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CRÔNICA
Ursinhos e pré-datados Walcyr Carrasco
Resolvi
comprar um caderno. Missão quase impossível, tal o número
de pais, mães e pimpolhos se engalfinhando na papelaria. Queria um caderno
bem comum. Talvez até uma brochura daquelas antigas, que a gente amassa
sem remorso. Só para anotações. Confesso: poucos lugares
são tão fascinantes quanto uma papelaria. Lápis, canetas,
borrachas de todas as cores, blocos, bastões para colorir, clipes coloridos
etc. etc. enchem os olhos. Também esvaziam os bolsos, como pude constatar
diante de algumas crises familiares. Mamãe,
quero o caderno do ursinho! Não,
este aqui é muito caro. Veja a lista de material, não sou milionária.
O uuuuuuuuurrrrrrrrrrrrrrrrrssssssiiiiiiiiinnnnnho!
Constrangido, procurei um vendedor.
Preciso de um caderno.
Temos este aqui do ursinho, tem muita saída.
Observei a capa com os peludinhos sorridentes. Não parecia muito adequado
a um senhor com aparência séria como eu. Perguntei sobre as opções.
O vendedor apresentou-me um com uma boneca loira. Outro com um surfista no alto
de uma onda. Personagens de desenho animado. Apresentadora de TV. E os preços?
São especiais! suspirou o
vendedor. Custam um pouco mais por causa dos royalties sobre os personagens
das capas. Hoje em dia a molecada faz até piada de quem não tem
um caderno na moda. Observei um pai tentando arrancar
uma pilha de cadernetas com a boneca das mãos da filhinha. Outra criança
tentava fugir com uma caixa de lápis de cor.
Vamos ficar com estes aqui, menorzinhos bradava a mãe, tentando
salvar as finanças do mês. No fim
da prateleira havia um espiral de capa preta. Apontei. O vendedor torceu o nariz,
incrédulo. Este aqui? Quase não
compram. Custava aproximadamente um terço
do preço dos outros! Ao me dirigir ao caixa, deparei com uma mochilinha
cor-de-rosa. Na frente, o aviso: "Aperte aqui". Estiquei o dedo, é claro.
Imediatamente, a aba acendeu. Uma série de coraçõezinhos
começou a piscar. A vendedora aproximou-se.
Não é linda? É, sim
concordei educadamente. Abriu a mochila.
Cabe muita coisa, e o preço está
ótimo. Mas, mas...
Também pode levar os caderninhos com capa cor-de-rosa combinando.
Mocinha, eu não vou ficar bem de mochila rosada.
Ainda mais piscando! Afastou-se rapidamente,
em busca de pais indefesos. Permaneci observando, surpreso. Como nunca, material
escolar virou objeto de consumo. Moda! É chato falar que no meu tempo era
diferente. Coisa de rabugento. Mas era. Ainda me lembro da magia ao receber um
pacote de cadernos das mãos de minha mãe. As canetas. Lápis,
borrachas, lápis de cor. Comuns. Os cadernos, eu mesmo encapava com papel
pardo, um a um. Tornavam-se encantadores pelo que simbolizavam. Iniciava-se um
ano escolar. Um recomeço. Nova etapa. Eu sonhava. Dali a alguns anos, teria
bigodes! Outros mais, estaria na faculdade! Cadernos, lancheiras, pastas, mochilas
não valiam pela aparência externa. E sim pelo significado!
Talvez seja mesmo rabugice. Dá uma sensação estranha ver
o material escolar a preço tão alto por causa de royalties. Não
seria melhor gastar o dinheiro em livros que complementassem a educação
do que no consumo momentâneo? Na minha frente,
no caixa, um senhor assinava três cheques pré-datados. A filha veio
correndo com um jogo de canetas coloridas. Sem jeito, ele avisou:
Filhinha, hoje não dá. Deixa para depois.
A menina foi embora decepcionada, porque criança é criança.
O pai terminou de assinar com expressão preocupada.
Juro, me cortou o coração.
e-mail: walcyr@abril.com.br
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