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RELIGIÃO
A
missa dos bacanas
Igreja
São José reúne empresários,
políticos
e artistas em cultos dominicais
para lá de badalados
Maria
Rita Alonso
Fotos Alexandre Schneider
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Anoitece no domingo friorento e a movimentação de
carros importados na esquina das ruas Áustria e Dinamarca,
no Jardim Europa, é frenética. Parece a agitação
que antecede as elegantes festas do bairro. Choferes e manobristas
ajeitam carros Jaguar, Mercedes, BMW e Ferrari no pátio e
na pracinha em frente à Igreja São José, enquanto
os fiéis em casacos de pele e pulôveres de cashmere
entram e acomodam-se na nave em um de seus quarenta bancos de madeira.
Não é de hoje que as missas dominicais celebradas
nessa paróquia reúnem o rebanho endinheirado do bairro.
Mas, de uns tempos para cá, o culto das 7 (da noite, bem
entendido) ficou ainda mais badalado. Os Diniz estão sempre
por lá. Os Suplicy em peso também do roqueiro
Supla a dona Filomena. Sem contar famosos como a modelo Daniella
Cicarelli, o apresentador Otávio Mesquita e o cantor Paulo
Ricardo, que vez ou outra dão o ar da graça. Na lista
dos que vão lá, com maior ou menor freqüência,
aparecem ainda pessoas das famílias Matarazzo, Simonsen,
Jafet e Saddi. As rodinhas de seguranças particulares na
porta são um termômetro da afluência. "É
tanta gente que precisei comprar 49 cadeiras avulsas para otimizar
o espaço", comenta, orgulhoso, o cônego Roberto Bergamaschi
Pires, vigário da paróquia. Ainda assim, quem se atrasa
tem de rezar em pé.
Entre
as 444 paróquias paulistanas, muitas delas, diante da proliferação
das evangélicas, têm dificuldade para lotar suas igrejas.
O padre Roberto não se queixa. Mantém seu templo cheio
seguindo religiosamente algumas regras estabelecidas pela Cúria
Metropolitana e por ele próprio. Em primeiro lugar, a missa
nunca é longa demais. Dura no máximo 55 minutos. A
celebração começa com o acolhimento, quando
as pessoas se cumprimentam. Depois da leitura da Bíblia,
é feita a homilia, pregação em estilo quase
coloquial. Tudo entremeado por músicas da Renovação
Carismática, entoadas por um violeiro. "As canções
são cativantes e por isso sigo, com prudência, a linha
carismática", diz o pároco. Os fiéis não
dançam nem pulam com as mãos para cima, como nas missas
do padre Marcelo Rossi, por exemplo. Mas soltam a voz em coro. Por
fim, são incentivados a comungar.
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| No
centro, a diretora da Dior no Brasil, Rosangela Lyra, e suas
amigas (da esq. para a dir.) Ana Helena Galhego, Isabel
Schahin, Maria Amália Schmidt e Elizabeth Straed: rebanho
chique |
A
paulistana Rosangela Lyra é uma das primeiras da fila. Diretora
da grife francesa Dior no Brasil, Rosangela freqüenta com suas
amigas a igreja há pouco mais de dois anos. Sempre chiques
e impecáveis "não repetirás roupas"
até parece um dos mandamentos seguidos pelas fiéis.
"Tenho filhos lindos, uma casa bonita, estou sempre em Paris por
causa do meu trabalho... mas faltava amor no meu coração",
afirma Rosangela, que hoje faz parte de dois grupos de oração,
um que acontece na sacristia da igreja, nas noites de terça,
e outro que reúne cerca de trinta senhoras da sociedade nas
tardes de segunda, sempre na casa de uma delas. Juntas, arrecadaram
no ano passado cerca de 25.000 reais para sustentar missionários
da Igreja Católica que pregam o Evangelho na África.
"O pessoal é muito generoso", observa a secretária
do padre, Lázara Alves Valetim. Além das taxas para
batismos (40 reais) e casamentos (700 reais), que respondem pelo
equilíbrio orçamentário da igreja, não
faltam doações de cestas básicas ou de agasalhos
para creches e asilos. "As madames deixam sapatos finíssimos
e roupas de qualidade extraordinária", conta Lázara.
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O
pátio lotado da igreja e, no detalhe, a imagem de Nossa Senhora
no pára-lama: para cuidar dos carrões, seis manobristas foram
selecionados pelo padre |
A
cestinha de palha, usada para a coleta, ostenta notas de 10, de
20 e até de 50 reais. Só aí, segundo os cálculos
do padre Roberto, são arrecadados 2.500 reais por mês.
Dízimo, naturalmente, é um assunto delicado. Uma urna
de madeira fica na sacristia, na qual os fiéis depositam
o que querem a soma normalmente não ultrapassa 2.000
reais por mês. Mas por ali sobra para todos. Desde o pipoqueiro,
que apesar de cobrar 2 reais o saquinho acaba embolsando notas de
5, sem que lhe peçam troco, até os seis manobristas
selecionados pelo padre, que faturam boas gorjetas pelo trabalho.
Os empresários mais poderosos, claro, estão sempre
acompanhados por seus próprios motoristas e guarda-costas,
que costumam esperar do lado de fora.
Como
a maioria das construções do bairro, a São
José, inaugurada em 1930, tem arquitetura européia.
É cópia de uma igreja de Bolonha, na Itália.
Revestida de pequenas lajotas amarelas de cerâmica, com piso
de mármore cinza, a igreja vem sendo constantemente retocada
e está impecável. Graças à colaboração
do abonado rebanho.
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