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PERFIL Desprezado
pelos críticos, adorado pelos colunáveis Prestes
a se mudar para uma nova galeria de 500 metros quadrados nos Jardins, o artista
plástico Gustavo Rosa comemora o sucesso de suas telas coloridas e bem-humoradas.
Elas passam longe dos museus, mas caíram no gosto de endinheirados paulistanos
Marcella Centofanti Mario
Rodrigues
 | | Gustavo
Rosa, na sala de sua casa no Jardim Paulista: "Não dou conta de tanto pedido" |
Está
vendo a gordinha aí ao lado, montada numa bicicleta, levando frutas e o
livro de receitas da empresária Lucilia Diniz? É a própria.
Lucilia, que chegou a pesar 120 quilos e penou bravamente para emagrecer, não
se incomoda com as formas roliças da figura. Ao contrário, adora.
"Encaro como uma espécie de homenagem aos meus tempos de obesa", diz ela.
No Natal de 2002, de tão satisfeita, encomendou ao mesmo pintor dez obras
de uma vez só, uma delas para presentear a amiga Hebe Camargo. A tela,
que mostra a apresentadora sentada num sofá branco, está pendurada
na casa dela. Com essa fórmula bem-sucedida doses de humor, referências
óbvias e cores, muuuitas cores , o artista plástico paulistano
Gustavo Rosa, de 58 anos, arrebatou uma legião de fãs na cidade,
entre socialites, celebridades, empresários e colunáveis em geral.
É um filão e tanto. A mais baratinha de suas telas não sai
por menos de 11.000 reais. Não que ele seja, assim, um artista com A maiúsculo.
Seus quadros não estão expostos em museus e jamais participaram
de Bienais, dentro ou fora do país. "Optei por pintar, não por fazer
política, e não me arrependo", diz ele. "Tem gente cheia de Bienais
no currículo morrendo de fome." Por causa dos traços arredondados,
os fãs de Rosa gostam de compará-lo ao artista colombiano Fernando
Botero. Um exagero, claro. Para os especialistas que não costumam
ter a obra de Botero em boa conta, diga-se , o brasileiro está numa
categoria bem inferior. Suas raras exposições (a última foi
em 2003) nem sequer recebem a visita de críticos.
Gustavo Rosa corre por fora no mercado das artes plásticas de São
Paulo. Sem o apoio de marchands ou galeristas, ele negocia diretamente com sua
clientela estrelada no ateliê que montou na sala da casa em que vive, no
Jardim Paulista. Com isso, fica livre de pagar a comissão de 30% dos intermediários.
Nem precisaria deles. Cercado de amigos influentes, circula livremente entre os
ricos paulistanos. A personalidade expansiva e o papo agradável ajudam
a vender seu peixe. Fã assumida, a primeira-dama do estado, Lu Alckmin,
revelou numa entrevista em 2002 que gostaria muito de comprar um quadro dele.
Vários bajuladores aligeiraram-se para atender a seu desejo. Mas o marketing
apurado de Rosa falou mais alto, e ele próprio ofereceu o mimo. "Gosto
de sua obra porque é bem-humorada, alegre e colorida", afirma dona Lu,
colecionadora de cinco Rosa, todos expostos no Palácio dos Bandeirantes.
Entre seus favoritos está o Pão-de-Lu, que mostra um pão
francês pintado sobre um guardanapo quadriculado, referência ao projeto
de padarias artesanais do Fundo Social de Solidariedade, presidido por ela. Graças
ao apreço da primeira-dama, uma pintura do artista acabou pendurada na
sala de TV do Palácio Boa Vista, residência oficial do governador
em Campos do Jordão. Está ao lado de nomes consagrados como Tarsila
do Amaral, Portinari, Di Cavalcanti e Anita Malfatti.
Nos últimos anos, Rosa tem recebido uma enxurrada de encomendas, muitas
para presente. Bia Doria, atual embaixadora da Dior no Brasil, ganhou do marido,
o empresário João Doria Jr., uma tela de aniversário. Na
casa da família, há trabalhos dele na sala, no corredor, no quarto
do casal e até na porta dos banheiros. O jogador Ronaldo e a modelo Daniella
Cicarelli teriam recebido de uma empresa um quadro para celebrar seu casamento.
Mas o enlace-relâmpago terminou antes que a encomenda fosse entregue. "Eu
nem queria fazer, porque sabia que a relação ia acabar logo", ele
jura. Agora, o quadro está micado em seu ateliê. "Ainda vou pensar
num jeito de salvá-lo." Talvez Rosa use
o mesmo recurso que resolveu um problema do empresário José Victor
Oliva, dono de um painel que mostra um avião levando passageiros famosos.
A tela, que fez incrível sucesso na boate Gallery durante os anos 1980,
seu período de glória, foi modificada no ano retrasado, a pedido
de Oliva. "Ele pediu que eu apagasse a Hortência, porque sua atual mulher
tinha ciúme", revela. Assim foi feito. No lugar da ex-rainha do basquete,
com quem Oliva era casado, surgiu a carinha do maestro Diogo Pacheco. "O Diogo
me atazanava para entrar no avião", lembra Rosa. A empresária Donata
Meirelles e o publicitário Nizan Guanaes ganharam uma pintura quando se
casaram. A imagem do casal na praia, ele com uma camisa florida e ela com uma
sacola da Daslu, da qual é diretora, está em Trancoso, no litoral
baiano. "Combinou direitinho com o tom azul de nossa casa", explica Donata. Mario
Rodrigues
 | | À
frente do novo ateliê, na esquina das ruas Groenlândia e Veneza: "Estou para ver
um pintor mais versátil do que eu" |
Para
alguns, decorar é a única função do trabalho de Gustavo
Rosa. "Os quadros são mais ornamentais que artísticos", afirma o
crítico Tadeu Chiarelli. "Têm uma aceitação imediata
e podem ficar no hall de um edifício ou na parede de um escritório."
Para o também crítico Alberto Beuttenmüller, as telas agradam
sobretudo a quem não entende de arte. "Gustavo Rosa optou pelo êxito
fácil, o que não é certo nem errado. Mas será punido
pela escolha no futuro", entende Beuttenmüller. "Seu nome não entrará
para a história da arte brasileira ou mesmo regional." Outros quatro críticos
ouvidos por Veja São Paulo recusaram-se a dar declarações.
Para eles, o artista "está abaixo da crítica". Dos sete entrevistados,
apenas Jacob Klintowitz saiu em sua defesa. "Faz sucesso, em primeiro lugar, porque
ele é um excelente pintor", afirma. "Em segundo, porque sua obra é
dotada de humor." Mesmo entre decoradores, há
quem rechace seus traços. "As pessoas acham engraçado, mas para
mim é apenas um trabalho gráfico infantil", alfineta Sig Bergamin.
"O marketing dele é maior que a qualidade." Rosa desdenha e explica que
decoradores preferem trabalhos abstratos, "rabiscos sem graça nenhuma",
para não interferir no ambiente. Sente-se um injustiçado. Credita
o mau humor dos críticos a seu sucesso. "Não é por nada,
mas estou para ver um pintor mais versátil do que eu", diz, sem modéstia.
Rosa pinta um óleo por semana. Poderia produzir mais. "Não dou conta
de tanto pedido", garante. Em seus quadros, o tamanho determina o preço.
O menor, de 40 por 50 centímetros, custa 11.000 reais, e o maior, de 2
por 2,4 metros, 60.000 reais (o mesmo que se paga por uma aquarela dos anos 1920
do importante pintor pernambucano Cícero Dias). Foi numa dessas telas grandalhonas
que o técnico de futebol Emerson Leão encomendou um retrato de sua
família. Será sua nona obra assinada por ele. Segundo o marchand
Renato Magalhães Gouveia Júnior, o preço está inflacionado.
Em leilões onde, por sinal, Rosa goza de grande aceitação
não se costumam pagar mais de 12.000 reais por um de seus óleos.
"Os quadros podem agradar ao comprador, mas não valem como investimento",
afirma. Sem ligar para as críticas, o pintor
prepara-se para dar um grande passo nos negócios. Ele pretende transferir
seu ateliê ainda neste mês para uma construção de 500
metros quadrados e 9 metros de pé-direito na esquina das ruas Groenlândia
e Veneza, no Jardim Paulista. Pelo preço dos quadros e pelo perfil dos
compradores, o lugar, numa referência à loja Daslu, já está
sendo chamado de Daslarte. O mesmo espaço abrigará uma galeria e
uma molduraria. No terreno ao lado, que ele também comprou, vai erguer
sua nova casa. "Não recebi herança. O que tenho é graças
às mãozinhas de Gustavo Rosa", diz ele, que gosta de referir-se
a si mesmo na terceira pessoa. Solteiro, sem filhos e sem animais de estimação,
vive sozinho na casa projetada pela arquiteta Patricia Anastassiadis. Tem dois
carros, uma Mitsubishi Pajero ("Para trabalhar") e uma BMW série 3 ("Para
sair com a namorada"). Rosa adora falar de suas conquistas amorosas. "Namorei
todo tipo de mulher, rica, pobre, intelectual, famosa, anônima...", gaba-se
o dom-juan das paletas. Duas ex enfeitam porta-retratos expostos na sala: a atriz
Mila Moreira e a sumida apresentadora Doris Giesse. Além delas, há
fotos do pintor todo pimpão ao lado de Ana Maria Braga, Lu Alckmin, Milú
Villela, Antonio Carlos Magalhães, Ruth Cardoso e Viviane Senna.
Aos trancos e barrancos, o artista concluiu apenas a oitava série. Na pintura,
é autodidata. Teve fases romântica e geométrica, até
começar a desenhar as chamadas obras dirigidas, uns 25 anos atrás.
Encontrou, então, seu pote de ouro. Em 1994, tentou a sorte nos Estados
Unidos ao lançar uma grife com roupões, jogos americanos e camisetas,
vendidos em lojas de departamentos como Bloomingdale's e Saks. O negócio
não prosperou. Nos últimos anos, engordou a conta bancária
com diversos trabalhos institucionais. Além de quadros, fez capas de caderno,
xícaras e pratos. "Encomendas de empresas abrem os horizontes e são
um desafio ao intelecto", acredita ele, que pintou o teto da lanchonete New Dog,
no Itaim Bibi. No novo ateliê, quer vender porta-lápis, copos, pequenas
esculturas e sofás. Embora esteja embalando os pincéis para se mudar,
a inauguração oficial deve ocorrer no segundo semestre, em mais
de um evento. Rosa afirma ter tantos amigos e clientes que eles não caberiam
todos numa festa só. 
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