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PATRIMÔNIO
Porões
iluminados
Antigo
prédio do Dops, símbolo do regime
militar,
é restaurado para abrigar museu
Marcella
Centofanti
Fotos Leo Feltran
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| Painéis
(acima) contam a história do edifício (no alto):
sede da polícia política durante a ditadura |
Nos
tempos do regime militar, o prédio de tijolinhos aparentes
da foto abaixo foi um dos lugares mais temidos da cidade. Localizado
bem ao lado da Estação Júlio Prestes, ele abrigava
o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), a polícia
política que, instituída nos anos 20, comandou a repressão
durante a ditadura iniciada em 1964. Muitos dos interrogatórios
e torturas praticados na época tiveram lugar no 3º piso
desse edifício. Foi lá, por exemplo, que o delegado
Sérgio Paranhos Fleury um símbolo da repressão
política dos anos 70 exerceu boa parte de sua truculência.
No térreo havia quatro celas. Nelas estiveram presos tanto
o físico Mário Schemberg (1914-1990) quanto o candidato
a presidente da República Luís Inácio Lula
da Silva. Em 1993, com a extinção do Dops, o prédio
foi ocupado pelo Departamento de Polícia do Consumidor (Decon),
que permaneceu ali até 1998. Foi então entregue à
Secretaria de Cultura do Estado, para fazer parte do projeto de
revitalização do centro. Depois de dois anos de obras
que consumiram 12 milhões de reais dos governos federal
e estadual e da iniciativa privada , virou mais um centro
cultural.
Três
exposições ocupam os cinco andares do edifício
recém-restaurado, que passa a ser sede do Museu do Imaginário
do Povo Brasileiro. Sob o comando de Emanoel Araújo, ex-diretor
da Pinacoteca do Estado, a nova instituição de nome
pomposo não tem acervo nem sequer um rumo definido. Apesar
disso, promete estar funcionando a mil até o fim do ano.
"Queremos relatar a história do Brasil por meio da arte",
diz Araújo, que quer misturar obras de arte e elementos cenográficos,
retomando assim alguns de seus melhores momentos à frente
da Pinacoteca.
Fotos Leo Feltran
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ran
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Instalação
de Siron Franco (acima, à esq.), uma das quatro celas
do térreo e a sala com as telas baseadas na Declaração Universal
dos Direitos Humanos: arte engajada |
Por
enquanto, a proposta é contar a história do Dops.
A mostra Cotidiano Vigiado Repressão, Resistência
e Liberdade nos Arquivos do Dops 1924-1983 apresenta,
pela primeira vez, imagens e documentos do arquivo da polícia
política. O público poderá consultar, por exemplo,
os prontuários do presidente Fernando Henrique Cardoso, de
Chico Buarque, dom Paulo Evaristo Arns, Mário Covas, Carlos
Lamarca, Vladimir Herzog e até dos escritores Oswald de Andrade
e Monteiro Lobato todos fichados no órgão.
Intolerância é o nome da segunda exposição,
que reúne esculturas e instalações de Siron
Franco. As antigas celas se transformaram no Memorial da Liberdade,
onde estão agrupadas telas e gravuras de trinta artistas
brasileiros. Todos esses trabalhos têm por base a Declaração
Universal dos Direitos Humanos.
O
imponente edifício, tombado em 1991, foi projetado pelo escritório
de Ramos de Azevedo para abrigar os armazéns-gerais e a administração
da empresa inglesa São Paulo Railway Company. Com 7.500
metros quadrados, o prédio começou a ser erguido em
1914 e funcionou como estação provisória da
companhia até a década seguinte, quando foi construída
a Estação Júlio Prestes. O arquiteto Haron
Cohen conduziu a recente reforma. Recuperou a fachada original,
mas mudou completamente o interior. As paredes foram derrubadas
em favor de amplos espaços para exposições.
Ele cuidou da preservação das janelas, colunas de
metal, grades, portas e dos trincos das celas. Inicialmente, falou-se
em instalar ali uma escola de música. A idéia, porém,
foi logo abandonada, sob o argumento de que a estrutura não
suportaria o peso das paredes necessárias para uma boa acústica.
"No Brasil, infelizmente, existe a tendência de modificar
demais as características de construções históricas",
diz Monica Junqueira, professora de arquitetura brasileira da Universidade
Mackenzie. Ela cita como exemplos o edifício da Light, na
Praça Ramos de Azevedo, que virou um shopping, e o do Colégio
Caetano de Campos, na Praça da República, onde está
a Secretaria da Educação. "Melhor seria se continuassem
escritório e escola", acredita. Para Monica, no entanto,
a mudança foi acertada no caso do prédio do Dops.
"Justifica-se por estar dentro de um projeto de corredor cultural",
afirma.
Museu
do Imaginário do Povo Brasileiro,
Largo General Osório, 66, Luz,
223-5217, Metrô Luz. Terça a domingo, 10h às
17h. Grátis. |
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