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10 de maio de 2006
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A moda da cabala

Paulistanos de diferentes credos
se rendem à mística judaica

Marcella Centofanti


Daniela Toviansky
A empresária Natalie Klein: ela não desgruda do livro sagrado da cabala nem em viagens


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Para onde quer que vá, a empresária Natalie Klein não se separa de um livrão escrito em hebraico. Na entrada de sua casa, a restauratrice Mary Nigri exibe um quadro colorido com letras do mesmo alfabeto. Num ritual diário, a estilista Gloria Coelho ouve por trinta minutos um CD com cânticos no idioma de Israel. As três seguem os preceitos da cabala (há quem pronuncie cabalá, como no original), mística judaica com adeptos de diferentes credos. Mantida durante séculos como um segredo restrito a homens com mais de 40 anos do círculo judaico, a cabala popularizou-se na última década – tendo como principal garota-propaganda a pop star Madonna. É a última moda entre esotéricos em geral. À diferença do que muitos acreditam, não se trata de uma religião, mas de um conjunto de ensinamentos que procuram explicar a formação do universo e os significados ocultos da Torá, o livro sagrado do judaísmo.

Não há estatísticas sobre o número de cabalistas – como são chamados os praticantes – existente na cidade. Mas sua proliferação é visível. Entre os cursos oferecidos pelo Centro da Cultura Judaica, em Pinheiros, o de cabala está entre os de maior sucesso. Quando as primeiras aulas começaram, em 2003, havia quarenta vagas. Diante da demanda surpreendente, foi aceita a inscrição de 150 pessoas. O Centro de Cabala de São Paulo, filial do Kabbalah Centre (a escola de Madonna), também em Pinheiros, conta atualmente com 200 alunos.

Adepta há quatro anos, Natalie Klein foi assídua freqüentadora do centro. Desde o ano passado, estuda em casa com um rabino ortodoxo, reunida num grupo de quinze amigos. "As aulas são mais profundas e ligadas à religião", afirma ela. Natalie carrega para cima e para baixo, na bolsa, um exemplar do Zohar, o livro mais importante da cabala, escrito em hebraico, idioma com alfabeto próprio que ela confessa ler com muita, muita dificuldade. Leva uma versão maior e mais pesada quando viaja, como uma espécie de amuleto. Como ela, Mary Nigri anda para todo lado com um exemplar do Zohar. As mesmas letras em hebraico do quadro colorido que colocou em casa, representando na simbologia cabalística os nomes de Deus e que teriam poderes transformadores, estampam a capa de sua agenda, uma camiseta e um conjunto de pingentes que ela não tira nunca.

Embora Mary e Natalie tenham origem judaica, em muitos cursos da cidade a maioria dos alunos é de outras religiões. De formação católica, Gloria Coelho conta que se tornou adepta há três anos. Um dos rituais que pratica é amarrar no pulso uma fita de lã vermelha para espantar mau-olhado. A paixão pela mística reflete-se em sua coleção de roupas e acessórios. Na mais recente, ela criou um anel em forma de soco-inglês em que se lê a palavra prosperidade, em hebraico. "A cabala diz que precisamos ser mais generosos e menos reativos", afirma. "Sinto-me mais calma." Seu marido, o estilista Reinaldo Lourenço, é mais um adepto. Entre os princípios que ele se esforça para colocar em prática está o de não falar mal dos outros – algo inimaginável no serpentário da moda. "Às vezes, a língua coça, mas tento me segurar", jura Reinaldo.

A divulgação dos ensinamentos divide opiniões. Shmuel Lemle, professor do Centro de Cabala, é favorável. "O curso foi planejado para que qualquer um possa aprender, sem necessidade de conhecimento prévio", afirma. Na visão do rabino carioca Nilton Bonder, professor do curso do Centro da Cultura Judaica, amuletos como pulseiras vermelhas e camisetas com letras em hebraico não transformam as pessoas. "Cabala não é magia e não pode ser usada como atalho para quem quer ser mais feliz, mais rico ou ter mais sucesso", considera. Já Henry Sobel, presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista (CIP), vê o súbito crescimento com ressalvas. "Em tempos de turbulência moral e existencial, as pessoas buscam algo que muitas vezes nem sabem o que é", afirma Sobel. "A cabala é um estudo sério e profundo, que não pode ser visto apenas como refúgio."


Fotos Daniela Toviansky
A estilista Gloria Coelho (acima) e a restauratrice Mary Nigri: pulseira de lã e palavras em hebraico como amuletos

     
   
 
 
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