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10 de maio de 2006
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CRÔNICA
  

CRÔNICA

Calados

Ivan Angelo

Provocado por um amigo, volto ao assunto dos homens que apanham da mulher e se calam. Quer dizer, volto para generalizar, porque na última crônica falei do caso particular de um vizinho. O amigo acha exatamente isso: que fui particular onde cabia o geral. Fechei o que poderia ter aberto. Então abro.

Ele acredita que há muito mais homens levando tapas do que aparece nas delegacias, nas ONGs, nos consultórios. É psiquiatra, deve saber do que está falando.

Na guerra conjugal, o mais comum é o revide, praticado de um lado e do outro. E aí entra uma questão perigosa: o porquê. Bateu por quê? Como se houvesse razão em quem bate. O homem leva tapas porque traiu, porque agrediu verbalmente a mulher, porque desperdiçou o dinheiro no bar e no jogo. E a mulher, igualmente, por traição, por insultar a macheza do companheiro ("Você não é homem"), por responder às reclamações com um: "É o que você merece". As diferenças são de intensidade. A mulher que agride se satisfaz com um tapa ou dois, um chute na canela, arranhões, um objeto atirado. Já o homem tem a mão pesada e não sabe parar enquanto não machuca; a cada agressão aumenta a dose, como um viciado.

Existe também o tapa para lá e para cá, o bateu-levou. Há até quem goste. Meu amigo fala de tapas para "esquentar a relação", e eu digo que esses não contam, significam outra coisa, não geram queixas nem rancores, apenas manchas roxas. Que são medalhas, no fundo.

Para argumentar que há segredos dentro dos armários, que existem realidades de que não se fala abertamente, ele lembra dois símbolos culturais, a vassoura e o rolo de pastel, armas domésticas femininas presentes nas anedotas desde séculos passados até recentes cartuns e tiras cômicas de quadrinhos. Todo símbolo tem sua base na realidade, diz ele, e aqui sorri com malícia. (Ao ouvi-lo falar de quadrinhos lembro-me de Nioka, Mulher Gato, Mary Marvel, Mulher Bala, Mulher Maravilha, Xena e outras boas de briga, mas me calo, pois suspeito que seriam tão doces com os maridos, se tivessem um, quanto são violentas com os homens do mal.)

Não sei qual de nós citou Nelson Rodrigues, lembrando a frase "toda mulher gosta de apanhar". Ah, foi ele, e falou para fazer um paralelo: homem não gosta de apanhar e mulher não gosta de bater. Olha, não sei, não. Há os que gostam. Não digo o meu vizinho, que se calava porque tinha esperança de recuperar a suave companheira de antes, mas esses que andam por aí à cata de fetiches e chicotes, submissos a moças de roupas de couro preto.

E há de haver as que gostam de bater em homem. No meu tempo de rapazinho em Belo Horizonte encantavam-me as histórias da Maria Tomba Homem, real figura da mesma zona boêmia onde o escritor Roberto Drummond colocou sua fictícia Hilda Furacão. Maria Tomba Homem era a contrapartida provinciana da federal Madame Satã, carioca. Só que Maria era mulher mesmo, e batia em soldado, rufião e boêmio. Por ali era comum mulher de gilete entre os dedos botar homem para correr. Elas não tinham nada a perder, e muitos deles, casados ou noivos, tinham tudo.

Lembro-me de outra senhora, casada, moradora da rua de trás da nossa, mulher do seu Alcides. Ele rachava lenha de casa em casa, fortíssimo embora gordo, e apanhava quase todo dia da mulher, corria dela rodeando uma moita de bananeiras, ela com um pau na mão aos berros de "imprestável!", "frouxo!". Eu gostava dele. Descansado o machado, gemia de prazer enquanto comia um abacaxi inteiro.

Pesquisando, meu amigo e eu encontramos uma reportagem em que uma delegada de polícia diz que o índice de queixas de homens por agressão da mulher não chega a 1% das queixas das mulheres agredidas por homens; um psicólogo opina que eles não dão queixa por constrangimento, três agredidos confirmam. O assunto, concluímos, só cabe numa crônica.

 

e-mail: ivan@abril.com.br

     
   
 
 
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