacionar, nem mesmo perto de campos de
futebol. E olhe que o carro de um deles era um sedã conversível.
Uns doze anos depois, ao estacionar
meu primeiro Fusquinha na frente da Igreja de Nossa Senhora do Carmo,
em Sabará, Minas Gerais, apareceu um menino lá de
seus 8 anos e perguntou se eu queria que ele tomasse conta. Brinquei:
Tomar conta? Nossa Senhora
já está tomando.
E ele, mineirinho esperto:
Eu ajudo ela.
Naturalmente o tamanho do guardião
indicava que o risco seria no máximo alguma bolada, mãozada
suja de criança ou sujeira de passarinho.
Talvez a atividade de guardador
de carro tenha prosperado quando o risco se tornou real e maior.
Os menininhos coletores de trocados foram rendidos por desocupados
suspeitos; na evolução, a coisa virou intimidação
e chantagem. É esse o sentimento de quem pára o carro
na rua e é abordado por um desses coletores particulares
de taxa municipal: estou sendo chantageado.
Uma amiga mineira não
entrou nessa. Parou perto da PUC para me visitar e lá veio
o dono da rua cobrar sua taxa. Ela:
Uai, se precisa de alguém
para tomar conta quer dizer que aqui não é um lugar
bom para parar, não. Né?
E foi para o estacionamento.
Um taxista contou-me um caso
revelador. Foi assistir a um jogo no Estádio do Morumbi com
o filho, adulto, e achou boa vaga não muito longe. Apareceu
logo o guardador: "Quinze paus adiantados". O taxista disse que
só pagava na volta. "Aí é 20." Conformou-se,
foi para o estádio e pouco depois, grilado, resolveu mudar
o táxi de lugar. Deixou o filho na fila, entrou no carro
e aí apareceu outro guardador da mesma equipe:
Ei, ei, ei! A grana, meu!
Com malícia e presença
de espírito, argumentou com fingida bronca:
Qual é, cara? Tou
"puxando" o carro!
Significava "roubando". O guardador
nem vacilou, afastando-se:
Tá limpo, tá
limpo! Te manda!
Engana-se quem pensa que está
seguro ao entregar o carro a certos manobristas e valets. O perigo
de dano e furto é menor, mas... Um dia desses um telejornal
fez boa reportagem com câmera escondida em um carro entregue
a manobristas em variados endereços. Todos os apresentados
na matéria cataram coisas nos carros, embolsaram dinheiro
e pequenos objetos deixados de propósito, vasculharam debaixo
dos bancos. Um chegou a dar um passeio, levando um carona.
O pior aconteceu com uma amiga,
faz anos, no tempo em que alguns manobristas quebravam o galho ao
lado do Teatro Municipal. Deixava-se a chave, era comum. Freqüentadores
assíduos do teatro tinham até uma camaradagem com
eles.
Um dia minha amiga foi procurada
pela polícia: o carro dela fora usado em um assalto, a placa
tinha sido anotada. Era suspeita! Checando horários e álibis,
constatou-se que ela estava no Teatro Municipal no momento do crime.
O carro não fora roubado, o manobrista o entregara direitinho
após o espetáculo. Teria havido engano na anotação
da placa? Ela poderia reconhecer o manobrista? Senão, a situação
complicava-se. Sim, poderia. Cometeu o erro de ir lá com
eles, apontou o moço. Apurou-se que ele emprestava as chaves
a uma quadrilha. A polícia adiantou que ela teria mais tarde
de prestar depoimento, reconhecendo o rapaz. Começou a sofrer
um inferno de ameaças por telefone, em casa e no trabalho.
Sabiam todos os passos dela.
Apavorada, mudou-se da cidade.
e-mail: ivan@abril.com.br
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