| |
|
|
 |
|
TEATRO
Chanel
de corpo e alma
Depois
das memoráveis atuações
como
Maria Callas, Carmen Miranda e
Dalva de
Oliveira, Marília Pêra faz
a genial estilista
francesa renascer
no palco da Faap
Marcella
Centofanti,
Marcos Buarque de Gusmão
e Mônica Santos
João Caldas
 |
| Marília
em cena: postura idêntica à de Coco Chanel, depois de dois meses
assistindo a vídeos sobre ela |
São
nada menos que oitenta peças exibidas por mês nas cerca
de 100 salas espalhadas pela cidade. No mesmo fim de semana, é
possível escolher entre a comédia Veneza, com
Laura Cardoso e Arlete Salles, e o supermusical Chicago. Por
sua variedade e qualidade, o teatro é sempre motivo de orgulho
para o paulistano. Mas dificilmente uma montagem causa tanto burburinho
antes mesmo de abrir sua temporada oficial. Duas semanas antes,
3 200 pessoas tiveram o privilégio de ver as pré-estréias
de Mademoiselle Chanel no Teatro Faap. Quase todas saíram
encantadas. Em cartaz desde o último dia 29, o espetáculo
que custou 1 milhão de reais tem tudo para ser a sensação
do ano nos palcos graças a uma rara combinação:
A peça conta a trajetória da genial estilista Gabrielle
Chanel (1883-1971), a menina pobre e órfã que coleciona
amantes poderosos ao longo da vida e se transforma na maior revolucionária
da moda do século XX.
João Caldas
 |
| "Envelheci!"
A primeira fala da peça desanimou Tônia Carrero.
Cleyde Yáconis julgou o tema fútil. Irene Ravache
toparia se tivesse quinze anos a mais e Fernanda Montenegro,
se a agenda permitisse. Tereza Rachel também leu, mas
só Marília aceitou o papel sem vacilar
|
O texto, escrito há treze anos pela dramaturga Maria Adelaide
Amaral, é impecável. Conhecida pela profundidade de
suas pesquisas e pela habilidade para contar uma boa história,
ela sabe envolver e emocionar o público.
João Caldas
 |
| A
produção do espetáculo contou com o apoio
da maison Chanel, de Paris, que confeccionou os dezesseis figurinos
usados pelas atrizes Elen Londero e Laura Wie. As duas quase
não abrem a boca em cena. Nem é preciso. A presença
delas no palco é estonteante |
A produção é caprichadíssima. A maison
Chanel confeccionou, em alta-costura, dezessete modelos, bolsas,
chapéus, bijuterias e sapatos especialmente para o espetáculo.
Em uma hora e quinze minutos, a platéia assiste a um legítimo,
exclusivo e deslumbrante desfile da famosa grife francesa.
João Caldas
 |
| Durante
uma hora e quinze, a atriz acende onze cigarros. Ex-fumante,
ela exigiu uma marca livre de alcatrão e nicotina. Cada
cigarro, importado dos Estados Unidos, custa 2 dólares.
Ou seja, 5 000 reais em quatro meses de temporada |
Por fim, tem Marília Pêra, que incorpora com perfeição
cada gesto da estilista. A entrega à personagem é
tão intensa que seus amigos andam dizendo que ela não
atua, mas, sim, tem uma experiência mediúnica no palco.
Dá
para sentir os cuidados de produção em cada detalhe.
O cenário branco e cheio de espelhos é uma reprodução
fiel do lendário ateliê de Chanel, na Rue Cambon, em
Paris. Responsável pela grife desde 1983, o estilista alemão
Karl Lagerfeld desenhou o croqui que ilustra o cartaz oficial e
acompanhou passo a passo a preparação do figurino.
Durante a apresentação, as atrizes e ex-modelos Laura
Wie e Elen Londero desfilam (ou, melhor, flutuam) diante dos espectadores
com criações exclusivas. São jóias de
fazer cair o queixo. "O contrato nos impede de falar em valores",
afirma o diretor Jorge Takla. "Além disso, esses vestidos
não estão à venda." É sabido, porém,
que um modelo produzido em alta-costura pela marca não custa
menos de 25.000 dólares. Os mais
sofisticados, elaborados com fios de ouro e peles raras, atingem
até 200.000 dólares. Mundo
afora, não passa de 500 o número de potenciais clientes
para tais relíquias. As peças trazidas para São
Paulo somam um valor estimado em 700.000
reais. Por aqui, só é possível comprar Chanel
na loja Daslu. E de coleções de prêt-à-porter,
evidentemente. A tradicional bolsa a tiracolo com corrente dourada
sai por 4.000 reais. Um casaquinho de
tweed custa entre 7.000 e 9.000
reais. Um mantô, 12.000 reais.
Um clássico par de sapatos bicolores, com bico preto e aberto
atrás, 1.500 reais. E uma camélia,
mais atual do que nunca, 980 reais.
Fotos Alexandre Schneider
 |
eider
 |
eider
 |
| O
estilista da Chanel, Karl Lagerfeld, baseou-se em dois modelos
dos anos 50 e 60 ao criar este look exclusivo para o espetáculo.
Um vestido colegial semelhante,
de crepe de lã, não custa menos de 25 000 dólares
|
A
própria Coco Chanel usou um modelo
dourado como este, criado em 1937, que traduz o romantismo
dos anos 20. Feito de renda, foi bordado com lantejoulas, miçangas
e tule. Arranca suspiros da platéia |
Chanel
era fã do tailleur e conseguiu
popularizá-lo. Prático, confortável e quase
minimalista, o conjunto de jaqueta e saia era considerado por
ela a combinação perfeita. O da foto acima, de
veludo de seda, foi criado em 1955 |
Marília
Pêra, que antes de interpretar a personagem tinha apenas um
cintinho Chanel no guarda-roupa, se deu bem já nos ensaios
finais. Da maison Chanel, recebeu frascos e mais frascos de perfume.
O diretor Jorge Takla também caprichou nos mimos. "Ele me
presenteou com um traje completo, incluindo os sapatos", ela conta.
Uma boa recompensa, digamos, para quem aceitou interpretar uma personagem
vinte anos mais velha. Aos 61 anos, Marília Pêra agarrou
a oportunidade na hora. Desde 1991, quando a peça foi escrita,
diversas atrizes foram cogitadas para o papel em produções
que acabaram não vingando. Cleyde Yáconis encabeçou
a série de recusas. Julgou o tema fútil demais. Tônia
Carrero desistiu ao ler a primeira fala do texto: "Envelheci!".
Irene Ravache apaixonou-se, mas achou que precisava ter quinze anos
a mais. Sem agenda disponível, Fernanda Montenegro não
topou. Teve ainda Tereza Rachel, que leu e nunca mais tocou no assunto.
Todas talentosas, mas nenhuma com o biotipo tão semelhante
ao da estilista francesa, que era uma mulher magra e com cerca de
1,50 metro (não existe uma referência precisa de suas
medidas). Marília tem 1,61 metro e 51 quilos peso
que ela garante manter há quarenta anos.
"Acho
que consegui dar um tom bem-humorado à acidez da Chanel",
diz a atriz, que embolsa entre 20% e 25% da bilheteria do espetáculo
cerca de 50.000 reais por mês.
"Ela está perfeita", afirma Maria Lúcia Candeias,
professora de artes cênicas da Unicamp e crítica do
jornal Gazeta Mercantil. "O espetáculo combina ironia,
glamour e inteligência." Durante a peça, a atriz permanece
quase o tempo inteiro com os quadris projetados para a frente e
os ombros curvados, postura idêntica à de Chanel no
fim da vida. O maior desconforto, no entanto, são os onze
cigarros que precisa acender a cada apresentação.
Ex-fumante, Marília exigiu da produção uma
marca livre de nicotina e alcatrão. Encontraram nos Estados
Unidos. Cada cigarro desses custa 2 dólares. Ou seja, 5.000
reais em quatro meses de temporada. Com repulsa pela fumaça,
Marília também proibiu a contratação
de qualquer funcionário fumante. E, claro, desejo de diva
é sempre uma ordem.
Fotos Alexandre Schneider
 |
eider
 |
| O
público fica de queixo caído quando o esvoaçante
modelo de musseline entra em cena.
Por determinação de Chanel, todas as peças
produzidas em vermelho seguem um único tom |
Lançado
em 1957, o tomara-que-caia foi
adornado na cintura com uma camélia. A flor, vendida
a 980 reais na Daslu, era um dos acessórios preferidos
da estilista e tornou-se um forte símbolo da marca |
Quem
vê Marília encarnando a estilista francesa de forma
primorosa nem imagina que ela está a todo o vapor. No último
domingo, um dia depois da estréia oficial, embarcou para
Los Angeles. Atendeu ao pedido de um amigo e gravou quatro cenas
de Living the Dream, filme que ainda não tem previsão
de entrar em cartaz por aqui. Na próxima terça, vai
apresentar em Belo Horizonte o show Marília Pêra
Canta Ary Barroso. De lá, voa para o Rio de Janeiro.
Tem reunião de pré-produção da próxima
novela das 7 da Globo, Começar de Novo, de Antonio
Calmon. Nessa história, que deve entrar no ar em agosto,
irá interpretar uma hippie que vive num sítio chamado
Woodstock. "Chega uma hora em que é necessário fazer
televisão porque o público se renova e, além
do mais, todo mundo vê, né?", explica.
Marília
tem trabalhos inesquecíveis na telinha, como em Brega
& Chique (1987), ao lado do ex-amigo Marco Nanini. Os dois
romperam por causa de desentendimentos financeiros durante a longa
temporada de O Mistério de Irma Vap, um estrondoso
sucesso teatral que ela dirigiu no fim dos anos 80. O diretor Mauro
Mendonça Filho bem que se esforçou para reaproximá-los.
Eles seriam os protagonistas do programa A Grande Família.
Ela não aceitou o convite e foi substituída por Marieta
Severo. Ultimamente, a diva do teatro tenta se livrar da fama de
brigona e garante que a mulher azeda e de difícil trato do
passado saiu de cena para sempre.
Irineu Barreto Filho
 |
André Schiriló
 |
| Marília
com Nanini, em Brega & Chique, de 1987: amigo virou
desafeto |
Como Callas, em 1997: impecável |
A lista
de bafafás públicos envolvendo seu nome inclui um
bate-boca memorável com o ator argentino Patrício
Bisso. Marília assistia ao seu espetáculo quando ele
chamou Tônia Carrero e Bibi Ferreira de ultrapassadas. Ela
se levantou do meio da platéia aos berros e a confusão
se armou. Em 1989, foi pesadamente patrulhada por apoiar a candidatura
presidencial de Fernando Collor. Chamada de "traidora" por colegas
de profissão, enfrentou manifestação de petistas
à porta do teatro. Nelson Motta, com quem foi casada durante
quinze anos, mandou-lhe uma carta, na época, em que dizia:
"Proíbo você de envolver nossas meninas com essa família
(a de Collor)". Ele referia-se às duas filhas do casal,
Esperança e Nina Motta (Marília é também
mãe de Ricardo Graça Mello, seu primogênito).
Começou aí uma fase infeliz em sua vida, o que a fez
passar dias trancada dentro de casa. "Ela ficou muito mal depois
dessa confusão", lembra o amigo e ator Cassio Scapin, com
quem ela costuma jantar com freqüência em restaurantes
da cidade como o Spot, o Verdi e o Charlô. "A ressaca durou
muitos anos, mas, hoje em dia, está totalmente superada."
Eder Chiodetto
 |
Ricardo Siqueira
 |
| Além
da Linha d'Água: um dos dois trabalhos com Ivaldo
Bertazzo |
Na
pele de Dalva de Oliveira, em 1987: paixão por soltar a voz
|
Quinze
anos depois do episódio, Marília se julga menos temperamental
e mais tolerante. Parte dessa metamorfose ela credita ao romance
de sete anos com o produtor de cinema Bruno Faria. É o seu
quarto casamento. "A Marília é linda, muito sexy,
um mulheraço", derrete-se Faria, que tem 40 anos, 21 menos
que a mulher. Eles vivem ora no Rio de Janeiro, ora em São
Paulo. Não terminaram de decorar o novo apartamento em Higienópolis,
mas já deixaram o ambiente do jeito que ela mais gosta: todo
branco (assim como Chanel). No Rio, falta tempo para organizar um
dos quartos onde guarda figurinos de quase todos os seus espetáculos.
Seu sonho é ver esse material num espaço dedicado
à memória do teatro brasileiro.
HB Filmes
 |
| A
prostituta Sueli, no filme Pixote: dois prêmios
de melhor atriz |
Reginaldo Teixeira
 |
| Com
Bruno Faria: há sete anos juntos |
Em
mais de cinqüenta anos de carreira, Marília já
fez de tudo: cerca de vinte filmes, com destaque para Pixote:
a Lei do Mais Fraco, Central do Brasil e Tieta do Agreste;
trinta novelas, minisséries e participações
especiais na televisão; cinqüenta peças e shows
teatrais e sete apresentações de balé. Ainda
dirigiu 24 espetáculos e coreografou outros nove. Ufa! Suas
atuações mais memoráveis no palco são
interpretações de mulheres fortes, como as cantoras
Maria Callas, Dalva de Oliveira e Carmen Miranda, além da
própria Chanel, que ela fez renascer de corpo e alma. Na
estante, exibe três prêmios Molière, dois do
Festival de Cinema de Gramado e três troféus internacionais.
No ano que vem, ela pretende fazer mais cinema tem dois convites
na manga e quer encenar Vincent, peça sobre
o pintor holandês Van Gogh cujos direitos ela comprou para
o Brasil. "Sou inquieta", diz Marília. "É por isso
que eu tenho altos e baixos. Estou de olhos e coração
abertos para tudo de bom e de mau que a vida tem a me oferecer.
Assim tem sido minha história."
|
Uma
biografia de arrepiar
Ninguém
inovou tanto e pensou a moda de maneira tão prática
como a estilista francesa Gabrielle Chanel. Quem não
conhece o penteado na altura do queixo que leva seu nome?
Ou a bolsa com alça de corrente, inventada para ficar
a tiracolo? Graças a ela, o guarda-roupa feminino libertou-se
de chapelões e sapatos apertados. Para substituir saias
volumosas e espartilhos sufocantes, ela apostou no tailleur.
Foi praticamente pioneira ao aparecer de calça comprida
em eventos sociais. Para a noite, lançou o pretinho
básico. Chanel misturou pedras falsas e verdadeiras
em linhas de colares, anéis e pulseiras, tornando as
bijuterias um acessório chique. Elevou o tweed e o
jérsei à categoria dos tecidos nobres. Foi a
primeira profissional da moda a virar celebridade e a lançar
um perfume com seu nome. Criado em 1921, o Chanel nº
5 imediatamente se tornou o mais vendido do mundo.
Coco
Chanel, como era conhecida, nasceu pobre, em 1883. Aos 11
anos, perdeu a mãe, vítima de tuberculose, e
foi abandonada num orfanato pelo pai. Na juventude, trabalhava
como balconista numa loja, enquanto à noite se apresentava
num cabaré para militares. Astuta, seduziu o oficial
francês Étienne Balsan, herdeiro de uma tecelagem,
mesmo sem ser especialmente bonita. Foi ele quem a ajudou
a abrir sua primeira loja de chapéus. Na década
de 10, com o auxílio de seu segundo amante, o playboy
inglês Arthur "Boy" Capel, inaugurou o famoso ateliê
na Rue Cambon, em Paris orgulhosa e esnobe, espalhava
ter devolvido a ambos cada centavo investido. Após
a morte de Capel num acidente de automóvel, Chanel
enfrentou uma depressão profunda e mergulhou no trabalho.
No auge de sua fama, durante a década de 30, empregou
4 000 funcionários e chegou a vender 28 000 peças
num único ano. Recuperada do abalo emocional, passou
a colecionar amantes poderosos como o disputado duque de Westminster,
o compositor russo Igor Stravinski e o cineasta italiano Luchino
Visconti, que a trocaria por um jovem. Lamentava não
ter arrebatado um coração: o do pintor Pablo
Picasso. Fumante compulsiva acendia um cigarro no outro
, viveu bastante: morreu em 1971, aos 88 anos. Estava
sozinha e era um domingo (odiava esse dia, quando o ateliê
ficava vazio). Sua grife permanece até hoje uma das
mais prestigiadas da moda. E um eterno objeto do desejo feminino.
|
|
A
dona da
história
Rogério Montenegro
 |
| Maria
Adelaide Amaral: toque de Midas |
Em
1991, o produtor de moda Tércio de Freitas e o diretor
Ulysses Cruz encomendaram à escritora Maria Adelaide
Amaral uma peça sobre Coco Chanel. "Eu não sei
nada sobre o mundo da moda!", respondeu categoricamente. Na
semana seguinte, pensou melhor, começou a ler a respeito
da estilista e ficou fascinada. Escreveu o texto, recebeu
o pagamento e viajou em férias para Londres. Na volta,
foi surpreendida pela notícia da morte de Tércio,
que iria produzir o espetáculo. Começou, então,
a via-crúcis de Mademoiselle Chanel, de produtor
em produtor, de diva em diva, para enfim chegar à Faap
protagonizada por Marília Pêra. E virar, de imediato,
um fenômeno.
Maria
Adelaide é assim, uma espécie de Midas. Contadora
de histórias de mão-cheia, ela costuma se inspirar
em personagens da vida real. Quando está diante de
uma figura histórica, caso de Chanel ou da pintora
Tarsila do Amaral, tema de uma peça sua encenada no
ano passado, mergulha fundo na pesquisa. Lê intensamente,
entrevista pessoas, assiste a vídeos, sempre preocupada
em encontrar os elementos capazes de envolver e emocionar
o público. "Prefiro pesquisar a escrever", costuma
dizer. Quando inicia um novo trabalho, como voltará
a fazer na próxima semana, refugia-se numa casa na
Serra da Cantareira. É autora de quinze peças,
a maior parte delas premiada, além de novelas e minisséries,
como Os Maias, A Muralha e o recente sucesso Um
Só Coração, em parceria com Alcides
Nogueira. Este último trabalho lhe rendeu o título
de cidadã paulistana, recebido em abril último.
Nem precisava. Portuguesa da cidade do Porto, 62 anos, cabelinho
muito curto, apreciadora de música clássica,
de um dry martini antes do jantar e de longas conversas com
os amigos, ela se comporta como se fosse nascida aqui. Sonha
em ver o centro recuperado e um de seus prazeres é
andar a pé pelo bairro de Higienópolis, onde
mora.
|
|