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CRÔNICA
Deliciosas
futilidades
Walcyr
Carrasco
Para
muita gente, o que não é essencial torna-se fútil.
Quem gosta de desfrutar a vida sabe que o fútil pode ser
essencial. Vivo garimpando pela cidade, descobrindo coisas diferentes.
Principalmente agora que o Natal se aproxima. Há uma rua
perto do Largo Paissandu com lojas de chapéus. Usar chapéu
ficou fora de moda. Mas tem um charme especial. Existem modelos
desses que só se vêem em cinema. Os de palheta. Tipo
panamá. De aba curta ou longa. Clássicos e modernosos.
Fui um dia desses, só para olhar. Quando vi, estava com três
chapéus amontoados no armário. Agora espero a chance
de usar. Se virem um senhor de óculos e barriga saliente
passeando de chapéu, provavelmente sou eu!
Lojas
de chás são o máximo. No Shopping Iguatemi
e no Pátio Higienópolis estão as especializadas.
Os chás verdes são classificados por sabores, como
vinhos. Há os com pétalas de rosa misturadas, os feitos
com folhas tenras... A vendedora ensina minuciosamente:
Ferva a água. Deixe descansar dois minutos. Ponha as folhas
e deixe mais dois minutos. Nem um segundo a mais, para não
queimar. Retire as folhas e beba.
Volto
para casa, boto a chaleira no fogo. Olho fixamente na esperança
de que a água ferva mais depressa. No primeiro chiado, desligo.
Aguardo de olho no relógio, segundo a segundo. Quase morro
de impaciência. Ao sentir o sabor surpreendentemente refrescante
de um bom chá verde, suspiro:
Valeu a pena!
A
chaleira eu compro na Liberdade. Olhar as lojas do bairro oriental
é uma delícia! Existem chaleiras de ferro, de vidro,
só para chás. Também não resisto e compro
bonequinhas japonesas feitas com a tradicional técnica do
origami, em papel. Presentes orientais têm esse fascínio.
No casamento, meu irmão ganhou uma panela de fazer arroz
no estilo japonês. Em doze anos, usou uma vez para ver como
era. Mas a panela é seu orgulho! Vive exibindo-a para as
visitas.
Dentro
de um supermercado elegante na região dos Jardins, há
uma butique de águas. Nunca poderia imaginar tal especialização.
Águas ideais para a digestão, um pouco mais "pesadas".
Ou leves, com um suave perfume de fruta. Só não tem
água comum. Todas de grife. Há um ano comprei três
garrafas. Ficaram meses na geladeira, aguardando um dia especial.
Quando a gente espera um "dia especial", parece que nunca chega!
Finalmente, quebrou o filtro. Bebemos as águas por pura sede.
Foi a melhor forma!
No
mercadão de Pinheiros existe um boxe só com ervas
e temperos. O que se possa imaginar, lá tem. Não resisto!
Compro uns três ou quatro tipos, embora não saiba para
que servem. Na saída, escolho um frango. Vivo! Sim, junto
ao estacionamento vendem frangos caipiras. Levo a ave já
depenada para casa. Invento. Acaba saindo um risoto inesquecível.
E impossível de repetir. Não guardei o nome das ervas.
Também, nunca mais vou ter coragem de selar o destino de
um frango que eu conheça pessoalmente. Tinha pontadas de
remorso a cada garfada!
Entre
todas, a experiência mais extraordinária: achar um
ovo de "mil anos". É preciso voltar à Liberdade e
bater lojas e restaurantes. Trata-se de mercadoria cara e rara,
com o perdão da rima. Segundo sei, é um ovo de pata
enterrado cru durante três meses. Com o calor da terra, ganha
consistência de gelatina e uma esquisitíssima cor verde.
Tenho dois na geladeira. O tal ovo costuma afugentar as visitas,
embora uma parcela mínima da população (e bota
mínima nisso) ame de paixão. Estou esperando aparecer
uma vítima. Fúteis ou não, certas coisas deixam
a vida bem mais divertida!
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