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9 de junho de 2004
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RELIGIÃO

A missa dos bacanas

Igreja São José reúne empresários,
políticos e artistas em cultos dominicais
para lá de badalados

Maria Rita Alonso

Fotos Alexandre Schneider


Anoitece no domingo friorento e a movimentação de carros importados na esquina das ruas Áustria e Dinamarca, no Jardim Europa, é frenética. Parece a agitação que antecede as elegantes festas do bairro. Choferes e manobristas ajeitam carros Jaguar, Mercedes, BMW e Ferrari no pátio e na pracinha em frente à Igreja São José, enquanto os fiéis em casacos de pele e pulôveres de cashmere entram e acomodam-se na nave em um de seus quarenta bancos de madeira. Não é de hoje que as missas dominicais celebradas nessa paróquia reúnem o rebanho endinheirado do bairro. Mas, de uns tempos para cá, o culto das 7 (da noite, bem entendido) ficou ainda mais badalado. Os Diniz estão sempre por lá. Os Suplicy em peso também – do roqueiro Supla a dona Filomena. Sem contar famosos como a modelo Daniella Cicarelli, o apresentador Otávio Mesquita e o cantor Paulo Ricardo, que vez ou outra dão o ar da graça. Na lista dos que vão lá, com maior ou menor freqüência, aparecem ainda pessoas das famílias Matarazzo, Simonsen, Jafet e Saddi. As rodinhas de seguranças particulares na porta são um termômetro da afluência. "É tanta gente que precisei comprar 49 cadeiras avulsas para otimizar o espaço", comenta, orgulhoso, o cônego Roberto Bergamaschi Pires, vigário da paróquia. Ainda assim, quem se atrasa tem de rezar em pé.

Entre as 444 paróquias paulistanas, muitas delas, diante da proliferação das evangélicas, têm dificuldade para lotar suas igrejas. O padre Roberto não se queixa. Mantém seu templo cheio seguindo religiosamente algumas regras estabelecidas pela Cúria Metropolitana e por ele próprio. Em primeiro lugar, a missa nunca é longa demais. Dura no máximo 55 minutos. A celebração começa com o acolhimento, quando as pessoas se cumprimentam. Depois da leitura da Bíblia, é feita a homilia, pregação em estilo quase coloquial. Tudo entremeado por músicas da Renovação Carismática, entoadas por um violeiro. "As canções são cativantes e por isso sigo, com prudência, a linha carismática", diz o pároco. Os fiéis não dançam nem pulam com as mãos para cima, como nas missas do padre Marcelo Rossi, por exemplo. Mas soltam a voz em coro. Por fim, são incentivados a comungar.

No centro, a diretora da Dior no Brasil, Rosangela Lyra, e suas amigas (da esq. para a dir.) Ana Helena Galhego, Isabel Schahin, Maria Amália Schmidt e Elizabeth Straed: rebanho chique

A paulistana Rosangela Lyra é uma das primeiras da fila. Diretora da grife francesa Dior no Brasil, Rosangela freqüenta com suas amigas a igreja há pouco mais de dois anos. Sempre chiques e impecáveis – "não repetirás roupas" até parece um dos mandamentos seguidos pelas fiéis. "Tenho filhos lindos, uma casa bonita, estou sempre em Paris por causa do meu trabalho... mas faltava amor no meu coração", afirma Rosangela, que hoje faz parte de dois grupos de oração, um que acontece na sacristia da igreja, nas noites de terça, e outro que reúne cerca de trinta senhoras da sociedade nas tardes de segunda, sempre na casa de uma delas. Juntas, arrecadaram no ano passado cerca de 25.000 reais para sustentar missionários da Igreja Católica que pregam o Evangelho na África. "O pessoal é muito generoso", observa a secretária do padre, Lázara Alves Valetim. Além das taxas para batismos (40 reais) e casamentos (700 reais), que respondem pelo equilíbrio orçamentário da igreja, não faltam doações de cestas básicas ou de agasalhos para creches e asilos. "As madames deixam sapatos finíssimos e roupas de qualidade extraordinária", conta Lázara.

 

O pátio lotado da igreja e, no detalhe, a imagem de Nossa Senhora no pára-lama: para cuidar dos carrões, seis manobristas foram selecionados pelo padre

A cestinha de palha, usada para a coleta, ostenta notas de 10, de 20 e até de 50 reais. Só aí, segundo os cálculos do padre Roberto, são arrecadados 2.500 reais por mês. Dízimo, naturalmente, é um assunto delicado. Uma urna de madeira fica na sacristia, na qual os fiéis depositam o que querem – a soma normalmente não ultrapassa 2.000 reais por mês. Mas por ali sobra para todos. Desde o pipoqueiro, que apesar de cobrar 2 reais o saquinho acaba embolsando notas de 5, sem que lhe peçam troco, até os seis manobristas selecionados pelo padre, que faturam boas gorjetas pelo trabalho. Os empresários mais poderosos, claro, estão sempre acompanhados por seus próprios motoristas e guarda-costas, que costumam esperar do lado de fora.

Como a maioria das construções do bairro, a São José, inaugurada em 1930, tem arquitetura européia. É cópia de uma igreja de Bolonha, na Itália. Revestida de pequenas lajotas amarelas de cerâmica, com piso de mármore cinza, a igreja vem sendo constantemente retocada e está impecável. Graças à colaboração do abonado rebanho.

 

Os famosos fiéis

 
Germano Luders
Pedro Rubens
O empresário Abilio Diniz: batalhão de seguranças do lado de fora Daniella Cicarelli: a modelo dá o ar da graça uma vez por mês
Gladstone Campos
Marco Pinto
O cantor Paulo Ricardo: pompa no casamento com a arquiteta Raquel Silveira O senador Eduardo Suplicy: orações com a mãe, Filomena

 

         
     
 
 
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