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10 de abril de 2002
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A ilha proibida

Fechada para visitantes, Alcatrazes pode
ser o primeiro parque marinho de São Paulo

Lúcia Monteiro

 
Fausto Pires Campos

O arquipélago, no litoral norte: pico de 360 metros


Os rochedos pontiagudos chamam a atenção dos paulistanos que freqüentam as areias do litoral norte. Com 170 hectares de área (o equivalente ao Parque do Ibirapuera) e um pico com 360 metros de altura, a Ilha dos Alcatrazes é vista de quase toda a orla entre São Sebastião e Guarujá. A 38 quilômetros do Porto de São Sebastião, ela se destaca pelas grandes dimensões, relevo incomum, aridez – não há praias nem água doce – e pela atmosfera misteriosa que a envolve. É praticamente inacessível. Desembarcar, só com a companhia de fuzileiros da Marinha, que desde 1980 utiliza a ilha para treinamento de tiro e abriu alvos onde antes existia uma mata de palmeiras, deixando projéteis no fundo do mar e em ninhos de aves. Por sua fauna rica, foi transformada em estação ecológica em 1987. A área é aberta apenas à pesquisa. O restante deve ser conservado. Para conhecer o lugar é preciso ter autorização do Ibama. Jararacas, aranhas-caranguejeiras e o acesso difícil contribuem para afastar possíveis visitantes. Uma única família viveu ali em meados do século XX para cuidar do antigo farol mecânico. Foi dizimada por picadas de jararaca. Hoje há um farol automático, que funciona sem operadores.

 
Lúcia Monteiro
Beto Chagas, do Tamar, leva uma das 67 tartarugas para a lancha: espécies coletadas na 35ª expedição incluem três jararacas e cinco lacraias
Fotos Otávio Marques

O ambiente terrestre hostil contrasta com o mar que o cerca, habitado por tartarugas, enguias, arraias, golfinhos e dezenas de cardumes de peixes coloridos. A visibilidade chega a 20 metros de profundidade. "Alcatrazes tem vocação para parque nacional marinho", afirma Carla Marcon, chefe da Estação Ecológica Tupinambás, responsável pela área. A idéia seria permitir o mergulho contemplativo, com snorkel e cilindro de oxigênio, mas sem liberar a pesca, como acontece em Abrolhos, no sul da Bahia. Quantas pessoas já estiveram na ilha proibida? Acredita-se que menos de 200, na maioria pesquisadores, de acordo com cálculos do biólogo Fausto Pires de Campos, coordenador do Projeto Alcatrazes, que há treze anos luta pela preservação do local. Ele e outros cientistas vão lá para estudar genética, evolução das espécies e ecologia. Guardadas as proporções, é um terreno parecido com a Galápagos de Charles Darwin. Separada do continente há milhões de anos, a ilha equatoriana que abrigou os estudos do naturalista inglês em 1835 apresenta 2.000 espécies exclusivas. Em Alcatrazes, isolada há aproximadamente 10.000 anos, quando o nível do mar subiu, foram registradas dezenove espécies endêmicas, ou seja, que não existem em nenhum outro lugar.

"As condições deste ambiente podem ser responsáveis por diferenças ainda não detectadas, o que reforça a necessidade de mantê-lo intacto e livre da ação predatória do homem", acredita o biólogo Otávio Marques, do Instituto Butantan. Estudioso da jararaca-de-alcatrazes, Marques participou da 35ª expedição ao arquipélago, que durou três dias, no mês passado. Veja São Paulo acompanhou o grupo de 23 pessoas que tinham o objetivo de contar, catalogar, medir, pesar e posteriormente analisar o DNA de bichos como pererecas, sapos, lagartos, cobras, tartarugas e aves. A equipe do Butantan encontrou três exemplares da tal jararaca-de-alcatrazes, menor que a comum e ainda desconhecida pela comunidade científica. Os dados da cobra foram enviados para a revista científica Herpetologica, especializada em répteis e anfíbios, e devem ser publicados em junho. Seu veneno possui três proteínas exclusivas, diferentes das da jararaca comum. É possível que estudos futuros permitam o uso desse veneno para produção de remédios.


Lúcia Monteiro

Patrícia: estudos no ninhal de 6 000 fragatas


A principal descoberta aconteceu à noite. De botas, facões, chapéu e lanterna na cabeça, nove biólogos da turma de Marques saíram à caça de cobras e lagartos. De repente, ouviram-se os brados de Lígia Pizzatto do Prado, mestranda em biologia pela Unicamp. Ela acabara de pegar uma espécie de perereca ainda não catalogada. Também foram capturados dois sapos, seis lagartixas e cinco lacraias. Mergulhadores do Projeto Tamar localizaram 67 tartarugas marinhas, ameaçadas de extinção. Além de anotar suas características, a equipe do Tamar coloca anéis numerados nas nadadeiras das tartarugas para observar seu caminho pelo litoral e depois as devolve ao mar. Três ornitólogos (estudiosos de pássaros) ficaram no ninhal de fragatas ou alcatrazes, aves marinhas que deram nome à ilha. "Aqui é o melhor lugar para monitorar a população dessas aves", explica Patrícia Faria, doutoranda em biologia pela USP. Pelo menos por enquanto, pássaros, peixes, répteis e anfíbios de Alcatrazes continuam longe dos olhos dos turistas.

         
     
 
 
 
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