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10 de maio de 2006
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É ele mesmo, o prefeito

Há pouco mais de um mês à frente
da administração municipal, Gilberto
Kassab esforça-se para se tornar
mais conhecido pelos paulistanos

Rodrigo Brancatelli


Fernando Moraes
Sábado, 29 de abril
É no setor vermelho das cativas do Estádio do Morumbi que Kassab gosta de assistir aos jogos do São Paulo, seu time do coração. Considera-se pé-quente. A última partida que viu foi contra o Santa Cruz. Vitória de 4 a zero.


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De um lado, pães de queijo, minipães de batata, croissants, carolinas e bolo com gotas de chocolate, entre outras tentações. Do outro, o prefeito Gilberto Kassab, que olha desoladamente para seu café preto enquanto brinca com um saquinho de adoçante em pó. No salão do Yacht Club Santo Amaro, às margens da Represa de Guarapiranga, Kassab percebe mais uma vez que regime e prefeitura são palavras que não combinam na mesma frase. "Fica difícil emagrecer assim", diz ele, que tem 1,83 metro de altura, 97 quilos e índice de massa corpórea na casa dos 29 (está no limite do sobrepeso, com um pé na obesidade). Desde que assumiu o cargo deixado por José Serra, no dia 30 de março, o 53º prefeito de São Paulo quase não encontra mais tempo para ir ao Esporte Clube Pinheiros para jogar tênis, um dos seus hobbies preferidos, ou manter uma rotina de exercícios. E, ainda por cima, o que não falta são doces e salgadinhos nos inúmeros eventos aos quais comparece.

Sua agenda tem sido incompatível com a dieta. De segunda a sexta, muitas vezes também aos sábados, Kassab vai a uma média de três eventos por dia. No dia 26 de abril, por exemplo, uma quarta-feira, o café-da-manhã calórico para comemorar o centenário da Guarapiranga seria seguido da entrega de uma obra na Praça da Luz, da inauguração de um hospital e de um jantar com jovens empresários da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) no elegante restaurante Emiliano. "Meu ponto fraco são os doces", assume. "Pelo menos já aprendi a usar adoçante e a tomar só refrigerante light. Assim sobra espaço para a sobremesa." (Curiosamente, São Paulo tem certa tradição de prefeitos, digamos, robustos: o imbatível Reynaldo de Barros, seu tio Adhemar de Barros, Mario Covas, Luiza Erundina, o barrigudo Paulo Maluf...)

Ernesto Rodrigues/AE
Sábado, 1º de abril
Logo no primeiro dia como prefeito, Kassab arregaçou as mangas e participou de um plantio de árvores ao lado de dezenas de lobinhos. Quatrocentas mudas foram plantadas na Zona Oeste. O prefeito ajudou em uma


Nas últimas quatro semanas, Kassab aproveitou todas as deixas para aparecer em público. De vistoria em obras a assinaturas de convênios, passando por plantio de árvores com escoteiros, ele participou de tudo o que pôde. Uma dor de cabeça e tanto para sua equipe de segurança, formada por oito policiais militares. Com um dia de antecedência, eles checam os locais por onde o prefeito irá passar e escolhem os melhores trajetos para driblar o trânsito. A correria é tamanha que os agentes têm apelado com freqüência ao helicóptero da PM para transportar Kassab e seus assessores. "O bom de voar é que você tem uma perspectiva diferente dos problemas de São Paulo", disse ele ao voltar de helicóptero da Guarapiranga até o centro. "Olha só como temos poucas áreas verdes. Precisamos mudar esse cenário." A superexposição é explicável. Foi a forma encontrada pelo PFL, seu partido, para que ele fique mais conhecido na cidade. Em pesquisa realizada pelo instituto Datafolha no começo de abril com 1 073 paulistanos, apenas 23% acertaram o nome do prefeito de São Paulo.

"O Serra não vem?", perguntou uma senhora a um policial, durante discurso de Kassab sobre iniciativas para a área da cultura no Parque da Luz. Dois dias antes, uma cena parecida acontecera na sede da Fiesp, na Avenida Paulista. Convidado para uma palestra que o astronauta brasileiro Marcos Pontes daria no auditório, o prefeito chegou com empresários, oficiais do Exército e pilotos da Força Aérea Brasileira. Todos entraram direto. Menos Kassab, que foi puxado por um segurança e teve de apresentar documentos. "Tá aqui... É Gilberto Kassab", apresentou-se, enquanto seus assessores corriam para tentar remediar a saia-justa.


Fernando Moraes
Segunda-feira, 24 de abril
Depois de não ser reconhecido por seguranças da Fiesp e ter de mostrar documentos para entrar no auditório, ele assistiu a uma palestra do astronauta brasileiro Marcos Pontes

A bem da verdade, Kassab segue a cartilha do político picolé-de-chuchu. Solteirão aos 45 anos, não é vaidoso nem chama atenção pelo seu visual. Afirma que não se lembra do nome das lojas em que compra ternos, que as gravatas que usa foram todas ganhas de presente e que pinta o cabelo com um xampu tonalizante porque o cabeleireiro sugeriu. Kassab evita se envolver em polêmicas. Os discursos parecem sempre bem decorados, com um tom de voz monocórdico que só ganha um pouco de graça pela sua língua levemente presa. Nada disso significa que seja uma figura apagada ou sem ambição. Pelo contrário. Seu padrinho político, o presidente nacional do PFL, senador Jorge Bornhausen, diz com exagero que o afilhado é um "gênio" da política. "Kassab tem a visão de um enxadrista", acredita. "Não dá passo em falso."


Sérgio Castro/AE
Sábado, 22 de abril
Mais um fim de semana, mais um compromisso em sua agenda. Enquanto visitava obras em uma praça, Kassab resolveu tirar a sorte com um periquito de realejo. Fez de tudo para esconder seu papelzinho das câmeras

A vocação política ele herdou do pai, o dermatologista Pedro Salomão Kassab, que ocupou cargos como o de presidente da Associação Médica Brasileira e foi membro do Conselho Estadual de Educação. Casado com Yacy Palermo, o médico teve sete filhos – seis homens, todos diplomados em engenharia na Universidade de São Paulo, e uma menina, que se formou em fonoaudiologia. Gilberto Kassab entrou na Escola Politécnica com 19 anos e se formou aos 24. Mais ou menos ao mesmo tempo, cursou economia na USP. Em 1989, depois de ajudar na campanha de Guilherme Afif Domingos à Presidência, candidatou-se a deputado estadual. Não foi eleito. Em 1993, entrou para a Câmara Municipal. Logo em seguida se elegeu deputado estadual e, por duas vezes, deputado federal. Entre 1997 e 1998, foi secretário de Planejamento do então prefeito Celso Pitta. Seria acusado de enriquecimento ilícito quando o Ministério Público verificou um aumento de 316% em seu patrimônio nesse período. O inquérito foi arquivado em março último, pouco antes de Serra renunciar à prefeitura.

Mario Rodrigues
Sexta-feira, 28 de abril
Sem tempo para exercícios, Kassab descuidou da forma. Está com 97 quilos. Nunca pesou tanto. Agora, tenta ir pelo menos uma vez por semana à academia do Clube Pinheiros, por volta das 6h30, para correr na esteira e fazer musculação


Kassab entrou na chapa do tucano por uma imposição do PFL. Não era o vice dos sonhos de Serra, mas aos poucos os dois conseguiram se afinar. "Tirando a mania dele de ficar acordado nas madrugadas e de torcer para o Palmeiras, nos entendemos perfeitamente", brinca Kassab. Futebol é um dos prazeres do prefeito. São-paulino, adora ir ao Estádio do Morumbi (tanto que é dono vitalício de cinco cadeiras cativas). O último jogo a que assistiu foi contra o Santa Cruz, no dia 29 de abril, junto com duas sobrinhas. Goleada de 4 a zero para o seu time. "Não gosto muito de ficar em camarotes ou na tribuna, prefiro estar com a torcida", garante. Os momentos de lazer não têm ido muito além disso. Quando o despertador toca às 5h45 em seu apartamento de alto padrão no bairro de Pinheiros, ele já sabe que o dia será corrido. Toma um café com adoçante, dá uma lida em quatro jornais e ouve as últimas notícias no rádio. Se a agenda permite, vai até o clube e faz um treinamento criado especialmente por uma personal trainer para ele perder peso. "Antes vinha três vezes por semana, mas atualmente está mais difícil", conta.



Fernando Moraes
oraes
Sexta-feira, 28 de abril
Depois de fazer ginástica na academia, vistoriar obras da prefeitura e participar de eventos, Kassab terminou a semana trabalhando até as 22h em seu gabinete. À direita, ainda criança, ele faz pose com o telefone

A partir daí, se não está em nenhum evento fora, fica despachando no 5º andar do Edifício Matarazzo, sede da prefeitura. Seu gabinete de 350 metros quadrados tem duas salas: uma para reuniões e outra mais reservada. Ali não há fotos de família, objetos próprios nem qualquer coisa mais pessoal. Além de algumas obras de arte da coleção da Pinacoteca municipal nas paredes, Kassab mantém sobre sua mesa um computador, um laptop, relatórios e um calendário com a imagem da irmã Dulce, freira baiana que morreu em 1992. "Não decorei a sala porque é um ambiente de trabalho, só isso", diz. Muitas vezes o prefeito é obrigado a almoçar ali mesmo. Para tanto, conta com uma cozinha exclusiva. Até agora, o prefeito não fez nenhum pedido especial aos cozinheiros, mas de um tempo para cá a equipe passou a usar temperos lights e carnes sem um pingo de gordura. Sobremesas, apenas em porções reduzidas. "Aposto que o Serra ganhava mais comida", afirma Kassab. "Acho que estão me sabotando."

 

Entrevista: Gilberto Kassab
"Só mudou o maestro"

Veja São Paulo – Que tipo de imagem o senhor acha que tem?
Kassab – Espero ter a imagem de alguém que vai dar seqüência ao trabalho de José Serra. Isso está sendo dito com bastante intensidade. Claro que, em uma cidade gigantesca como São Paulo, a repercussão da saída de um prefeito é peculiar. Mas é aquela história da orquestra, só mudou o maestro. Alguns podem não saber meu nome, mas sabem que São Paulo continua com os mesmos programas e as mesmas diretrizes. Não me incomoda o fato de muitos não me conhecerem, não me diminui em nada.

Veja São Paulo – O senhor afirmou que o Minhocão é uma das obras mais feias de São Paulo. Pensa em derrubá-lo?
Kassab – Eu gostaria, mas é bastante difícil. Seria uma obra muito cara, e a cidade tem outras prioridades. Embora o Minhocão seja realmente feio, precisamos de um modelo de substituição economicamente viável.

Veja São Paulo – O senhor conhece bem a periferia da cidade?
Kassab – Sim. Nasci aqui, fui vereador... Sempre andei muito pela capital. Mas não me sinto constrangido se você me perguntar sobre uma rua ou um bairro que eu não conheça. Não é isso que faz um bom prefeito. São Paulo é muito grande.

Veja São Paulo – O que faz então uma pessoa ser um bom prefeito?
Kassab – Uma boa equipe, muito bom senso, muita vontade de trabalhar e determinação.

Veja São Paulo – O senhor pretende investir nos CEUs, os centros educacionais unificados criados pela ex-prefeita Marta Suplicy?
Kassab – Desde que o orçamento permita, claro. O número de unidades que serão construídas depende do aumento de receita. De outro lado, tão importante quanto investir em obras é investir no professor. Ao longo dos últimos anos, os professores foram colocados em segundo plano. O que temos transmitido a eles é que não vamos resolver a situação por definitivo em um ou dois anos, mas iremos fazer o máximo possível para valorizar a profissão.

Veja São Paulo – Das 61 escolas de lata construídas na gestão Celso Pitta, ainda restam sete. Quando São Paulo estará livre delas?
Kassab – Ainda neste ano. Com certeza.

Veja São Paulo – O trânsito da cidade é um inferno para todos os moradores, tanto para quem circula nas regiões mais nobres como sobretudo para os mais pobres, que moram na periferia e perdem até cinco horas para ir ao trabalho e voltar. O que o senhor pretende fazer de efetivo para diminuir esse sofrimento paulistano?
Kassab – Muito já foi feito. Melhorar o trânsito é, antes de mais nada, investir no transporte público e na infra-estrutura das vias. Nenhum governo recapeou tanto quanto este. Em um ano e quatro meses, recapeamos mais do que nos últimos dezesseis anos. Retomamos o término da Avenida Jacu–Pêssego, que vai desafogar importantes ruas da Zona Leste. Nós iremos entregar o maior corredor da história de São Paulo, que é o corredor Parque Dom Pedro–Cidade Tiradentes. Estamos iniciando, agora em maio, a reforma da Avenida dos Bandeirantes. Também em maio, começaremos as obras de recapeamento das marginais. Vamos retomar o término da Avenida Roberto Marinho, para levá-la da Marginal Pinheiros até a Imigrantes. Estamos investindo nos semáforos inteligentes. É muita coisa sendo feita pelo trânsito.

Veja São Paulo – E por que o trânsito está cada vez pior?
Kassab – Há 5 milhões de veículos na cidade e o trânsito ganha 500 novos carros a cada dia. A prefeitura administra um bem cada vez mais escasso, o espaço público.

Veja São Paulo – Alguma nova obra viária será realizada?
Kassab – Está em estudo uma parceria do estado com a prefeitura para a criação de novas pistas nas marginais. Talvez quatro. Elas seriam pedagiadas, como se fossem estradas. Ainda estamos conferindo a viabilidade, mas eu gostaria de vê-las prontas até o fim da gestão.

Veja São Paulo – Por que o projeto de revitalização da Cracolândia ainda não engatou?
Kassab – Em um ano, muitos avanços foram conquistados. Primeiro, conseguimos aprovar uma lei de incentivos fiscais para investidores. Também diminuímos a criminalidade e a prostituição. Com o tempo, vamos modernizar a região da Luz e, num efeito dominó, mudar a cara do centro. No começo do ano que vem, acho que já teremos investimentos se concretizando e algumas obras sendo erguidas.

Veja São Paulo – E os estacionamentos subterrâneos no centro, serão construídos?
Kassab – É inevitável. O projeto não saiu do papel porque é uma obra cara, complexa, que precisa ser estudada. Isso demanda um tempo. Mas eu pessoalmente acredito nele.

Veja São Paulo – O que dá para fazer para conter os camelôs?
Kassab – As pessoas que pagam impostos em dia são prejudicadas por aquelas que trabalham com a pirataria. O poder público não pode ficar omisso. Compreendemos a dificuldade dos camelôs ilegais. Cabe à prefeitura coibir, mas também oferecer oportunidades para que essas pessoas saiam da ilegalidade.

     
   
 
 
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