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10 de dezembro de 2003
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CRÔNICA

Deliciosas futilidades

Walcyr Carrasco

Para muita gente, o que não é essencial torna-se fútil. Quem gosta de desfrutar a vida sabe que o fútil pode ser essencial. Vivo garimpando pela cidade, descobrindo coisas diferentes. Principalmente agora que o Natal se aproxima. Há uma rua perto do Largo Paissandu com lojas de chapéus. Usar chapéu ficou fora de moda. Mas tem um charme especial. Existem modelos desses que só se vêem em cinema. Os de palheta. Tipo panamá. De aba curta ou longa. Clássicos e modernosos. Fui um dia desses, só para olhar. Quando vi, estava com três chapéus amontoados no armário. Agora espero a chance de usar. Se virem um senhor de óculos e barriga saliente passeando de chapéu, provavelmente sou eu!

Lojas de chás são o máximo. No Shopping Iguatemi e no Pátio Higienópolis estão as especializadas. Os chás verdes são classificados por sabores, como vinhos. Há os com pétalas de rosa misturadas, os feitos com folhas tenras... A vendedora ensina minuciosamente:

– Ferva a água. Deixe descansar dois minutos. Ponha as folhas e deixe mais dois minutos. Nem um segundo a mais, para não queimar. Retire as folhas e beba.

Volto para casa, boto a chaleira no fogo. Olho fixamente na esperança de que a água ferva mais depressa. No primeiro chiado, desligo. Aguardo de olho no relógio, segundo a segundo. Quase morro de impaciência. Ao sentir o sabor surpreendentemente refrescante de um bom chá verde, suspiro:

– Valeu a pena!

A chaleira eu compro na Liberdade. Olhar as lojas do bairro oriental é uma delícia! Existem chaleiras de ferro, de vidro, só para chás. Também não resisto e compro bonequinhas japonesas feitas com a tradicional técnica do origami, em papel. Presentes orientais têm esse fascínio. No casamento, meu irmão ganhou uma panela de fazer arroz no estilo japonês. Em doze anos, usou uma vez para ver como era. Mas a panela é seu orgulho! Vive exibindo-a para as visitas.

Dentro de um supermercado elegante na região dos Jardins, há uma butique de águas. Nunca poderia imaginar tal especialização. Águas ideais para a digestão, um pouco mais "pesadas". Ou leves, com um suave perfume de fruta. Só não tem água comum. Todas de grife. Há um ano comprei três garrafas. Ficaram meses na geladeira, aguardando um dia especial. Quando a gente espera um "dia especial", parece que nunca chega! Finalmente, quebrou o filtro. Bebemos as águas por pura sede. Foi a melhor forma!

No mercadão de Pinheiros existe um boxe só com ervas e temperos. O que se possa imaginar, lá tem. Não resisto! Compro uns três ou quatro tipos, embora não saiba para que servem. Na saída, escolho um frango. Vivo! Sim, junto ao estacionamento vendem frangos caipiras. Levo a ave já depenada para casa. Invento. Acaba saindo um risoto inesquecível. E impossível de repetir. Não guardei o nome das ervas. Também, nunca mais vou ter coragem de selar o destino de um frango que eu conheça pessoalmente. Tinha pontadas de remorso a cada garfada!

Entre todas, a experiência mais extraordinária: achar um ovo de "mil anos". É preciso voltar à Liberdade e bater lojas e restaurantes. Trata-se de mercadoria cara e rara, com o perdão da rima. Segundo sei, é um ovo de pata enterrado cru durante três meses. Com o calor da terra, ganha consistência de gelatina e uma esquisitíssima cor verde. Tenho dois na geladeira. O tal ovo costuma afugentar as visitas, embora uma parcela mínima da população (e bota mínima nisso) ame de paixão. Estou esperando aparecer uma vítima. Fúteis ou não, certas coisas deixam a vida bem mais divertida!

         
     
 
 
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