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ESPECIAL É
ele mesmo, o prefeito Há
pouco mais de um mês à frente da administração
municipal, Gilberto Kassab esforça-se para se tornar mais conhecido
pelos paulistanos Rodrigo Brancatelli
Fernando Moraes  |
Sábado, 29 de abril
É no setor vermelho das cativas do Estádio do
Morumbi que Kassab gosta de assistir aos jogos do São Paulo, seu time do
coração. Considera-se pé-quente. A última partida
que viu foi contra o Santa Cruz. Vitória de 4 a zero. |
De um lado, pães de queijo,
minipães de batata, croissants, carolinas e bolo com gotas de chocolate,
entre outras tentações. Do outro, o prefeito Gilberto Kassab, que
olha desoladamente para seu café preto enquanto brinca com um saquinho
de adoçante em pó. No salão do Yacht Club Santo Amaro, às
margens da Represa de Guarapiranga, Kassab percebe mais uma vez que regime e prefeitura
são palavras que não combinam na mesma frase. "Fica difícil
emagrecer assim", diz ele, que tem 1,83 metro de altura, 97 quilos e índice
de massa corpórea na casa dos 29 (está no limite do sobrepeso, com
um pé na obesidade). Desde que assumiu o cargo deixado por José
Serra, no dia 30 de março, o 53º prefeito de São Paulo quase
não encontra mais tempo para ir ao Esporte Clube Pinheiros para jogar tênis,
um dos seus hobbies preferidos, ou manter uma rotina de exercícios. E,
ainda por cima, o que não falta são doces e salgadinhos nos inúmeros
eventos aos quais comparece. Sua
agenda tem sido incompatível com a dieta. De segunda a sexta, muitas vezes
também aos sábados, Kassab vai a uma média de três
eventos por dia. No dia 26 de abril, por exemplo, uma quarta-feira, o café-da-manhã
calórico para comemorar o centenário da Guarapiranga seria seguido
da entrega de uma obra na Praça da Luz, da inauguração de
um hospital e de um jantar com jovens empresários da Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) no elegante restaurante
Emiliano. "Meu ponto fraco são os doces", assume. "Pelo menos já
aprendi a usar adoçante e a tomar só refrigerante light. Assim sobra
espaço para a sobremesa." (Curiosamente, São Paulo tem certa tradição
de prefeitos, digamos, robustos: o imbatível Reynaldo de Barros, seu tio
Adhemar de Barros, Mario Covas, Luiza Erundina, o barrigudo Paulo Maluf...)
Ernesto Rodrigues/AE  |
Sábado, 1º
de abril Logo no primeiro dia como prefeito, Kassab arregaçou
as mangas e participou de um plantio de árvores ao lado de dezenas de lobinhos.
Quatrocentas mudas foram plantadas na Zona Oeste. O prefeito ajudou em uma |
Nas últimas quatro semanas,
Kassab aproveitou todas as deixas para aparecer em público. De vistoria
em obras a assinaturas de convênios, passando por plantio de árvores
com escoteiros, ele participou de tudo o que pôde. Uma dor de cabeça
e tanto para sua equipe de segurança, formada por oito policiais militares.
Com um dia de antecedência, eles checam os locais por onde o prefeito irá
passar e escolhem os melhores trajetos para driblar o trânsito. A correria
é tamanha que os agentes têm apelado com freqüência ao
helicóptero da PM para transportar Kassab e seus assessores. "O bom de
voar é que você tem uma perspectiva diferente dos problemas de São
Paulo", disse ele ao voltar de helicóptero da Guarapiranga até o
centro. "Olha só como temos poucas áreas verdes. Precisamos mudar
esse cenário." A superexposição é explicável.
Foi a forma encontrada pelo PFL, seu partido, para que ele fique mais conhecido
na cidade. Em pesquisa realizada pelo instituto Datafolha no começo de
abril com 1 073 paulistanos, apenas 23% acertaram o nome do prefeito de São
Paulo.
"O Serra não vem?",
perguntou uma senhora a um policial, durante discurso de Kassab sobre iniciativas
para a área da cultura no Parque da Luz. Dois dias antes, uma cena parecida
acontecera na sede da Fiesp, na Avenida Paulista. Convidado para uma palestra
que o astronauta brasileiro Marcos Pontes daria no auditório, o prefeito
chegou com empresários, oficiais do Exército e pilotos da Força
Aérea Brasileira. Todos entraram direto. Menos Kassab, que foi puxado por
um segurança e teve de apresentar documentos. "Tá aqui... É
Gilberto Kassab", apresentou-se, enquanto seus assessores corriam para tentar
remediar a saia-justa.
Fernando Moraes  |
Segunda-feira, 24 de abril
Depois de não ser reconhecido por seguranças da Fiesp e
ter de mostrar documentos para entrar no auditório, ele assistiu a uma
palestra do astronauta brasileiro Marcos Pontes | A
bem da verdade, Kassab segue a cartilha do político picolé-de-chuchu.
Solteirão aos 45 anos, não é vaidoso nem chama atenção
pelo seu visual. Afirma que não se lembra do nome das lojas em que compra
ternos, que as gravatas que usa foram todas ganhas de presente e que pinta o cabelo
com um xampu tonalizante porque o cabeleireiro sugeriu. Kassab evita se envolver
em polêmicas. Os discursos parecem sempre bem decorados, com um tom de voz
monocórdico que só ganha um pouco de graça pela sua língua
levemente presa. Nada disso significa que seja uma figura apagada ou sem ambição.
Pelo contrário. Seu padrinho político, o presidente nacional do
PFL, senador Jorge Bornhausen, diz com exagero que o afilhado é um "gênio"
da política. "Kassab tem a visão de um enxadrista", acredita. "Não
dá passo em falso."
Sérgio Castro/AE  |
Sábado, 22 de abril
Mais um fim de semana, mais um compromisso em sua agenda. Enquanto visitava
obras em uma praça, Kassab resolveu tirar a sorte com um periquito de realejo.
Fez de tudo para esconder seu papelzinho das câmeras |
A vocação política ele herdou do pai, o dermatologista Pedro
Salomão Kassab, que ocupou cargos como o de presidente da Associação
Médica Brasileira e foi membro do Conselho Estadual de Educação.
Casado com Yacy Palermo, o médico teve sete filhos seis homens,
todos diplomados em engenharia na Universidade de São Paulo, e uma menina,
que se formou em fonoaudiologia. Gilberto Kassab entrou na Escola Politécnica
com 19 anos e se formou aos 24. Mais ou menos ao mesmo tempo, cursou economia
na USP. Em 1989, depois de ajudar na campanha de Guilherme Afif Domingos à
Presidência, candidatou-se a deputado estadual. Não foi eleito. Em
1993, entrou para a Câmara Municipal. Logo em seguida se elegeu deputado
estadual e, por duas vezes, deputado federal. Entre 1997 e 1998, foi secretário
de Planejamento do então prefeito Celso Pitta. Seria acusado de enriquecimento
ilícito quando o Ministério Público verificou um aumento
de 316% em seu patrimônio nesse período. O inquérito foi arquivado
em março último, pouco antes de Serra renunciar à prefeitura.
Mario Rodrigues  |
Sexta-feira, 28 de abril
Sem tempo para exercícios, Kassab descuidou da forma. Está
com 97 quilos. Nunca pesou tanto. Agora, tenta ir pelo menos uma vez por semana
à academia do Clube Pinheiros, por volta das 6h30, para correr na esteira
e fazer musculação |
Kassab entrou na chapa do tucano por uma imposição do PFL. Não
era o vice dos sonhos de Serra, mas aos poucos os dois conseguiram se afinar.
"Tirando a mania dele de ficar acordado nas madrugadas e de torcer para o Palmeiras,
nos entendemos perfeitamente", brinca Kassab. Futebol é um dos prazeres
do prefeito. São-paulino, adora ir ao Estádio do Morumbi (tanto
que é dono vitalício de cinco cadeiras cativas). O último
jogo a que assistiu foi contra o Santa Cruz, no dia 29 de abril, junto com duas
sobrinhas. Goleada de 4 a zero para o seu time. "Não gosto muito de ficar
em camarotes ou na tribuna, prefiro estar com a torcida", garante. Os momentos
de lazer não têm ido muito além disso. Quando o despertador
toca às 5h45 em seu apartamento de alto padrão no bairro de Pinheiros,
ele já sabe que o dia será corrido. Toma um café com adoçante,
dá uma lida em quatro jornais e ouve as últimas notícias
no rádio. Se a agenda permite, vai até o clube e faz um treinamento
criado especialmente por uma personal trainer para ele perder peso. "Antes vinha
três vezes por semana, mas atualmente está mais difícil",
conta.
Fernando Moraes  | oraes
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Sexta-feira, 28
de abril Depois de fazer ginástica na academia, vistoriar obras
da prefeitura e participar de eventos, Kassab terminou a semana trabalhando até
as 22h em seu gabinete. À direita, ainda criança, ele faz pose com
o telefone | A partir daí,
se não está em nenhum evento fora, fica despachando no 5º andar
do Edifício Matarazzo, sede da prefeitura. Seu gabinete de 350 metros quadrados
tem duas salas: uma para reuniões e outra mais reservada. Ali não
há fotos de família, objetos próprios nem qualquer coisa
mais pessoal. Além de algumas obras de arte da coleção da
Pinacoteca municipal nas paredes, Kassab mantém sobre sua mesa um computador,
um laptop, relatórios e um calendário com a imagem da irmã
Dulce, freira baiana que morreu em 1992. "Não decorei a sala porque é
um ambiente de trabalho, só isso", diz. Muitas vezes o prefeito é
obrigado a almoçar ali mesmo. Para tanto, conta com uma cozinha exclusiva.
Até agora, o prefeito não fez nenhum pedido especial aos cozinheiros,
mas de um tempo para cá a equipe passou a usar temperos lights e carnes
sem um pingo de gordura. Sobremesas, apenas em porções reduzidas.
"Aposto que o Serra ganhava mais comida", afirma Kassab. "Acho que estão
me sabotando."
| Entrevista: Gilberto Kassab
"Só mudou o maestro" Veja São
Paulo Que tipo de imagem o senhor acha que tem?
Kassab Espero ter a imagem de alguém que vai dar seqüência
ao trabalho de José Serra. Isso está sendo dito com bastante intensidade.
Claro que, em uma cidade gigantesca como São Paulo, a repercussão
da saída de um prefeito é peculiar. Mas é aquela história
da orquestra, só mudou o maestro. Alguns podem não saber meu nome,
mas sabem que São Paulo continua com os mesmos programas e as mesmas diretrizes.
Não me incomoda o fato de muitos não me conhecerem, não me
diminui em nada. Veja São
Paulo O senhor afirmou que o Minhocão é uma das obras mais
feias de São Paulo. Pensa em derrubá-lo? Kassab
Eu gostaria, mas é bastante difícil. Seria uma obra muito cara,
e a cidade tem outras prioridades. Embora o Minhocão seja realmente feio,
precisamos de um modelo de substituição economicamente viável.
Veja São Paulo O
senhor conhece bem a periferia da cidade? Kassab Sim. Nasci
aqui, fui vereador... Sempre andei muito pela capital. Mas não me sinto
constrangido se você me perguntar sobre uma rua ou um bairro que eu não
conheça. Não é isso que faz um bom prefeito. São Paulo
é muito grande. Veja São
Paulo O que faz então uma pessoa ser um bom prefeito? Kassab
Uma boa equipe, muito bom senso, muita vontade de trabalhar e determinação.
Veja São Paulo O
senhor pretende investir nos CEUs, os centros educacionais unificados criados
pela ex-prefeita Marta Suplicy? Kassab Desde que
o orçamento permita, claro. O número de unidades que serão
construídas depende do aumento de receita. De outro lado, tão importante
quanto investir em obras é investir no professor. Ao longo dos últimos
anos, os professores foram colocados em segundo plano. O que temos transmitido
a eles é que não vamos resolver a situação por definitivo
em um ou dois anos, mas iremos fazer o máximo possível para valorizar
a profissão. Veja São
Paulo Das 61 escolas de lata construídas na gestão Celso
Pitta, ainda restam sete. Quando São Paulo estará livre delas?
Kassab Ainda neste ano. Com certeza. Veja
São Paulo O trânsito da cidade é um inferno para todos
os moradores, tanto para quem circula nas regiões mais nobres como sobretudo
para os mais pobres, que moram na periferia e perdem até cinco horas para
ir ao trabalho e voltar. O que o senhor pretende fazer de efetivo para diminuir
esse sofrimento paulistano? Kassab Muito já foi feito.
Melhorar o trânsito é, antes de mais nada, investir no transporte
público e na infra-estrutura das vias. Nenhum governo recapeou tanto quanto
este. Em um ano e quatro meses, recapeamos mais do que nos últimos dezesseis
anos. Retomamos o término da Avenida JacuPêssego, que vai desafogar
importantes ruas da Zona Leste. Nós iremos entregar o maior corredor da
história de São Paulo, que é o corredor Parque Dom PedroCidade
Tiradentes. Estamos iniciando, agora em maio, a reforma da Avenida dos Bandeirantes.
Também em maio, começaremos as obras de recapeamento das marginais.
Vamos retomar o término da Avenida Roberto Marinho, para levá-la
da Marginal Pinheiros até a Imigrantes. Estamos investindo nos semáforos
inteligentes. É muita coisa sendo feita pelo trânsito.
Veja São Paulo E por que o trânsito
está cada vez pior? Kassab Há 5 milhões
de veículos na cidade e o trânsito ganha 500 novos carros a cada
dia. A prefeitura administra um bem cada vez mais escasso, o espaço público.
Veja São Paulo Alguma
nova obra viária será realizada? Kassab Está
em estudo uma parceria do estado com a prefeitura para a criação
de novas pistas nas marginais. Talvez quatro. Elas seriam pedagiadas, como se
fossem estradas. Ainda estamos conferindo a viabilidade, mas eu gostaria de vê-las
prontas até o fim da gestão. Veja
São Paulo Por que o projeto de revitalização da Cracolândia
ainda não engatou? Kassab Em um ano, muitos avanços
foram conquistados. Primeiro, conseguimos aprovar uma lei de incentivos fiscais
para investidores. Também diminuímos a criminalidade e a prostituição.
Com o tempo, vamos modernizar a região da Luz e, num efeito dominó,
mudar a cara do centro. No começo do ano que vem, acho que já teremos
investimentos se concretizando e algumas obras sendo erguidas. Veja
São Paulo E os estacionamentos subterrâneos no centro, serão
construídos? Kassab É inevitável. O
projeto não saiu do papel porque é uma obra cara, complexa, que
precisa ser estudada. Isso demanda um tempo. Mas eu pessoalmente acredito nele.
Veja São Paulo O
que dá para fazer para conter os camelôs? Kassab
As pessoas que pagam impostos em dia são prejudicadas por aquelas que trabalham
com a pirataria. O poder público não pode ficar omisso. Compreendemos
a dificuldade dos camelôs ilegais. Cabe à prefeitura coibir, mas
também oferecer oportunidades para que essas pessoas saiam da ilegalidade.
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