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9 de junho de 2004
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TEATRO

Chanel de corpo e alma

Depois das memoráveis atuações como
Maria Callas, Carmen Miranda
e Dalva de
Oliveira, Marília Pêra
faz a genial estilista
francesa
renascer no palco da Faap

Marcella Centofanti,
Marcos Buarque de Gusmão
e Mônica Santos


João Caldas
Marília em cena: postura idêntica à de Coco Chanel, depois de dois meses assistindo a vídeos sobre ela


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São nada menos que oitenta peças exibidas por mês nas cerca de 100 salas espalhadas pela cidade. No mesmo fim de semana, é possível escolher entre a comédia Veneza, com Laura Cardoso e Arlete Salles, e o supermusical Chicago. Por sua variedade e qualidade, o teatro é sempre motivo de orgulho para o paulistano. Mas dificilmente uma montagem causa tanto burburinho antes mesmo de abrir sua temporada oficial. Duas semanas antes, 3 200 pessoas tiveram o privilégio de ver as pré-estréias de Mademoiselle Chanel no Teatro Faap. Quase todas saíram encantadas. Em cartaz desde o último dia 29, o espetáculo que custou 1 milhão de reais tem tudo para ser a sensação do ano nos palcos graças a uma rara combinação:

A peça conta a trajetória da genial estilista Gabrielle Chanel (1883-1971), a menina pobre e órfã que coleciona amantes poderosos ao longo da vida e se transforma na maior revolucionária da moda do século XX.


João Caldas
"Envelheci!" A primeira fala da peça desanimou Tônia Carrero. Cleyde Yáconis julgou o tema fútil. Irene Ravache toparia se tivesse quinze anos a mais e Fernanda Montenegro, se a agenda permitisse. Tereza Rachel também leu, mas só Marília aceitou o papel sem vacilar

O texto, escrito há treze anos pela dramaturga Maria Adelaide Amaral, é impecável. Conhecida pela profundidade de suas pesquisas e pela habilidade para contar uma boa história, ela sabe envolver e emocionar o público.


João Caldas
A produção do espetáculo contou com o apoio da maison Chanel, de Paris, que confeccionou os dezesseis figurinos usados pelas atrizes Elen Londero e Laura Wie. As duas quase não abrem a boca em cena. Nem é preciso. A presença delas no palco é estonteante

A produção é caprichadíssima. A maison Chanel confeccionou, em alta-costura, dezessete modelos, bolsas, chapéus, bijuterias e sapatos especialmente para o espetáculo. Em uma hora e quinze minutos, a platéia assiste a um legítimo, exclusivo e deslumbrante desfile da famosa grife francesa.


João Caldas
Durante uma hora e quinze, a atriz acende onze cigarros. Ex-fumante, ela exigiu uma marca livre de alcatrão e nicotina. Cada cigarro, importado dos Estados Unidos, custa 2 dólares. Ou seja, 5 000 reais em quatro meses de temporada

Por fim, tem Marília Pêra, que incorpora com perfeição cada gesto da estilista. A entrega à personagem é tão intensa que seus amigos andam dizendo que ela não atua, mas, sim, tem uma experiência mediúnica no palco.

Dá para sentir os cuidados de produção em cada detalhe. O cenário branco e cheio de espelhos é uma reprodução fiel do lendário ateliê de Chanel, na Rue Cambon, em Paris. Responsável pela grife desde 1983, o estilista alemão Karl Lagerfeld desenhou o croqui que ilustra o cartaz oficial e acompanhou passo a passo a preparação do figurino. Durante a apresentação, as atrizes e ex-modelos Laura Wie e Elen Londero desfilam (ou, melhor, flutuam) diante dos espectadores com criações exclusivas. São jóias de fazer cair o queixo. "O contrato nos impede de falar em valores", afirma o diretor Jorge Takla. "Além disso, esses vestidos não estão à venda." É sabido, porém, que um modelo produzido em alta-costura pela marca não custa menos de 25.000 dólares. Os mais sofisticados, elaborados com fios de ouro e peles raras, atingem até 200.000 dólares. Mundo afora, não passa de 500 o número de potenciais clientes para tais relíquias. As peças trazidas para São Paulo somam um valor estimado em 700.000 reais. Por aqui, só é possível comprar Chanel na loja Daslu. E de coleções de prêt-à-porter, evidentemente. A tradicional bolsa a tiracolo com corrente dourada sai por 4.000 reais. Um casaquinho de tweed custa entre 7.000 e 9.000 reais. Um mantô, 12.000 reais. Um clássico par de sapatos bicolores, com bico preto e aberto atrás, 1.500 reais. E uma camélia, mais atual do que nunca, 980 reais.


Fotos Alexandre Schneider
eider
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O estilista da Chanel, Karl Lagerfeld, baseou-se em dois modelos dos anos 50 e 60 ao criar este look exclusivo para o espetáculo. Um vestido colegial semelhante, de crepe de lã, não custa menos de 25 000 dólares A própria Coco Chanel usou um modelo dourado como este, criado em 1937, que traduz o romantismo dos anos 20. Feito de renda, foi bordado com lantejoulas, miçangas e tule. Arranca suspiros da platéia Chanel era fã do tailleur e conseguiu popularizá-lo. Prático, confortável e quase minimalista, o conjunto de jaqueta e saia era considerado por ela a combinação perfeita. O da foto acima, de veludo de seda, foi criado em 1955

Marília Pêra, que antes de interpretar a personagem tinha apenas um cintinho Chanel no guarda-roupa, se deu bem já nos ensaios finais. Da maison Chanel, recebeu frascos e mais frascos de perfume. O diretor Jorge Takla também caprichou nos mimos. "Ele me presenteou com um traje completo, incluindo os sapatos", ela conta. Uma boa recompensa, digamos, para quem aceitou interpretar uma personagem vinte anos mais velha. Aos 61 anos, Marília Pêra agarrou a oportunidade na hora. Desde 1991, quando a peça foi escrita, diversas atrizes foram cogitadas para o papel em produções que acabaram não vingando. Cleyde Yáconis encabeçou a série de recusas. Julgou o tema fútil demais. Tônia Carrero desistiu ao ler a primeira fala do texto: "Envelheci!". Irene Ravache apaixonou-se, mas achou que precisava ter quinze anos a mais. Sem agenda disponível, Fernanda Montenegro não topou. Teve ainda Tereza Rachel, que leu e nunca mais tocou no assunto. Todas talentosas, mas nenhuma com o biotipo tão semelhante ao da estilista francesa, que era uma mulher magra e com cerca de 1,50 metro (não existe uma referência precisa de suas medidas). Marília tem 1,61 metro e 51 quilos – peso que ela garante manter há quarenta anos.

"Acho que consegui dar um tom bem-humorado à acidez da Chanel", diz a atriz, que embolsa entre 20% e 25% da bilheteria do espetáculo – cerca de 50.000 reais por mês. "Ela está perfeita", afirma Maria Lúcia Candeias, professora de artes cênicas da Unicamp e crítica do jornal Gazeta Mercantil. "O espetáculo combina ironia, glamour e inteligência." Durante a peça, a atriz permanece quase o tempo inteiro com os quadris projetados para a frente e os ombros curvados, postura idêntica à de Chanel no fim da vida. O maior desconforto, no entanto, são os onze cigarros que precisa acender a cada apresentação. Ex-fumante, Marília exigiu da produção uma marca livre de nicotina e alcatrão. Encontraram nos Estados Unidos. Cada cigarro desses custa 2 dólares. Ou seja, 5.000 reais em quatro meses de temporada. Com repulsa pela fumaça, Marília também proibiu a contratação de qualquer funcionário fumante. E, claro, desejo de diva é sempre uma ordem.


Fotos Alexandre Schneider
eider
O público fica de queixo caído quando o esvoaçante modelo de musseline entra em cena. Por determinação de Chanel, todas as peças produzidas em vermelho seguem um único tom Lançado em 1957, o tomara-que-caia foi adornado na cintura com uma camélia. A flor, vendida a 980 reais na Daslu, era um dos acessórios preferidos da estilista e tornou-se um forte símbolo da marca

Quem vê Marília encarnando a estilista francesa de forma primorosa nem imagina que ela está a todo o vapor. No último domingo, um dia depois da estréia oficial, embarcou para Los Angeles. Atendeu ao pedido de um amigo e gravou quatro cenas de Living the Dream, filme que ainda não tem previsão de entrar em cartaz por aqui. Na próxima terça, vai apresentar em Belo Horizonte o show Marília Pêra Canta Ary Barroso. De lá, voa para o Rio de Janeiro. Tem reunião de pré-produção da próxima novela das 7 da Globo, Começar de Novo, de Antonio Calmon. Nessa história, que deve entrar no ar em agosto, irá interpretar uma hippie que vive num sítio chamado Woodstock. "Chega uma hora em que é necessário fazer televisão porque o público se renova e, além do mais, todo mundo vê, né?", explica.

Marília tem trabalhos inesquecíveis na telinha, como em Brega & Chique (1987), ao lado do ex-amigo Marco Nanini. Os dois romperam por causa de desentendimentos financeiros durante a longa temporada de O Mistério de Irma Vap, um estrondoso sucesso teatral que ela dirigiu no fim dos anos 80. O diretor Mauro Mendonça Filho bem que se esforçou para reaproximá-los. Eles seriam os protagonistas do programa A Grande Família. Ela não aceitou o convite e foi substituída por Marieta Severo. Ultimamente, a diva do teatro tenta se livrar da fama de brigona e garante que a mulher azeda e de difícil trato do passado saiu de cena para sempre.


Irineu Barreto Filho
André Schiriló
Marília com Nanini, em Brega & Chique, de 1987: amigo virou desafeto Como Callas, em 1997: impecável

A lista de bafafás públicos envolvendo seu nome inclui um bate-boca memorável com o ator argentino Patrício Bisso. Marília assistia ao seu espetáculo quando ele chamou Tônia Carrero e Bibi Ferreira de ultrapassadas. Ela se levantou do meio da platéia aos berros e a confusão se armou. Em 1989, foi pesadamente patrulhada por apoiar a candidatura presidencial de Fernando Collor. Chamada de "traidora" por colegas de profissão, enfrentou manifestação de petistas à porta do teatro. Nelson Motta, com quem foi casada durante quinze anos, mandou-lhe uma carta, na época, em que dizia: "Proíbo você de envolver nossas meninas com essa família (a de Collor)". Ele referia-se às duas filhas do casal, Esperança e Nina Motta (Marília é também mãe de Ricardo Graça Mello, seu primogênito). Começou aí uma fase infeliz em sua vida, o que a fez passar dias trancada dentro de casa. "Ela ficou muito mal depois dessa confusão", lembra o amigo e ator Cassio Scapin, com quem ela costuma jantar com freqüência em restaurantes da cidade como o Spot, o Verdi e o Charlô. "A ressaca durou muitos anos, mas, hoje em dia, está totalmente superada."


Eder Chiodetto
Ricardo Siqueira
Além da Linha d'Água: um dos dois trabalhos com Ivaldo Bertazzo Na pele de Dalva de Oliveira, em 1987: paixão por soltar a voz

Quinze anos depois do episódio, Marília se julga menos temperamental e mais tolerante. Parte dessa metamorfose ela credita ao romance de sete anos com o produtor de cinema Bruno Faria. É o seu quarto casamento. "A Marília é linda, muito sexy, um mulheraço", derrete-se Faria, que tem 40 anos, 21 menos que a mulher. Eles vivem ora no Rio de Janeiro, ora em São Paulo. Não terminaram de decorar o novo apartamento em Higienópolis, mas já deixaram o ambiente do jeito que ela mais gosta: todo branco (assim como Chanel). No Rio, falta tempo para organizar um dos quartos onde guarda figurinos de quase todos os seus espetáculos. Seu sonho é ver esse material num espaço dedicado à memória do teatro brasileiro.


HB Filmes
A prostituta Sueli, no filme Pixote: dois prêmios de melhor atriz


Reginaldo Teixeira
Com Bruno Faria: há sete anos juntos

Em mais de cinqüenta anos de carreira, Marília já fez de tudo: cerca de vinte filmes, com destaque para Pixote: a Lei do Mais Fraco, Central do Brasil e Tieta do Agreste; trinta novelas, minisséries e participações especiais na televisão; cinqüenta peças e shows teatrais e sete apresentações de balé. Ainda dirigiu 24 espetáculos e coreografou outros nove. Ufa! Suas atuações mais memoráveis no palco são interpretações de mulheres fortes, como as cantoras Maria Callas, Dalva de Oliveira e Carmen Miranda, além da própria Chanel, que ela fez renascer de corpo e alma. Na estante, exibe três prêmios Molière, dois do Festival de Cinema de Gramado e três troféus internacionais. No ano que vem, ela pretende fazer mais cinema – tem dois convites na manga – e quer encenar Vincent, peça sobre o pintor holandês Van Gogh cujos direitos ela comprou para o Brasil. "Sou inquieta", diz Marília. "É por isso que eu tenho altos e baixos. Estou de olhos e coração abertos para tudo de bom e de mau que a vida tem a me oferecer. Assim tem sido minha história."

 

Uma biografia de arrepiar

Ninguém inovou tanto e pensou a moda de maneira tão prática como a estilista francesa Gabrielle Chanel. Quem não conhece o penteado na altura do queixo que leva seu nome? Ou a bolsa com alça de corrente, inventada para ficar a tiracolo? Graças a ela, o guarda-roupa feminino libertou-se de chapelões e sapatos apertados. Para substituir saias volumosas e espartilhos sufocantes, ela apostou no tailleur. Foi praticamente pioneira ao aparecer de calça comprida em eventos sociais. Para a noite, lançou o pretinho básico. Chanel misturou pedras falsas e verdadeiras em linhas de colares, anéis e pulseiras, tornando as bijuterias um acessório chique. Elevou o tweed e o jérsei à categoria dos tecidos nobres. Foi a primeira profissional da moda a virar celebridade e a lançar um perfume com seu nome. Criado em 1921, o Chanel nº 5 imediatamente se tornou o mais vendido do mundo.

Coco Chanel, como era conhecida, nasceu pobre, em 1883. Aos 11 anos, perdeu a mãe, vítima de tuberculose, e foi abandonada num orfanato pelo pai. Na juventude, trabalhava como balconista numa loja, enquanto à noite se apresentava num cabaré para militares. Astuta, seduziu o oficial francês Étienne Balsan, herdeiro de uma tecelagem, mesmo sem ser especialmente bonita. Foi ele quem a ajudou a abrir sua primeira loja de chapéus. Na década de 10, com o auxílio de seu segundo amante, o playboy inglês Arthur "Boy" Capel, inaugurou o famoso ateliê na Rue Cambon, em Paris – orgulhosa e esnobe, espalhava ter devolvido a ambos cada centavo investido. Após a morte de Capel num acidente de automóvel, Chanel enfrentou uma depressão profunda e mergulhou no trabalho. No auge de sua fama, durante a década de 30, empregou 4 000 funcionários e chegou a vender 28 000 peças num único ano. Recuperada do abalo emocional, passou a colecionar amantes poderosos como o disputado duque de Westminster, o compositor russo Igor Stravinski e o cineasta italiano Luchino Visconti, que a trocaria por um jovem. Lamentava não ter arrebatado um coração: o do pintor Pablo Picasso. Fumante compulsiva – acendia um cigarro no outro –, viveu bastante: morreu em 1971, aos 88 anos. Estava sozinha e era um domingo (odiava esse dia, quando o ateliê ficava vazio). Sua grife permanece até hoje uma das mais prestigiadas da moda. E um eterno objeto do desejo feminino.

 

A dona da história


Rogério Montenegro
Maria Adelaide Amaral: toque de Midas

Em 1991, o produtor de moda Tércio de Freitas e o diretor Ulysses Cruz encomendaram à escritora Maria Adelaide Amaral uma peça sobre Coco Chanel. "Eu não sei nada sobre o mundo da moda!", respondeu categoricamente. Na semana seguinte, pensou melhor, começou a ler a respeito da estilista e ficou fascinada. Escreveu o texto, recebeu o pagamento e viajou em férias para Londres. Na volta, foi surpreendida pela notícia da morte de Tércio, que iria produzir o espetáculo. Começou, então, a via-crúcis de Mademoiselle Chanel, de produtor em produtor, de diva em diva, para enfim chegar à Faap protagonizada por Marília Pêra. E virar, de imediato, um fenômeno.

Maria Adelaide é assim, uma espécie de Midas. Contadora de histórias de mão-cheia, ela costuma se inspirar em personagens da vida real. Quando está diante de uma figura histórica, caso de Chanel ou da pintora Tarsila do Amaral, tema de uma peça sua encenada no ano passado, mergulha fundo na pesquisa. Lê intensamente, entrevista pessoas, assiste a vídeos, sempre preocupada em encontrar os elementos capazes de envolver e emocionar o público. "Prefiro pesquisar a escrever", costuma dizer. Quando inicia um novo trabalho, como voltará a fazer na próxima semana, refugia-se numa casa na Serra da Cantareira. É autora de quinze peças, a maior parte delas premiada, além de novelas e minisséries, como Os Maias, A Muralha e o recente sucesso Um Só Coração, em parceria com Alcides Nogueira. Este último trabalho lhe rendeu o título de cidadã paulistana, recebido em abril último. Nem precisava. Portuguesa da cidade do Porto, 62 anos, cabelinho muito curto, apreciadora de música clássica, de um dry martini antes do jantar e de longas conversas com os amigos, ela se comporta como se fosse nascida aqui. Sonha em ver o centro recuperado e um de seus prazeres é andar a pé pelo bairro de Higienópolis, onde mora.

 

         
     
 
 
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