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10 de julho de 2002
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Porões iluminados

Antigo prédio do Dops, símbolo do regime
militar, é restaurado para abrigar museu

Marcella Centofanti


Fotos Leo Feltran
Painéis (acima) contam a história do edifício (no alto): sede da polícia política durante a ditadura

Nos tempos do regime militar, o prédio de tijolinhos aparentes da foto abaixo foi um dos lugares mais temidos da cidade. Localizado bem ao lado da Estação Júlio Prestes, ele abrigava o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), a polícia política que, instituída nos anos 20, comandou a repressão durante a ditadura iniciada em 1964. Muitos dos interrogatórios e torturas praticados na época tiveram lugar no 3º piso desse edifício. Foi lá, por exemplo, que o delegado Sérgio Paranhos Fleury – um símbolo da repressão política dos anos 70 – exerceu boa parte de sua truculência. No térreo havia quatro celas. Nelas estiveram presos tanto o físico Mário Schemberg (1914-1990) quanto o candidato a presidente da República Luís Inácio Lula da Silva. Em 1993, com a extinção do Dops, o prédio foi ocupado pelo Departamento de Polícia do Consumidor (Decon), que permaneceu ali até 1998. Foi então entregue à Secretaria de Cultura do Estado, para fazer parte do projeto de revitalização do centro. Depois de dois anos de obras – que consumiram 12 milhões de reais dos governos federal e estadual e da iniciativa privada –, virou mais um centro cultural.

Três exposições ocupam os cinco andares do edifício recém-restaurado, que passa a ser sede do Museu do Imaginário do Povo Brasileiro. Sob o comando de Emanoel Araújo, ex-diretor da Pinacoteca do Estado, a nova instituição de nome pomposo não tem acervo nem sequer um rumo definido. Apesar disso, promete estar funcionando a mil até o fim do ano. "Queremos relatar a história do Brasil por meio da arte", diz Araújo, que quer misturar obras de arte e elementos cenográficos, retomando assim alguns de seus melhores momentos à frente da Pinacoteca.

 
Fotos Leo Feltran
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Instalação de Siron Franco (acima, à esq.), uma das quatro celas do térreo e a sala com as telas baseadas na Declaração Universal dos Direitos Humanos: arte engajada

Por enquanto, a proposta é contar a história do Dops. A mostra Cotidiano Vigiado – Repressão, Resistência e Liberdade nos Arquivos do Dops – 1924-1983 apresenta, pela primeira vez, imagens e documentos do arquivo da polícia política. O público poderá consultar, por exemplo, os prontuários do presidente Fernando Henrique Cardoso, de Chico Buarque, dom Paulo Evaristo Arns, Mário Covas, Carlos Lamarca, Vladimir Herzog e até dos escritores Oswald de Andrade e Monteiro Lobato – todos fichados no órgão. Intolerância é o nome da segunda exposição, que reúne esculturas e instalações de Siron Franco. As antigas celas se transformaram no Memorial da Liberdade, onde estão agrupadas telas e gravuras de trinta artistas brasileiros. Todos esses trabalhos têm por base a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O imponente edifício, tombado em 1991, foi projetado pelo escritório de Ramos de Azevedo para abrigar os armazéns-gerais e a administração da empresa inglesa São Paulo Railway Company. Com 7.500 metros quadrados, o prédio começou a ser erguido em 1914 e funcionou como estação provisória da companhia até a década seguinte, quando foi construída a Estação Júlio Prestes. O arquiteto Haron Cohen conduziu a recente reforma. Recuperou a fachada original, mas mudou completamente o interior. As paredes foram derrubadas em favor de amplos espaços para exposições. Ele cuidou da preservação das janelas, colunas de metal, grades, portas e dos trincos das celas. Inicialmente, falou-se em instalar ali uma escola de música. A idéia, porém, foi logo abandonada, sob o argumento de que a estrutura não suportaria o peso das paredes necessárias para uma boa acústica. "No Brasil, infelizmente, existe a tendência de modificar demais as características de construções históricas", diz Monica Junqueira, professora de arquitetura brasileira da Universidade Mackenzie. Ela cita como exemplos o edifício da Light, na Praça Ramos de Azevedo, que virou um shopping, e o do Colégio Caetano de Campos, na Praça da República, onde está a Secretaria da Educação. "Melhor seria se continuassem escritório e escola", acredita. Para Monica, no entanto, a mudança foi acertada no caso do prédio do Dops. "Justifica-se por estar dentro de um projeto de corredor cultural", afirma.

 
Museu do Imaginário do Povo Brasileiro, Largo General Osório, 66, Luz, 223-5217, Metrô Luz. Terça a domingo, 10h às 17h. Grátis.

         
     
 
 
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