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CRÔNICA
Mudanças
Passeio
instrutivo pelo Brasil
de um almanaque antigo
Ivan
Angelo
Hoje
já não se usa, mas antigamente eram infalíveis
em dezembro os almanaques para o ano seguinte. Alguns se vendiam,
muitos eram distribuídos gratuitamente nas farmácias.
Parte do que tinham de útil foi absorvida pelas modernas
agendas; o que tinham de agradável humor, receitas,
jogos, versos, casos foi para as revistas.
Encontro em um sebo o Almanach Litterario de São Paulo
para o Anno de 1881, publicado por um jornalista histórico,
José Maria Lisboa, e com ele viajo para um tempo em que se
andava de charrete, de trem, de navio, e nem as mensagens tinham
pressa, seguiam a pé.
Já no calendário se vislumbra um outro mundo. Dezembro.
Ninguém se casava em dezembro nas igrejas católicas.
Diz o almanaque, no "Cômputo Eclesiástico", que as
bênçãos nupciais são proibidas desde
o primeiro domingo do Advento (29 de novembro, naquele ano) até
o Dia de Reis inclusive. Também não se podia casar
na Quaresma: acabado o Carnaval, casamentos só depois da
Páscoa.
O 1º de janeiro não é marcado como dia de Ano-Novo,
não há nenhuma referência ao réveillon.
Na data aparecem apenas a cruz que indicava os dias santos "de guarda"
e o porquê da santificação: "Circuncisão
do Senhor". Não ouvi falar disso no passado, e não
se fala hoje; apagou-se que Jesus, como todo judeu, foi circuncidado;
não se comemora o dia em que teria sido operado o santo pintinho.
Hoje, 2 de fevereiro é conhecido como dia de Iemanjá.
Mas era um dia santo católico importante, feriado, dia da
Purificação de Nossa Senhora, ou da Candelária.
A expressão Semana Santa, que hoje usamos sem que nosso calendário
explique por quê, se explica: todos os dias entre o Domingo
de Ramos e o da Ressurreição eram chamados "santos".
Um deles tinha lindo nome dramático: Quarta-feira de Trevas.
O 29 de junho das festas de fogueira e quentão não
era só de São Pedro, como aprendemos a festejar, e
sim de uma dobradinha, "São Pedro e São Paulo".
Curiosamente, o 7 de Setembro traz na frente a notação:
"Aniversário da Independência do Império". Não
do Brasil, nação, povo; mas do Império, domínios,
poder.
Designação solene, embora exclusivista, era dada ao
2 de novembro: "Comemoração dos Fiéis Defuntos".
Hoje dizemos Finados, que é mais democrático, pois
inclui todos os defuntos, não apenas os "fiéis".
É
enorme e indicativa do tipo de religião que havia no Império
a quantidade de dias consagrados a Maria, muito mais que a Jesus.
Tem Nossa Senhora da Paz, dos Mártires, dos Anjos, das Neves,
da Penha, das Mercês, do Rosário, dos Remédios,
do Ó, dos Prazeres, das Dores, do Desterro. E tem a Purificação
de Nossa Senhora, a Visitação a Santa Isabel, a Assunção,
a Natividade, a Apresentação, a Conceição,
a Anunciação, e existia até o dia dos Desponsórios
de Nossa Senhora com São José (23 de janeiro). A padroeira
"do Império" era Nossa Senhora da Conceição;
a de Aparecida não havia ainda entrado no calendário.
As viagens, no Estado dos cafezais, eram feitas de trem e
quanto rigor havia nos horários! Reparem nos detalhes de
minutos deste aviso:
"Os
passageiros que quiserem seguir para o Rio de Janeiro no mesmo dia
devem partir de São Paulo no expresso das 5h30 da manhã,
que chega a Cachoeira às 12h16 da tarde. Há nesta
estação uma demora de 32 minutos. Às 12h48
parte o trem da estrada de ferro Pedro 2°, chegando à
Corte às 8h11 da noite".
Não é uma maravilha? Que era isto aqui, uma Inglaterra?
E onde foi que a perdemos?
Pela simples leitura de um velho almanaque, percebemos o movimento.
No entanto, o mundo dentro dele parece parado. Enganosa aparência,
mudava-se discretamente. A incoerência veio depois.
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