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CRÔNICA História
de uma dieta Walcyr Carrasco Encontrei
uma amiga. Elogiei: Emagreceu!?
Contratei uma nutricionista explicou.
Peguei o telefone. Marquei hora, decidido a avaliar a profissional.
Se for gorda, desisto!
Que nada! Valéria era um belo cartão de apresentação
de seus méritos. Magra, alta. Sem um grama de gordura a mais. Durante duas
horas discutimos meus hábitos alimentares. Foi gentil.
Você não terá problema em seguir o regime trinou, otimista.
Fingi acreditar. Não há dieta à
base de torresmos e pudim de leite, itens que sempre considerei indispensáveis
no meu cardápio! Assessorou minha fiel ajudante,
Denise, para a execução das receitas. Passou a enviar um cardápio
semanal. Já na primeira semana, espantei-me ao defrontar com uma substância
desconhecida, levemente parecida com flocos de isopor.
Que é isso aqui no prato? Quinoa!
Segundo o texto da caixa, é uma espécie
de grão produzido no altiplano boliviano, de alto teor nutritivo. Ao mastigar,
eu me senti uma lhama! Tem um agradável sabor de coisa nenhuma. Muito melhor,
em todo caso, que o arroz integral ou as sementes de girassol, também constantes
no menu. Corri para ler todas as receitas. Bem, algumas eram de fato bem transadas.
Lasanhas light, saladas com frutas. Naquele dia, desfrutei também um delicioso
frango ao molho de vinho. Estendi o prato.
Mais um pedaço. A gentil Denise demonstrou
uma inesperada vocação para carcereira.
Não, senhor. Ela diz aqui: só um pedaço. Duas colheres de
arroz e duas de quinoa. Tive vontade de ameaçar
demissão. Ela sorriu feliz da vida por mandar em mim.
O senhor não quer emagrecer? Mais uma batalha
da eterna luta de classes fora travada! O vencido era eu! Estava nas mãos
dela! Minha vida passou a ser controlada por horários. Lanchinho no fim
da tarde. Suco. Chás. Valéria telefonou.
É importante adquirir o hábito de tomar chá à noite,
por causa do metabolismo. Tenho tomado!
menti. Um silêncio do outro lado.
Óbvio, a carcereira havia ajudado na avaliação da dieta!
O que dava certo, o que não dava e do que eu fugia!
Fui para o Rio de Janeiro. Um amigo me chamou.
Há um hambúrguer novo, com sabor de churrasco. Vamos?
Pulei como um cabrito. Na segunda mordida, um ataque de consciência. "Para
que pagar nutricionista e me sacrificar se na primeira oportunidade jogo tudo
para cima?" Mais outro pedaço, desisti! Quando voltei a São Paulo,
Denise me esperava com um suco. Chegou justinho
na hora de tomar! No almoço, uma salada.
Sempre comi bem! E nem uma bomba de chocolate!? Denise tentou me consolar.
No fim da semana que vem, tem omelete!
Dois dias depois, quando me serviu uma mísera colherinha de feijão
ao lado de uma coxinha de frango, tive vontade de chorar. Mastiguei lentamente
para durar mais. Surpresa! No meio do prato, já não tinha mais fome!
De repente, percebi: com tantos lanchinhos, sucos, cereais... estou comendo menos!
Corri para a cozinha. Abri a geladeira em busca de queijo para comemorar. Só
branco. Nem um doce, nem um queijo?
Não estava no cardápio, não comprei!
Eu me rebelei.
Escuta aqui, não contratei uma madrasta!
Reagiu, magoada: Tudo isso é para
seu bem! Mas nem tudo é desespero. Semanas
depois, fui me pesar. Quatro quilos a menos! Ah, que vontade de festejar! Humm...
festejar não é bem a palavra. Banquete com arroz integral? Que vida!
Ah, que saudade de uma feijoada!
e-mail: walcyr@abril.com.br
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