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LITORAL
A
ilha proibida
Fechada
para visitantes, Alcatrazes pode
ser
o primeiro parque marinho de São Paulo
Lúcia
Monteiro
Fausto Pires Campos

O
arquipélago, no litoral norte: pico de 360 metros |
Os
rochedos pontiagudos chamam a atenção dos paulistanos
que freqüentam as areias do litoral norte. Com 170 hectares
de área (o equivalente ao Parque do Ibirapuera) e um pico
com 360 metros de altura, a Ilha dos Alcatrazes é vista de
quase toda a orla entre São Sebastião e Guarujá.
A 38 quilômetros do Porto de São Sebastião,
ela se destaca pelas grandes dimensões, relevo incomum, aridez
não há praias nem água doce e
pela atmosfera misteriosa que a envolve. É praticamente inacessível.
Desembarcar, só com a companhia de fuzileiros da Marinha,
que desde 1980 utiliza a ilha para treinamento de tiro e abriu alvos
onde antes existia uma mata de palmeiras, deixando projéteis
no fundo do mar e em ninhos de aves. Por sua fauna rica, foi transformada
em estação ecológica em 1987. A área
é aberta apenas à pesquisa. O restante deve ser conservado.
Para conhecer o lugar é preciso ter autorização
do Ibama. Jararacas, aranhas-caranguejeiras e o acesso difícil
contribuem para afastar possíveis visitantes. Uma única
família viveu ali em meados do século XX para cuidar
do antigo farol mecânico. Foi dizimada por picadas de jararaca.
Hoje há um farol automático, que funciona sem operadores.
Lúcia Monteiro
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| Beto
Chagas, do Tamar, leva uma das 67 tartarugas para a lancha:
espécies coletadas na 35ª expedição incluem três jararacas e
cinco lacraias |
Fotos Otávio Marques
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O
ambiente terrestre hostil contrasta com o mar que o cerca, habitado
por tartarugas, enguias, arraias, golfinhos e dezenas de cardumes
de peixes coloridos. A visibilidade chega a 20 metros de profundidade.
"Alcatrazes tem vocação para parque nacional marinho",
afirma Carla Marcon, chefe da Estação Ecológica
Tupinambás, responsável pela área. A idéia
seria permitir o mergulho contemplativo, com snorkel e cilindro
de oxigênio, mas sem liberar a pesca, como acontece em Abrolhos,
no sul da Bahia. Quantas pessoas já estiveram na ilha proibida?
Acredita-se que menos de 200, na maioria pesquisadores, de acordo
com cálculos do biólogo Fausto Pires de Campos, coordenador
do Projeto Alcatrazes, que há treze anos luta pela preservação
do local. Ele e outros cientistas vão lá para estudar
genética, evolução das espécies e ecologia.
Guardadas as proporções, é um terreno parecido
com a Galápagos de Charles Darwin. Separada do continente
há milhões de anos, a ilha equatoriana que abrigou
os estudos do naturalista inglês em 1835 apresenta 2.000
espécies exclusivas. Em Alcatrazes, isolada há aproximadamente
10.000 anos, quando o nível do
mar subiu, foram registradas dezenove espécies endêmicas,
ou seja, que não existem em nenhum outro lugar.
"As
condições deste ambiente podem ser responsáveis
por diferenças ainda não detectadas, o que reforça
a necessidade de mantê-lo intacto e livre da ação
predatória do homem", acredita o biólogo Otávio
Marques, do Instituto Butantan. Estudioso da jararaca-de-alcatrazes,
Marques participou da 35ª expedição ao arquipélago,
que durou três dias, no mês passado. Veja São
Paulo acompanhou o grupo de 23 pessoas que tinham o objetivo
de contar, catalogar, medir, pesar e posteriormente analisar o DNA
de bichos como pererecas, sapos, lagartos, cobras, tartarugas e
aves. A equipe do Butantan encontrou três exemplares da tal
jararaca-de-alcatrazes, menor que a comum e ainda desconhecida pela
comunidade científica. Os dados da cobra foram enviados para
a revista científica Herpetologica, especializada
em répteis e anfíbios, e devem ser publicados em junho.
Seu veneno possui três proteínas exclusivas, diferentes
das da jararaca comum. É possível que estudos futuros
permitam o uso desse veneno para produção de remédios.
Lúcia Monteiro

Patrícia:
estudos no ninhal de 6 000 fragatas |
A principal descoberta aconteceu à noite. De botas, facões,
chapéu e lanterna na cabeça, nove biólogos
da turma de Marques saíram à caça de cobras
e lagartos. De repente, ouviram-se os brados de Lígia Pizzatto
do Prado, mestranda em biologia pela Unicamp. Ela acabara de pegar
uma espécie de perereca ainda não catalogada. Também
foram capturados dois sapos, seis lagartixas e cinco lacraias. Mergulhadores
do Projeto Tamar localizaram 67 tartarugas marinhas, ameaçadas
de extinção. Além de anotar suas características,
a equipe do Tamar coloca anéis numerados nas nadadeiras das
tartarugas para observar seu caminho pelo litoral e depois as devolve
ao mar. Três ornitólogos (estudiosos de pássaros)
ficaram no ninhal de fragatas ou alcatrazes, aves marinhas que deram
nome à ilha. "Aqui é o melhor lugar para monitorar
a população dessas aves", explica Patrícia
Faria, doutoranda em biologia pela USP. Pelo menos por enquanto,
pássaros, peixes, répteis e anfíbios de Alcatrazes
continuam longe dos olhos dos turistas.
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