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11 de dezembro de 2002
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Mudanças

Passeio instrutivo pelo Brasil
de um almanaque antigo

Ivan Angelo


Hoje já não se usa, mas antigamente eram infalíveis em dezembro os almanaques para o ano seguinte. Alguns se vendiam, muitos eram distribuídos gratuitamente nas farmácias. Parte do que tinham de útil foi absorvida pelas modernas agendas; o que tinham de agradável – humor, receitas, jogos, versos, casos – foi para as revistas.

Encontro em um sebo o Almanach Litterario de São Paulo para o Anno de 1881, publicado por um jornalista histórico, José Maria Lisboa, e com ele viajo para um tempo em que se andava de charrete, de trem, de navio, e nem as mensagens tinham pressa, seguiam a pé.

Já no calendário se vislumbra um outro mundo. Dezembro. Ninguém se casava em dezembro nas igrejas católicas. Diz o almanaque, no "Cômputo Eclesiástico", que as bênçãos nupciais são proibidas desde o primeiro domingo do Advento (29 de novembro, naquele ano) até o Dia de Reis inclusive. Também não se podia casar na Quaresma: acabado o Carnaval, casamentos só depois da Páscoa.

O 1º de janeiro não é marcado como dia de Ano-Novo, não há nenhuma referência ao réveillon. Na data aparecem apenas a cruz que indicava os dias santos "de guarda" e o porquê da santificação: "Circuncisão do Senhor". Não ouvi falar disso no passado, e não se fala hoje; apagou-se que Jesus, como todo judeu, foi circuncidado; não se comemora o dia em que teria sido operado o santo pintinho.

Hoje, 2 de fevereiro é conhecido como dia de Iemanjá. Mas era um dia santo católico importante, feriado, dia da Purificação de Nossa Senhora, ou da Candelária. A expressão Semana Santa, que hoje usamos sem que nosso calendário explique por quê, se explica: todos os dias entre o Domingo de Ramos e o da Ressurreição eram chamados "santos". Um deles tinha lindo nome dramático: Quarta-feira de Trevas. O 29 de junho das festas de fogueira e quentão não era só de São Pedro, como aprendemos a festejar, e sim de uma dobradinha, "São Pedro e São Paulo".

Curiosamente, o 7 de Setembro traz na frente a notação: "Aniversário da Independência do Império". Não do Brasil, nação, povo; mas do Império, domínios, poder.

Designação solene, embora exclusivista, era dada ao 2 de novembro: "Comemoração dos Fiéis Defuntos". Hoje dizemos Finados, que é mais democrático, pois inclui todos os defuntos, não apenas os "fiéis".

É enorme e indicativa do tipo de religião que havia no Império a quantidade de dias consagrados a Maria, muito mais que a Jesus. Tem Nossa Senhora da Paz, dos Mártires, dos Anjos, das Neves, da Penha, das Mercês, do Rosário, dos Remédios, do Ó, dos Prazeres, das Dores, do Desterro. E tem a Purificação de Nossa Senhora, a Visitação a Santa Isabel, a Assunção, a Natividade, a Apresentação, a Conceição, a Anunciação, e existia até o dia dos Desponsórios de Nossa Senhora com São José (23 de janeiro). A padroeira "do Império" era Nossa Senhora da Conceição; a de Aparecida não havia ainda entrado no calendário.

As viagens, no Estado dos cafezais, eram feitas de trem – e quanto rigor havia nos horários! Reparem nos detalhes de minutos deste aviso:

"Os passageiros que quiserem seguir para o Rio de Janeiro no mesmo dia devem partir de São Paulo no expresso das 5h30 da manhã, que chega a Cachoeira às 12h16 da tarde. Há nesta estação uma demora de 32 minutos. Às 12h48 parte o trem da estrada de ferro Pedro 2°, chegando à Corte às 8h11 da noite".

Não é uma maravilha? Que era isto aqui, uma Inglaterra? E onde foi que a perdemos?

Pela simples leitura de um velho almanaque, percebemos o movimento. No entanto, o mundo dentro dele parece parado. Enganosa aparência, mudava-se discretamente. A incoerência veio depois.

 

         
     
 
 
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