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CIDADE Sou vizinho
da Febem A tensa rotina dos moradores do Belém,
bairro onde fica o Complexo do Tatuapé, que só neste ano
registrou nove rebeliões Lúcia Monteiro
Heudes Regis  | "Antes
a gente vivia de porta aberta. Agora é aquela tensão. Não
deixo mais meu filho brincar na rua. Na última fuga, dezenas de meninos
passaram na frente da minha casa." David
Rubinato, corretor de seguros |
As
sirenes dos carros de polícia começam a gritar. Depois vem o cheiro
de fumaça. Quando surgem os helicópteros, o coração
já está a mil. É hora de correr para dentro de casa, acionar
as trancas e ligar a televisão para tentar saber o que está, mais
uma vez, acontecendo no Complexo do Tatuapé, a maior unidade para infratores
da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), com 1 544 internos.
Apesar do nome, ela fica no bairro do Belém. Há dois meses a rotina
de boa parte dos vizinhos tem sido assim. Desde janeiro ocorreram ali nove rebeliões,
a assustadora média de uma por semana, e seis fugas envolvendo 99 meninos,
dos quais 53 foram recapturados. "Não deixo mais meu filho sair sozinho
na rua", diz o corretor de seguros David Rubinato, que mora a uma quadra da Febem.
Em janeiro, durante uma fuga, dezenas de internos passaram em frente a sua casa
em busca de esconderijo. "É apavorante." O delegado titular do 81º
Distrito Policial do Belém, Enjolras de Araújo, calcula que metade
das ocorrências da delegacia é relacionada à entidade. "Em
dias de motim, os moradores congestionam as linhas telefônicas para pedir
informações e viaturas", conta.
Heudes Regis  | "Se
encontro um adolescente no caminho, já desconfio. No mês passado,
fugitivos invadiram o colégio da minha filha. Ainda bem que não
era horário de aula." Lucimara
de Carvalho, coma filha Lorena, de 5 anos | Não
é à toa que muita gente pretende se mudar de lá. "Por mim,
eu já teria ido embora", afirma a dona-de-casa Célia Modugno. "Mas
não consigo vender meu sobrado por um preço suficiente para comprar
outro longe daqui." Existe enorme oferta de imóveis na Avenida Celso Garcia,
onde se localiza a Febem. Estima-se que a desvalorização do metro
quadrado nos quarteirões mais próximos da entidade chegue a 70%
é possível comprar um imóvel de 300 metros quadrados
por cerca de 100.000 reais. "Em épocas de rebelião, os negócios
são praticamente nulos", diz Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa
Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp). Além disso, o ambiente
de tensão no bairro não estimula incorporadoras a investir em novos
prédios.
Heudes Regis  | "Não
posso ouvir sirene ou helicóptero que fico apavorada. O medo maior é
na hora de sair na rua. Quando comprei meu apartamento, achava que a Febem seria
desativada." Elisabete
Felix Quatrochi, entre as filhas Isabela e Lorena |
Morar perto da Febem do Tatuapé
nem sempre foi um pesadelo. O lugar abrigava menores carentes e passou a receber
infratores a partir de 1973. No ano passado, houve apenas uma rebelião.
Em 2003, nenhuma. A situação esquentou a partir do último
dia 12 de janeiro, depois que 1 751 funcionários foram demitidos nas 77
unidades da Febem no estado de São Paulo. Para conseguir afastar tanta
gente, a Secretaria da Justiça extinguiu a figura do monitor. Até
o ano passado, esse cargo designava as pessoas que cuidavam tanto da segurança
como da educação dos 6 189 menores internados. Agora, existe uma
separação entre vigias e educadores e os últimos devem
ter diploma universitário. É claro que quem ficou de fora não
gostou da mudança. "Há atos de terrorismo por parte de quem está
descontente com a reforma administrativa", afirma Alexandre de Moraes, secretário
da Justiça e presidente da Febem. Na semana passada, os funcionários
afastados conseguiram garantir na Justiça o pagamento de seus salários.
Um monitor, cujo trabalho deveria ser o de reeducar crianças e adolescentes
que vivem sob a tutela do Estado, ganha em média 1 200 reais por mês.
Com cada interno, o governo gasta por mês cerca de 1 700.
No início do ano, Moraes comandou uma ação contra maus-tratos
que resultou na prisão de dezessete funcionários (outros nove estão
foragidos). Houve rebeliões em massa no mesmo dia. Uma das hipóteses
é que os próprios monitores insuflam os menores a rebelar-se. Os
monitores, por sua vez, atribuem a sucessão de episódios violentos
à omissão do Estado. Apesar de a idéia do desativamento da
Febem do Tatuapé ir e voltar assim como seus internos 19% são
reincidentes , não está nos planos do governo fechar as unidades
da Zona Leste a curto prazo. Em 2001, o governador Geraldo Alckmin assinou um
projeto de lei para construir um parque em seu lugar. O plano, contudo, não
tem data para sair do papel.
Heudes Regis  |
| Casas à venda: imóveis a até 100 metros da Febem têm
desvalorização de 70% | O
Complexo do Tatuapé é o maior do estado, com dezoito unidades, 1.544
internos e 230.000 metros quadrados. Ali se amontoam adolescentes em situações
similares às encontradas nas penitenciárias. "Trata-se de um modelo
ultrapassado, mas não é nossa prioridade alterar isso agora", diz
Moraes. Ele pretende investir em espaços alternativos para menores infratores.
A Secretaria da Justiça já conseguiu dois prédios novos no
centro para abrigar unidades de semiliberdade nos próximos meses. Haverá
600 vagas para os adolescentes fazerem cursos de telemarketing. No interior, a
idéia é criar escolas agrícolas. Assim, os juízes
poderiam encaminhar para lá casos menos graves, e não entupir as
unidades da capital. Hoje, entram
na mesma Febem menores de 12 a 17 anos. É aí que está a perversidade
do sistema. As crianças de 12 anos presas por furto convivem com homens
de até 20 anos que cometeram seqüestros ou homicídios antes
de atingir a maioridade. Independentemente do delito, o tempo de permanência
mínimo é de seis meses e o máximo, de três anos. Mas
ninguém sabe ao certo quando vai sair isso depende de uma avaliação
semestral do desempenho do interno.
Numa tentativa de evitar novas rebeliões, desde a semana passada mulheres
da Associação de Mães e Amigos da Criança Adolescente
em Risco (Amar) estão visitando diariamente o Complexo do Tatuapé.
São mães de menores infratores que foram chamadas pela Secretaria
da Justiça para ouvir as reivindicações dos internos e acalmar
o ambiente. "Eles pedem de tudo: remédios, toalhas grandes, colchões
novos...", diz a dona-de-casa Claudecira dos Anjos, cujo filho está na
unidade 5 do Tatuapé. Outra missão dessas mulheres é a de
denunciar funcionários que maltratam os meninos e aplicam o chamado "couro".
É uma pequena tentativa de colocar ordem nessa escola de crime, baderna
e pancadaria que tanto envergonha e amedronta não só os moradores
do Belém.
| O barril de pólvora 230
000 metros quadrados é a área ocupada pelas dezoito
unidades do Complexo do Tatuapé. É a maior Febem do estado 1544
infratores vivem lá 17
anos é a idade média dos internos. Eles têm entre
12 e 20 anos 1700
reais por mês são gastos com cada um 800
educadores e agentes de segurança trabalham no Tatuapé.
São 200 pessoas por turno 45
menores entram todos os dias em uma das 77 unidades da Febem no estado
9 meses
é o tempo médio de permanência na Febem. A pena mínima
é de seis meses e a máxima, de três anos 19%
dos internos são reincidentes 9
rebeliões foram registradas neste ano no Complexo do Tatuapé,
ou uma a cada seis dias 6
fugas ocorreram na Febem do Tatuapé desde janeiro. Escaparam 99
internos e 53 foram recapturados 40
000 pessoas moram no Belém, onde fica o Complexo do Tatuapé
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| Dicionário dos internos Bonde:
apelido do boletim de ocorrência. Os infratores que fazem 18 anos na
Febem morrem de medo dele se forem autuados, saem de lá e vão
para uma prisão comum Couro: surra
que os menores levam de monitores, seguranças ou de outros internos Jumbo:
a comida que a família manda Mundão:
é o lado de fora da Febem. "Esses ainda têm cheiro de mundão",
dizem os veteranos sobre os recém-chegados Tranca:
quem se envolve em rebeliões, discussões e brigas vai para a
tranca, ou seja, fica até cinco dias sem poder jogar bola ou assistir às
aulas |
| "Dia de rebelião é
a maior adrenalina" Interno
há quatro meses da unidade 1 do Tatuapé, A.M.G., de 18 anos, conta
como é viver ali
Mario Rodrigues  |
Como você foi preso?
Foi 159, seqüestro. Peguei duas meninas saindo da casa delas. Seqüestro-relâmpago.
Eram 3 da tarde. Eu estava no carro com elas quando a polícia chegou.
Você conhecia essas meninas?
Não, mas sabia que uma delas era gerente de joalheria.
Foi seu primeiro crime? Não. Eu já
tinha roubado um carro. O que
fez com o dinheiro? Tudo o que vem fácil vai fácil. Gastei
tudo em rolê, na balada. Como
é um dia de rebelião? É a maior adrenalina, dá
uma sensação estranha. Na última, eu não fui para
o pátio, me escondi numa sala. Fiquei com medo de morrer.
E sua vida aqui... Tento aprender alguma coisa,
não fazer disso um tempo perdido. Agora estou construindo esse barco na
aula de artesanato. Vou dar para o meu tio. Ele torce para o São Paulo,
como eu. Tem planos para quando
sair? Quero trabalhar. O
que você costumava fazer antes de ser preso? Ia bastante ao Shopping
Interlagos. Uma vez ou outra eu colava no Parque do Ibirapuera. |
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