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11 de maio de 2005
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CRÔNICA

A despedida

Walcyr Carrasco

Há algumas semanas, fui a uma grande festa. Antes do evento, experimentei meu terno, que só uso em ocasiões especiais. O paletó não abotoou. Encolhi a barriga. Consegui. Soltei a respiração. O botão explodiu. Um amigo me ofereceu:

– Tenho uma cinta ortopédica. Quer experimentar?

Tentei. Não conseguia andar ou sentar! Eu me sentia empalhado! O jeito era comprar um novo traje. Fui ao shopping. Logo vi o terno dos meus sonhos, com um preço compatível. Para meu horror, a vendedora ergueu as sobrancelhas:

– Vou ver se tem do seu número.

Voltou com cinco outros, mais caros e pavorosos.

– Do seu tamanho, só estes aqui.

Peregrinei de loja em loja. Nenhum! Quando meu umbigo saltou para fora pela décima vez, um vendedor ávido prometeu:

– Em duas horas a gente ajeita o paletó na barriga.

Deu certo. Fui à festa com dignidade. No dia seguinte, consegui uma hora especial no endocrinologista, pretextando urgência. Era um velhinho magro. Achei um bom sinal.

– Oh, o senhor também faz regime? – perguntei.

– Não, não tenho uma afinidade especial com comida. Para mim basta um peixe no microondas!

Belo sinal! Se eu não fosse guloso, não teria de estar lá! Todo regime que eu tentei foi abaixo devido às exceções:

– Vou comer isso só hoje...

De só em só, eis-me de umbigo saltando para fora da camisa!

Recebi uma lista de exames gigantesca. O primeiro consistia em fazer xixi e guardar durante 24 horas todo o conteúdo. Numa situação dessas, não se pode sair de casa. Comprei todos os frascos disponíveis na farmácia (só havia bem pequenos) e passei um dia rotulando: xixi 1, xixi 2... Na manhã seguinte, cheguei ao laboratório com uma dúzia de frascos dentro de uma caixa da Amazon Books. Botei na caixa da Amazon para dar um toque de elegância. A enfermeira veio com a má notícia:

– Lamentavelmente, só aceitamos em nosso próprio garrafão com conservantes. Vai ter de fazer tudo de novo.

Saí resmungando, com o garrafão em punho. Era fim de semana. Tinha marcado de assistir a Pólvora e Poesia, peça do meu amigo Alcides Nogueira. Ele estaria me esperando, para jantarmos depois. Telefonei para explicar o caso:

– Posso ir com o garrafão?

– Pode, mas eu faço uma foto!

Desisti. Mais uma vez em casa, desta vez marcando em um relatório: 1 a tal hora, 2... Falando a verdade: nunca, nem nos meus piores momentos, pensei que teria de fazer relatório de xixi!

Os resultados chegaram. Marquei o médico para os próximos dias. Quando ele me dará um regime. Enquanto isso, me despeço da gula, porque depois terei de ser sério. Fui à Pâtisserie Douce France do Shopping Morumbi e me fartei de bombas de creme. Entrei na churrascaria Bem-Te-Vi, na Raposo Tavares, e mergulhei num prato de torresmos. Fui ao chinês Chi Fu, na Liberdade, e pedi costelinha de porco frita com sal preto. Comi oito fatias diferentes de bolo no Amor aos Pedaços. Entreguei-me às coxinhas de frango, que adoro e devoro onde quer que eu encontre. Minha amiga Mariângela, dona de um pequeno restaurante árabe perto da Rua Tutóia, me cravou umas vinte esfihas. Estou planejando uma incursão rápida ao novo Rancho da Empada, no Paraíso. Hoje vou à pizzaria Speranza, na Bela Vista, comer o maravilhoso pão de lingüiça de entrada!

Para não dizer que não fiz nada, andei um pouco na esteira. Quando estava de língua de fora, percebi que havia perdido míseras 70 calorias! Não importa, estou cheio de esperanças.

É bom que as tenha. Não sei como será o regime. Mas, na despedida, já engordei 5 quilos!

     
   
 
 
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