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ESPECIAL
Os
$upersalário$
Alessandro
Duarte, Lúcia Monteiro e Otávio Canecchio
Mário Rodrigues
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| O
prédio da Câmara Municipal, no centro: holerites
nas alturas |
De
norte a sul do país, as queixas dos funcionários públicos
sejam eles da administração federal, estadual
ou municipal são quase sempre as mesmas: salários
defasados, falta de uma política de aperfeiçoamento
profissional e ausência de plano de carreira. Em meio a esse
mar de lamentações, a Câmara Municipal de São
Paulo é, pelo menos para alguns, uma espécie de ilha
paradisíaca. Em maio, entre os 2 100 funcionários
da casa, dois ganharam mais de 45 000 reais, três entre 30
000 e 45 000 e quarenta entre 10 000 e 30 000. Os quinze aposentados
que mais faturaram tiveram no holerite valores acima de 30 000.
Do orçamento anual da Câmara (213 milhões de
reais), 70% são destinados à folha de pagamento.
Mario Rodrigues
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Edu Garcia/AE
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46 383,24
O funcionário Luiz Carvalho Diniz teve o segundo maior
salário de maio: ex-diretor-geral
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36 594,79
Aposentado, Renato Tuma diz que só recebe 9 000 reais
líquidos por mês: "Eles não gostam de
quem ganha bem"
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Sob
o cargo de assistente técnico legislativo ou de assessor
técnico, a maioria desses privilegiados tem em comum a aprovação
em concursos concorridos, o diploma de bacharel em direito, passagens
por cargos de chefia e até dez tipos de gratificação.
Há adicionais por tempo de serviço, por diploma universitário,
por conclusão do ensino médio, por serem casados...
Além de verbas honorárias, de representação
e de assessoramento. O salário-base deles raramente ultrapassa
os 5 000 reais. É o acúmulo de penduricalhos que eleva
os rendimentos às alturas. Por isso, alguém com salário-base
de 3 700 reais pode chegar a um rendimento bruto de 48 500 no fim
do mês (veja
exemplo). Outro fator multiplicador são os processos
judiciais movidos com o objetivo de conquistar mais vantagens
estima-se que existam hoje mais de 1 000 funcionários com
ações.
Ainda
que não tenham atribuições bem definidas, alguns
ex-diretores-gerais conservam benesses do antigo cargo. Funciona
mais ou menos assim: a pessoa que fica cinco anos em função
de chefia incorpora as vantagens ao salário. Se, nesse período,
passa dois anos como diretor, por exemplo, leva as do posto mais
alto. Em nenhuma hipótese perde a remuneração,
mesmo que volte a ter as responsabilidades do posto anterior. Isso
faz com que vigore uma espécie de rodízio no comando
para que todos desfrutem esse privilégio. "Aqui há
um chefe para cada dois funcionários", afirma o vereador
Claudio Fonseca, responsável pelo projeto de reforma administrativa
em curso. Não à toa, alguns funcionários são
impiedosos ao intitular o 12º andar do Palácio Anchieta
como "depósito de encostados". Isso não significa,
é claro, que não haja quem ganhe bons salários
e cumpra à risca o expediente, trabalhando até tarde
da noite e sem faltar. As sessões plenárias, por exemplo,
não acontecem sem a presença de assessores técnicos,
que têm a obrigação de verificar a legalidade
de cada projeto apresentado. É comum também ajudarem
os vereadores a não cometer nenhuma gafe jurídica.
O Ministério Público Estadual vem cobrando da atual
mesa diretora da Câmara medidas para diminuir as distorções
e acabar com benefícios que consideram esdrúxulos.
Segundo o promotor de Justiça da Cidadania Saad Mazloum,
o Palácio Anchieta encobre os seguintes problemas:
Advogados da casa ganham honorários iguais aos dos
procuradores municipais sem atuar em causas judiciais.
Diversas gratificações são recebidas
em cascata. Deveriam incidir apenas sobre o salário-base.
Além disso, graças a uma manobra engenhosa, dezenove
pessoas ganham duas vezes a gratificação de gabinete
(verba destinada a quem ocupa cargos de chefia ou atua em gabinetes
de vereadores).
57 aposentados continuam trabalhando com salário de
até 6.000 reais. Alguns deles têm quase 80 anos.
Barbeiros e engraxate ganham salários inflacionados
em relação à média do mercado para servir
aos vereadores.
Recebem adicional de insalubridade funcionários que
atuam em áreas sem nenhum risco à saúde.
Fotos Mario Rodrigues
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R$ 29 703,56
O
advogado Breno Gandelman, que presta assessoria nas sessões
do plenário: "Em uma empresa, receberia mais benefícios"
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1 431,00
O barbeiro Silvio Felix com o vereador Jorge Taba: salão
recebe em média seis chefes e parlamentares em dias de
"grande movimento" |
Teoricamente, o máximo que um servidor municipal poderia
ganhar seria 9.540 reais mensais, como a prefeita Marta Suplicy.
Na prática, conseguem até cinco vezes isso. Tudo dentro
da lei, mas longe do que pode ser considerado moralmente aceitável.
Uma brecha da Constituição é usada por quem
quer elevar seu faturamento. Até 1998 valia a regra de que
os funcionários municipais não podiam ganhar mais
que a prefeita, os estaduais mais que os secretários e os
federais mais que os ministros. Neste ano, no entanto, foi aprovada
uma emenda ao artigo 37, que regulamenta o teto de todo o serviço
público. Ela previa que o teto seria o de um ministro do
Supremo Tribunal Federal para todos os servidores. Um acordo entre
os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário fixaria o
valor. O problema é que esse acordo nunca ocorreu. "Enquanto
não houver uma decisão oficial, continuaremos questionando
o teto na Justiça", diz o advogado Marcelo Reis Lobo, que
representa 150 funcionários da Câmara Municipal. Ele
ganhou, em outubro do ano passado, uma ação para vinte
deles, que deixaram de ver seus proventos limitados pelo salário
da prefeita. Foi graças a essa vitória que a aposentada
Zequia Mincherian Chacon obteve em abril a bolada de 96.570,51 reais
brutos. "Ela ficou tão constrangida quando seu holerite apareceu
numa reportagem de TV que deixou de freqüentar os cursos que
fazia na PUC", conta Lobo.
Assim como Zequia, donos de supersalários se esforçam
para passar despercebidos. Poucos dão alguma informação
sobre o que fazem ou em que sala ficam. O campeão da folha
de pagamento de maio, Carlos Borromeu Tini, ocupa uma mesa no departamento
de informática. Diretor-geral por duas ocasiões entre
1993 e 1998, ele era responsável pelas decisões administrativas
da casa. Um de seus feitos foi conseguir um aumento de 25% para
todos os seus subordinados. Pretende aposentar-se no fim de 2003.
O vice-campeão da lista, Luiz Carvalho Diniz, é diretor
do departamento de serviços gerais, mas está na 1ª
secretaria, no 9º andar. Também foi diretor-geral. Veste-se
sempre com calça jeans e camisa social. Dono de um Renault
Scénic, costuma andar num Puma dourado 1979. Tanto Tini quanto
Diniz estão na Câmara há mais de vinte anos.
Por terem sido chefes e diretores, acumulam um sem-número
de gratificações.
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R$
2 652,57
O
vereador Wadih Mutran com o engraxate Cesar Amaral: "Vou muito
à periferia e não posso aparecer no plenário
com os pés sujos de barro" |
Desde
maio, a mesa diretora vem podando uma série de gratificações,
o que gerou revolta na casa. "O custo político de mexer nesse
vespeiro é alto, mas não tínhamos escolha",
afirma o presidente Arselino Tatto. Enfrentou uma espécie
de greve branca quando os principais assessores legislativos colocaram
o cargo à disposição depois de perder somas
de cerca de 10 000 reais em seus faturamentos. Um deles é
Breno Gandelman, chefe da assessoria técnica de mesa. Ele
acompanha todas as sessões e cuida para que nenhum projeto
aprovado contrarie a Lei Orgânica do Município ou o
regimento interno. "Um diretor jurídico na iniciativa privada
ganha tanto quanto eu e ainda tem carro da empresa, plano de saúde
do Einstein e participação nos lucros", afirma Gandelman.
"Passei nos concursos para procurador do município e do Estado,
mas escolhi a Câmara. Queria estar em contato com o processo
legislativo."
Esta não é a primeira vez que a Câmara tenta
acabar com os supersalários. Outros presidentes fizeram esforços
nessa direção, como Eduardo Suplicy, no início
da década de 90, e, mais recentemente, José Eduardo
Martins Cardozo, que precedeu Arselino Tatto. "Enfrentei uma resistência
brutal dos burocratas", diz Cardozo. "Sofri ameaça de greve,
boicote e até vandalismo." A empreitada atual pode acabar
como mais uma tentativa frustrada, embora tenha uma vantagem: o
envolvimento do Ministério Público. O inquérito
do promotor Mazloum começou em 2000. De lá para cá,
além de verificar salários inflacionados, ele determinou
a redução do número de funcionários
e da verba de cada gabinete. "A Câmara é uma festa.
Mais generosa que mãe", afirma Mazloum.
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R$
3 084,00
O lavador de carros Francisco Mesquita dá um trato em Opala
oficial: frota sucateada, mas limpa |
Sua
última tacada foi exigir o corte de algumas gratificações.
Começou pela suspensão da verba honorária recebida
pelos advogados da casa desde 1995, o que acarretou uma economia
de 400.000 reais ao mês. Até junho, esse bônus
era igual ao dos procuradores do município, que recebem honorários
por ações que ganham para a prefeitura. O valor vai
para o Tesouro e é dividido igualmente entre eles. Os advogados
da Câmara simplesmente repetem esse ganho no holerite. De
acordo com o Ministério, isso não deveria acontecer.
"A verba honorária do Legislativo é uma ficção.
Procuradores arrecadam para a prefeitura e assessores jurídicos,
não", afirma Mazloum. Os prejudicados pelo corte entregaram
à presidência, no fim de junho, uma carta rebatendo
essa argumentação. "Nós contribuímos
para a arrecadação, sim. Além da consultoria,
vamos a audiências e fazemos defesas", diz a assessora Adela
Duarte Alvarez. "Antes dessa verba, nosso salário era tão
defasado que, dos quinze advogados que entraram no mesmo concurso
que eu, em 1991, apenas sete continuam na casa."
A tal verba é repetida novamente para assessores sem formação
em direito, sob o nome de Gratificação Especial por
Assessoramento (GEA) outra que deve estar com os dias contados.
As reformas baseiam-se em um estudo realizado pela Fundação
Getúlio Vargas, encomendado em 2001. O levantamento serviu
para trazer à tona essas anomalias, de cuja existência
muitos desconfiavam, mesmo sem conhecê-las. É importante
lembrar que os benefícios agora atacados foram consentidos
pelos próprios vereadores. "Todo ano eles aprovam leis favorecendo
os funcionários", diz o promotor Saad Mazloum. Alguns são,
inclusive, acusados de cobrar propina para aprovar novas regalias
e até para determinar quem irá ocupar cargos de destaque.
"Em 1980, eu era o primeiro da lista para ser diretor-geral, mas
o secretário de um vereador pediu 5.000 dólares para
me promover. Como não concordei, demorei mais oito anos para
chegar lá", diz o assessor legislativo aposentado Dimas Pimentel,
afetado pelo fim da verba honorária. Seu salário encolheu
16.000 reais de abril para maio o salário bruto, no
entanto, continua na casa dos 30.000 reais. "Tenho dois genros desempregados
e precisei recorrer a um empréstimo no banco para poder continuar
sustentando minha família."
Fotos Mario Rodrigues
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O promotor Saad Mazloum: "A Câmara
é
uma festa. Mais generosa que mãe"
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Arselino
Tatto, na presidência desde janeiro: "Mexer nesse vespeiro
tem custo político alto" |
Organizados,
os servidores prometem brigar por cada centavo retirado. "É
preciso encontrar um meio-termo: nem salários indignos nem
incompatíveis com a realidade do país", opina Antônio
Rodrigues de Freitas Junior, chefe da assessoria jurídica.
A mais nova batalha é para que Tatto passe a considerar o
reajuste de janeiro no rendimento da prefeita, de 6 210 reais para
9.540 reais. Isso diminuiria o total descontado na folha de pagamento.
"Todos vão cobrar essa diferença na Justiça",
diz Vera Nice Ribeiro, presidente da Associação dos
Servidores da Câmara Municipal. "A reforma precisa acontecer,
mas queremos participar do processo." Na última terça-feira,
quinze funcionários, entre ativos e inativos, reuniram-se
no escritório do advogado Marcelo Lobo para definir uma estratégia
de ação conjunta contra os cortes. "É um absurdo
jurídico o que está ocorrendo. Pode-se extinguir esse
benefício daqui para a frente, mas sem afetar quem tem direito
adquirido", afirma Veriano Midena, assistente legislativo aposentado,
que entrou na Câmara como taquígrafo, em 1958. "Estão
infringindo a norma constitucional da irredutibilidade de salário."
O ex-secretário-geral Renato Tuma, irmão do senador
Romeu Tuma, também se sente injustiçado. "Eles não
gostam de quem ganha bem", diz. "E nem acho que ganho tão
bem assim. Apenas 9.000 reais entram por mês na minha conta."
Documentos da Câmara indicam, no entanto, que em maio o faturamento
bruto do aposentado foi de 36.594,79 reais e o líquido, de
21.983,35 reais. "Todos os presidentes cortam os salários
dos funcionários para ganhar espaço na mídia.
Agora, o vereador Claudio Fonseca está querendo aparecer
a nossa custa", opina o assistente aposentado Luiz Eduardo Grandjean
Pinto, que entrou na Câmara como office-boy, aos 17 anos.
"Já naquela época meu ordenado fazia inveja." Para
tornar-se chefe da assessoria legislativa e contar com um salário
bruto de 33.500 reais em maio, fez faculdade de direito, prestou
dois concursos e teve diversas promoções.
Ernesto Rodrigues/AE
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Sessão no plenário: são os próprios vereadores
que aprovam os benefícios
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Acabar com alguns mimos aos vereadores será importante para
a reforma administrativa funcionar de verdade. Um dos mais surpreendentes
se localiza ao lado do plenário: a barbearia. De segunda
a sexta, dois barbeiros (salário médio de 2.200 reais)
ficam à disposição de vereadores, ex-vereadores,
diretores e chefes de gabinete. Entre terça e quinta-feira,
dias em que há sessões, atendem até seis clientes.
Às segundas e sextas, não raro passam o dia inteiro
sem pegar na tesoura. É ali também que trabalha o
engraxate Cesar Marcos Amaral de Souza (2.652 reais). "Se fosse
hoje, eu não aprovaria esses serviços, mas são
úteis", afirma o vereador Wadih Mutran. "Vou muito à
periferia e não posso aparecer no plenário com os
pés sujos de barro." Quem arruma uma boquinha na Câmara
dificilmente se arrepende. O tapeceiro Romeu Massaro foi indicado
por um vereador dezenove anos atrás. Ganha por mês
5.305 reais brutos. "Recebi várias ofertas de emprego, mas
nenhum pagava tão bem quanto aqui", confessa. Como barbeiros,
lavadores de automóveis, tapeceiro e engraxate trabalham
diretamente para os edis, levam por tabela uma gratificação
acreditem por "assessoramento legislativo". Em alguns
casos, isso significa 3.000 reais a mais no fim do mês, ou
um ano de salário mínimo.
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