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9 de março de 2005
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Sou vizinho da Febem

A tensa rotina dos moradores
do Belém, bairro onde fica o
Complexo do Tatuapé, que só
neste ano registrou nove rebeliões

Lúcia Monteiro

Heudes Regis
"Antes a gente vivia de porta aberta. Agora é aquela tensão. Não deixo mais meu filho brincar na rua. Na última fuga, dezenas de meninos passaram na frente da minha casa."
David Rubinato,
corretor de seguros


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As sirenes dos carros de polícia começam a gritar. Depois vem o cheiro de fumaça. Quando surgem os helicópteros, o coração já está a mil. É hora de correr para dentro de casa, acionar as trancas e ligar a televisão para tentar saber o que está, mais uma vez, acontecendo no Complexo do Tatuapé, a maior unidade para infratores da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), com 1 544 internos. Apesar do nome, ela fica no bairro do Belém. Há dois meses a rotina de boa parte dos vizinhos tem sido assim. Desde janeiro ocorreram ali nove rebeliões, a assustadora média de uma por semana, e seis fugas envolvendo 99 meninos, dos quais 53 foram recapturados. "Não deixo mais meu filho sair sozinho na rua", diz o corretor de seguros David Rubinato, que mora a uma quadra da Febem. Em janeiro, durante uma fuga, dezenas de internos passaram em frente a sua casa em busca de esconderijo. "É apavorante." O delegado titular do 81º Distrito Policial do Belém, Enjolras de Araújo, calcula que metade das ocorrências da delegacia é relacionada à entidade. "Em dias de motim, os moradores congestionam as linhas telefônicas para pedir informações e viaturas", conta.


Heudes Regis
"Se encontro um adolescente no caminho, já desconfio. No mês passado, fugitivos invadiram o colégio da minha filha. Ainda bem que não era horário de aula."
Lucimara de Carvalho,
coma filha Lorena, de 5 anos

Não é à toa que muita gente pretende se mudar de lá. "Por mim, eu já teria ido embora", afirma a dona-de-casa Célia Modugno. "Mas não consigo vender meu sobrado por um preço suficiente para comprar outro longe daqui." Existe enorme oferta de imóveis na Avenida Celso Garcia, onde se localiza a Febem. Estima-se que a desvalorização do metro quadrado nos quarteirões mais próximos da entidade chegue a 70% – é possível comprar um imóvel de 300 metros quadrados por cerca de 100.000 reais. "Em épocas de rebelião, os negócios são praticamente nulos", diz Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp). Além disso, o ambiente de tensão no bairro não estimula incorporadoras a investir em novos prédios.


Heudes Regis
"Não posso ouvir sirene ou helicóptero que fico apavorada. O medo maior é na hora de sair na rua. Quando comprei meu apartamento, achava que a Febem seria desativada."
Elisabete Felix Quatrochi,
entre as filhas Isabela e Lorena

Morar perto da Febem do Tatuapé nem sempre foi um pesadelo. O lugar abrigava menores carentes e passou a receber infratores a partir de 1973. No ano passado, houve apenas uma rebelião. Em 2003, nenhuma. A situação esquentou a partir do último dia 12 de janeiro, depois que 1 751 funcionários foram demitidos nas 77 unidades da Febem no estado de São Paulo. Para conseguir afastar tanta gente, a Secretaria da Justiça extinguiu a figura do monitor. Até o ano passado, esse cargo designava as pessoas que cuidavam tanto da segurança como da educação dos 6 189 menores internados. Agora, existe uma separação entre vigias e educadores – e os últimos devem ter diploma universitário. É claro que quem ficou de fora não gostou da mudança. "Há atos de terrorismo por parte de quem está descontente com a reforma administrativa", afirma Alexandre de Moraes, secretário da Justiça e presidente da Febem. Na semana passada, os funcionários afastados conseguiram garantir na Justiça o pagamento de seus salários. Um monitor, cujo trabalho deveria ser o de reeducar crianças e adolescentes que vivem sob a tutela do Estado, ganha em média 1 200 reais por mês. Com cada interno, o governo gasta por mês cerca de 1 700.

No início do ano, Moraes comandou uma ação contra maus-tratos que resultou na prisão de dezessete funcionários (outros nove estão foragidos). Houve rebeliões em massa no mesmo dia. Uma das hipóteses é que os próprios monitores insuflam os menores a rebelar-se. Os monitores, por sua vez, atribuem a sucessão de episódios violentos à omissão do Estado. Apesar de a idéia do desativamento da Febem do Tatuapé ir e voltar assim como seus internos – 19% são reincidentes –, não está nos planos do governo fechar as unidades da Zona Leste a curto prazo. Em 2001, o governador Geraldo Alckmin assinou um projeto de lei para construir um parque em seu lugar. O plano, contudo, não tem data para sair do papel.


Heudes Regis
Casas à venda: imóveis a até 100 metros da Febem têm desvalorização de 70%

O Complexo do Tatuapé é o maior do estado, com dezoito unidades, 1.544 internos e 230.000 metros quadrados. Ali se amontoam adolescentes em situações similares às encontradas nas penitenciárias. "Trata-se de um modelo ultrapassado, mas não é nossa prioridade alterar isso agora", diz Moraes. Ele pretende investir em espaços alternativos para menores infratores. A Secretaria da Justiça já conseguiu dois prédios novos no centro para abrigar unidades de semiliberdade nos próximos meses. Haverá 600 vagas para os adolescentes fazerem cursos de telemarketing. No interior, a idéia é criar escolas agrícolas. Assim, os juízes poderiam encaminhar para lá casos menos graves, e não entupir as unidades da capital.

Hoje, entram na mesma Febem menores de 12 a 17 anos. É aí que está a perversidade do sistema. As crianças de 12 anos presas por furto convivem com homens de até 20 anos que cometeram seqüestros ou homicídios antes de atingir a maioridade. Independentemente do delito, o tempo de permanência mínimo é de seis meses e o máximo, de três anos. Mas ninguém sabe ao certo quando vai sair – isso depende de uma avaliação semestral do desempenho do interno.

Numa tentativa de evitar novas rebeliões, desde a semana passada mulheres da Associação de Mães e Amigos da Criança Adolescente em Risco (Amar) estão visitando diariamente o Complexo do Tatuapé. São mães de menores infratores que foram chamadas pela Secretaria da Justiça para ouvir as reivindicações dos internos e acalmar o ambiente. "Eles pedem de tudo: remédios, toalhas grandes, colchões novos...", diz a dona-de-casa Claudecira dos Anjos, cujo filho está na unidade 5 do Tatuapé. Outra missão dessas mulheres é a de denunciar funcionários que maltratam os meninos e aplicam o chamado "couro". É uma pequena tentativa de colocar ordem nessa escola de crime, baderna e pancadaria que tanto envergonha e amedronta não só os moradores do Belém.

 

O barril de pólvora

230 000
metros quadrados é a área ocupada pelas dezoito unidades do Complexo do Tatuapé. É a maior Febem do estado

1544
infratores vivem lá

17
anos é a idade média dos internos. Eles têm entre 12 e 20 anos

1700
reais por mês são gastos com cada um

800
educadores e agentes de segurança trabalham no Tatuapé. São 200 pessoas por turno

45
menores entram todos os dias em uma das 77 unidades da Febem no estado

9
meses é o tempo médio de permanência na Febem. A pena mínima é de seis meses e a máxima, de três anos

19%
dos internos são reincidentes

9
rebeliões foram registradas neste ano no Complexo do Tatuapé, ou uma a cada seis dias

6
fugas ocorreram na Febem do Tatuapé desde janeiro. Escaparam 99 internos e 53 foram recapturados

40 000
pessoas moram no Belém, onde fica o Complexo do Tatuapé

 

Dicionário dos internos

Bonde: apelido do boletim de ocorrência. Os infratores que fazem 18 anos na Febem morrem de medo dele – se forem autuados, saem de lá e vão para uma prisão comum

Couro: surra que os menores levam de monitores, seguranças ou de outros internos

Jumbo: a comida que a família manda

Mundão: é o lado de fora da Febem. "Esses ainda têm cheiro de mundão", dizem os veteranos sobre os recém-chegados

Tranca: quem se envolve em rebeliões, discussões e brigas vai para a tranca, ou seja, fica até cinco dias sem poder jogar bola ou assistir às aulas

 

"Dia de rebelião é a maior adrenalina"

Interno há quatro meses da unidade 1 do Tatuapé, A.M.G., de 18 anos, conta como é viver ali

Mario Rodrigues


Como você foi preso?

Foi 159, seqüestro. Peguei duas meninas saindo da casa delas. Seqüestro-relâmpago. Eram 3 da tarde. Eu estava no carro com elas quando a polícia chegou.

Você conhecia essas meninas?
Não, mas sabia que uma delas era gerente de joalheria.

Foi seu primeiro crime?
Não. Eu já tinha roubado um carro.

O que fez com o dinheiro?
Tudo o que vem fácil vai fácil. Gastei tudo em rolê, na balada.

Como é um dia de rebelião?
É a maior adrenalina, dá uma sensação estranha. Na última, eu não fui para o pátio, me escondi numa sala. Fiquei com medo de morrer.

E sua vida aqui...
Tento aprender alguma coisa, não fazer disso um tempo perdido. Agora estou construindo esse barco na aula de artesanato. Vou dar para o meu tio. Ele torce para o São Paulo, como eu.

Tem planos para quando sair?
Quero trabalhar.

O que você costumava fazer antes de ser preso?
Ia bastante ao Shopping Interlagos. Uma vez ou outra eu colava no Parque do Ibirapuera.

     
 


   
 
 
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