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CRÔNICA
O
casamento
É
impressionante como esse
ritual tão antigo nos toca
Walcyr
Carrasco
Entro
na sacristia embalsamado em um terno preto. O botão está
perigosamente apertado sobre minha barriga. Tremo à idéia
de que possa estourar como uma rolha de champanhe quando eu estiver
no altar. Serei padrinho de casamento de meu amigo Rodrigo. Sou
o primeiro a chegar. Precavido, corro para o toalete. Ando fazendo
uma dieta sem sal. Diurética. Ai, que medo! Busco o masculino.
Só encontro o feminino. Tranco-me lá dentro, já
que ninguém está vendo. Quando saio, há uma
fila de mulheres na porta. Disfarço. Os outros padrinhos
chegam. Todos estão de camisa branca. Menos eu, que vim de
azul. Sinto-me horrível. O noivo também chega. Abraça
a todos, visivelmente emocionado. Meu amigo Murilo comenta:
Está pingando sangue do seu queixo.
Verdade!
Havia me cortado ao fazer a barba. Um grupo de madrinhas apressa-se
a resolver meu problema.
Bote o lenço!
Tire o lenço!
Jogue água fria!
É
duro transformar-se no centro das atenções enquanto
todo mundo espera! Finalmente, estanca por si mesmo. Respiro aliviado.
Uma
senhora nos chama. Deveremos entrar em cortejo, em uma ordem definida.
Dá instruções.
Padrinhos do noivo devem subir para o lado direito do altar!
Ahn?
Minha
dama resolve:
A gente segue o casal da frente. Se ele errar, erramos juntos!
O
noivo confidencia:
Estou nervoso. Você não está?
Quem vai casar é você respondo. Por que
eu estaria?
Todos
riem. Acho que de nervosismo. A mãe do noivo pede um momento.
Está chorando tanto que precisa refazer a maquiagem. Todos
aguardam.
Saímos
em cortejo. Na porta da igreja, a tal senhora dá um empurrãozinho
no meu cotovelo. Entro. Oh! Toda a igreja, de pé, me observa.
Penso em sorrir. Mas também não posso ficar arreganhando
os dentes. Tento fazer uma expressão de beatitude. Que horror!
Eu e minha dama somos mais largos que o corredor! Tento manter a
dignidade enquanto caminho batendo o nariz nos arranjos de flores.
Subimos ao altar. Erro meu lugar, é claro. Minha amiga Rosana,
a madrinha da frente, me puxa para o local adequado. Ainda bem que
não derrubei um castiçal, incendiando o vestido das
madrinhas. Mas quase.
O
noivo, trêmulo. Ouve-se a marcha nupcial. Ouve-se a marcha
nupcial. Ouve-se a marcha nupcial. Ouve-se... sim, a marcha nupcial
continua sendo ouvida, e nada de a noiva entrar. Deve estar na porta
da igreja dando os últimos retoques. Finalmente, as portas
se abrem. É uma das noivas mais belas que já vi. Nervosíssima!
É entregue ao noivo. Começa a cerimônia. Sermão.
Minhas pernas latejam. O padrinho do outro lado está olhando
exatamente para trás de mim. Olhar fixo. Será que
o teto está prestes a despencar na minha cabeça? Quase
viro o pescoço. Consigo me conter. Tenho uma certa dificuldade
em parecer um senhor sério e bem-comportado. Entra uma menininha
com as alianças. Chorando! O noivo corre a pegá-la.
Entrega-a à mãe, também presente no altar.
Ouço
os "sim". As alianças são trocadas. O padre canta,
em um belo momento. Os noivos choram. A cerimônia termina.
Cada um deles vem nos cumprimentar. Sinto uma emoção
inesperada. Quando o noivo me abraça, chamando-me de amigo,
o meu aperto é forte também. Vejo quanto estão
emocionados. As lágrimas escorrem. Percebo, então,
como esse ritual tão antigo nos toca, e como os votos adquirem
maior valor. Lá do fundo do meu coração brota
o desejo sincero de que sejam muito, muito felizes!
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