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9 de julho de 2003
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CRÔNICA

Em busca da paz

Walcyr Carrasco

Férias! Quem vai viajar costuma ser acometido pela síndrome de mudança de vida. Basta sentir um cheirinho de mato ou uma brisa marinha para querer jogar o emprego, os compromissos e a rotina cheia de horários para o alto. É o sonho de morar fora da cidade. Quer-se largar tudo e viver no campo ou na praia, mergulhado em silêncio e tranqüilidade. Um casal de amigos tinha um sítio em Ibiúna, onde esperava passar a velhice. Casa simples e três cachorros, que a dona chamava carinhosamente de "meus filhos peludos". Acabaram seqüestrados juntamente com os caseiros. Os "filhos peludos" mantiveram-se a distância, abanando o rabo para os meliantes. Os reféns ficaram presos em uma casa, no meio da mata. Apavorados. A família não poderia pagar um resgate, nem que fosse dividido em suaves prestações. A certa altura, os bandidos saíram. Conseguiram abrir uma janela. Saltaram. Ela destroncou o tornozelo. Fugiram pelo mato, morrendo de medo das cobras e de outros bichos, ou de ficarem perdidos para sempre. Gente urbana imagina que toda mata é semelhante à selva amazônica. Desaguaram em uma chácara a quilômetros de distância. Ainda tiveram de fugir dos cães de guarda. Esses, sim, furiosos!

E montar restaurante à beira-mar? Conheço uma penca de gente que lá pelos 40 anos almeja ser dono de bar ou restaurante. Imaginam que basta ficar bebendo e comendo com os fregueses, e passar a vida dando risada. Acompanhei um casal durante todo o processo. Ela murmurava:

– Vou servir umas comidinhas caseiras, tipo feijão gordo, arroz bem soltinho, mandioca frita. Quem não vai gostar?

Eu fazia a pergunta desagradável:

– Quem vai fritar a mandioca?

Mal arrumaram o ponto, em uma praia distante, ela descobriu a resposta. Acorda todos os dias às 4 da manhã para botar o feijão no tacho. Os cabelos, antes lavados com xampu, transformaram-se em uma massa envolta em óleo de cozinha. Lá está ela, a postos, quebrando ovos, fritando, cortando, temperando e brigando com garçons. Ele se esfalfa no caixa e reclama das costas! Ao se deitarem, moídos de cansaço, suspiram pelos tempos no asfalto. Iam ao cinema. Liam. Podiam sentir preguiça! De suspiro em suspiro, a esperança reviveu. Puseram o restaurante à venda!

Eu também já tive o sonho. Fui para o sítio de um amigo, com o objetivo de comprar algum em torno. Passamos o dia com o corretor. No primeiro, para chegar à casa era preciso atravessar o estábulo no meio das vacas, com o risco de levar uma chifrada. Outro, lindo, repleto de buganvílias, era na beira da estrada. Mais barulhento que o Minhocão! Dormi no sítio onde fora convidado. Os cachorros latiram embaixo da minha janela até o amanhecer. Passei a noite desejando estar no meio de um belo congestionamento!

Nem tudo está perdido. Finalmente, descobri uma pessoa que conseguiu realizar o sonho de ser feliz. Uma antiga colega de escola, Eugênia. Mudou-se para Peruíbe. Trabalha como tradutora. Escreveu alguns livros. O último narra sua vida na praia, divertida e... bem, não tão pacífica assim! Morar na praia ou no campo é mel para hóspedes! Durante as férias sua casa fica invadida por parentes, amigos, amigos dos amigos. Passa o verão preparando cafés-da-manhã, almoços, secando toalhas e lavando o chão. Vive na praia, mas fica aterrorizada diante da chegada do sol. Realizou o sonho, mas está sempre torcendo pela vinda da chuva e do mau tempo. Que vida! Já não se fazem sonhos como antigamente! Férias são boas quando são justamente o que o nome diz: simplesmente férias!

         
     
 
 
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