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12 de abril de 2006
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CRÔNICA

Donos das ruas

Ivan Angelo

Ninguém soube me dizer quando começou esse negócio de tomar conta de carro: você parar seu automóvel em um lugar público e aparecer alguém para "tomar conta". Quando eu era rapazinho, a sociedade brasileira ainda não havia produzido o espécime. Dois conhecidos meus – só dois – tinham carro e nunca foram abordados ao estacionar, nem mesmo perto de campos de futebol. E olhe que o carro de um deles era um sedã conversível.

Uns doze anos depois, ao estacionar meu primeiro Fusquinha na frente da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Sabará, Minas Gerais, apareceu um menino lá de seus 8 anos e perguntou se eu queria que ele tomasse conta. Brinquei:

– Tomar conta? Nossa Senhora já está tomando.

E ele, mineirinho esperto:

– Eu ajudo ela.

Naturalmente o tamanho do guardião indicava que o risco seria no máximo alguma bolada, mãozada suja de criança ou sujeira de passarinho.

Talvez a atividade de guardador de carro tenha prosperado quando o risco se tornou real e maior. Os menininhos coletores de trocados foram rendidos por desocupados suspeitos; na evolução, a coisa virou intimidação e chantagem. É esse o sentimento de quem pára o carro na rua e é abordado por um desses coletores particulares de taxa municipal: estou sendo chantageado.

Uma amiga mineira não entrou nessa. Parou perto da PUC para me visitar e lá veio o dono da rua cobrar sua taxa. Ela:

– Uai, se precisa de alguém para tomar conta quer dizer que aqui não é um lugar bom para parar, não. Né?

E foi para o estacionamento.

Um taxista contou-me um caso revelador. Foi assistir a um jogo no Estádio do Morumbi com o filho, adulto, e achou boa vaga não muito longe. Apareceu logo o guardador: "Quinze paus adiantados". O taxista disse que só pagava na volta. "Aí é 20." Conformou-se, foi para o estádio e pouco depois, grilado, resolveu mudar o táxi de lugar. Deixou o filho na fila, entrou no carro e aí apareceu outro guardador da mesma equipe:

– Ei, ei, ei! A grana, meu!

Com malícia e presença de espírito, argumentou com fingida bronca:

– Qual é, cara? Tou "puxando" o carro!

Significava "roubando". O guardador nem vacilou, afastando-se:

– Tá limpo, tá limpo! Te manda!

Engana-se quem pensa que está seguro ao entregar o carro a certos manobristas e valets. O perigo de dano e furto é menor, mas... Um dia desses um telejornal fez boa reportagem com câmera escondida em um carro entregue a manobristas em variados endereços. Todos os apresentados na matéria cataram coisas nos carros, embolsaram dinheiro e pequenos objetos deixados de propósito, vasculharam debaixo dos bancos. Um chegou a dar um passeio, levando um carona.

O pior aconteceu com uma amiga, faz anos, no tempo em que alguns manobristas quebravam o galho ao lado do Teatro Municipal. Deixava-se a chave, era comum. Freqüentadores assíduos do teatro tinham até uma camaradagem com eles.

Um dia minha amiga foi procurada pela polícia: o carro dela fora usado em um assalto, a placa tinha sido anotada. Era suspeita! Checando horários e álibis, constatou-se que ela estava no Teatro Municipal no momento do crime. O carro não fora roubado, o manobrista o entregara direitinho após o espetáculo. Teria havido engano na anotação da placa? Ela poderia reconhecer o manobrista? Senão, a situação complicava-se. Sim, poderia. Cometeu o erro de ir lá com eles, apontou o moço. Apurou-se que ele emprestava as chaves a uma quadrilha. A polícia adiantou que ela teria mais tarde de prestar depoimento, reconhecendo o rapaz. Começou a sofrer um inferno de ameaças por telefone, em casa e no trabalho. Sabiam todos os passos dela.

Apavorada, mudou-se da cidade.

e-mail: ivan@abril.com.br

     
   
 
 
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