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CRÔNICA
Calados
Ivan Angelo
Provocado por um amigo, volto
ao assunto dos homens que apanham da mulher e se calam. Quer dizer,
volto para generalizar, porque na última crônica falei
do caso particular de um vizinho. O amigo acha exatamente isso:
que fui particular onde cabia o geral. Fechei o que poderia ter
aberto. Então abro.
Ele acredita que há muito
mais homens levando tapas do que aparece nas delegacias, nas ONGs,
nos consultórios. É psiquiatra, deve saber do que
está falando.
Na guerra conjugal, o mais comum
é o revide, praticado de um lado e do outro. E aí
entra uma questão perigosa: o porquê. Bateu por quê?
Como se houvesse razão em quem bate. O homem leva tapas porque
traiu, porque agrediu verbalmente a mulher, porque desperdiçou
o dinheiro no bar e no jogo. E a mulher, igualmente, por traição,
por insultar a macheza do companheiro ("Você não é
homem"), por responder às reclamações com um:
"É o que você merece". As diferenças são
de intensidade. A mulher que agride se satisfaz com um tapa ou dois,
um chute na canela, arranhões, um objeto atirado. Já
o homem tem a mão pesada e não sabe parar enquanto
não machuca; a cada agressão aumenta a dose, como
um viciado.
Existe também o tapa para
lá e para cá, o bateu-levou. Há até
quem goste. Meu amigo fala de tapas para "esquentar a relação",
e eu digo que esses não contam, significam outra coisa, não
geram queixas nem rancores, apenas manchas roxas. Que são
medalhas, no fundo.
Para argumentar que há
segredos dentro dos armários, que existem realidades de que
não se fala abertamente, ele lembra dois símbolos
culturais, a vassoura e o rolo de pastel, armas domésticas
femininas presentes nas anedotas desde séculos passados até
recentes cartuns e tiras cômicas de quadrinhos. Todo símbolo
tem sua base na realidade, diz ele, e aqui sorri com malícia.
(Ao ouvi-lo falar de quadrinhos lembro-me de Nioka, Mulher Gato,
Mary Marvel, Mulher Bala, Mulher Maravilha, Xena e outras boas de
briga, mas me calo, pois suspeito que seriam tão doces com
os maridos, se tivessem um, quanto são violentas com os homens
do mal.)
Não sei qual de nós
citou Nelson Rodrigues, lembrando a frase "toda mulher gosta de
apanhar". Ah, foi ele, e falou para fazer um paralelo: homem não
gosta de apanhar e mulher não gosta de bater. Olha, não
sei, não. Há os que gostam. Não digo o meu
vizinho, que se calava porque tinha esperança de recuperar
a suave companheira de antes, mas esses que andam por aí
à cata de fetiches e chicotes, submissos a moças de
roupas de couro preto.
E há de haver as que gostam
de bater em homem. No meu tempo de rapazinho em Belo Horizonte encantavam-me
as histórias da Maria Tomba Homem, real figura da mesma zona
boêmia onde o escritor Roberto Drummond colocou sua fictícia
Hilda Furacão. Maria Tomba Homem era a contrapartida provinciana
da federal Madame Satã, carioca. Só que Maria era
mulher mesmo, e batia em soldado, rufião e boêmio.
Por ali era comum mulher de gilete entre os dedos botar homem para
correr. Elas não tinham nada a perder, e muitos deles, casados
ou noivos, tinham tudo.
Lembro-me de outra senhora, casada,
moradora da rua de trás da nossa, mulher do seu Alcides.
Ele rachava lenha de casa em casa, fortíssimo embora gordo,
e apanhava quase todo dia da mulher, corria dela rodeando uma moita
de bananeiras, ela com um pau na mão aos berros de "imprestável!",
"frouxo!". Eu gostava dele. Descansado o machado, gemia de prazer
enquanto comia um abacaxi inteiro.
Pesquisando, meu amigo e eu encontramos
uma reportagem em que uma delegada de polícia diz que o índice
de queixas de homens por agressão da mulher não chega
a 1% das queixas das mulheres agredidas por homens; um psicólogo
opina que eles não dão queixa por constrangimento,
três agredidos confirmam. O assunto, concluímos, só
cabe numa crônica.
e-mail: ivan@abril.com.br
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