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8 de fevereiro de 2006
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Ursinhos e pré-datados

Walcyr Carrasco

Resolvi comprar um caderno. Missão quase impossível, tal o número de pais, mães e pimpolhos se engalfinhando na papelaria. Queria um caderno bem comum. Talvez até uma brochura daquelas antigas, que a gente amassa sem remorso. Só para anotações. Confesso: poucos lugares são tão fascinantes quanto uma papelaria. Lápis, canetas, borrachas de todas as cores, blocos, bastões para colorir, clipes coloridos etc. etc. enchem os olhos. Também esvaziam os bolsos, como pude constatar diante de algumas crises familiares.

– Mamãe, quero o caderno do ursinho!

– Não, este aqui é muito caro. Veja a lista de material, não sou milionária.

– O uuuuuuuuurrrrrrrrrrrrrrrrrssssssiiiiiiiiinnnnnho!

Constrangido, procurei um vendedor.

– Preciso de um caderno.

– Temos este aqui do ursinho, tem muita saída.

Observei a capa com os peludinhos sorridentes. Não parecia muito adequado a um senhor com aparência séria como eu. Perguntei sobre as opções. O vendedor apresentou-me um com uma boneca loira. Outro com um surfista no alto de uma onda. Personagens de desenho animado. Apresentadora de TV. E os preços?

– São especiais! – suspirou o vendedor. – Custam um pouco mais por causa dos royalties sobre os personagens das capas. Hoje em dia a molecada faz até piada de quem não tem um caderno na moda.

Observei um pai tentando arrancar uma pilha de cadernetas com a boneca das mãos da filhinha. Outra criança tentava fugir com uma caixa de lápis de cor.

– Vamos ficar com estes aqui, menorzinhos – bradava a mãe, tentando salvar as finanças do mês.

No fim da prateleira havia um espiral de capa preta. Apontei. O vendedor torceu o nariz, incrédulo.

– Este aqui? Quase não compram.

Custava aproximadamente um terço do preço dos outros! Ao me dirigir ao caixa, deparei com uma mochilinha cor-de-rosa. Na frente, o aviso: "Aperte aqui". Estiquei o dedo, é claro. Imediatamente, a aba acendeu. Uma série de coraçõezinhos começou a piscar. A vendedora aproximou-se.

– Não é linda?

– É, sim – concordei educadamente.

Abriu a mochila.

– Cabe muita coisa, e o preço está ótimo.

– Mas, mas...

– Também pode levar os caderninhos com capa cor-de-rosa combinando.

– Mocinha, eu não vou ficar bem de mochila rosada. Ainda mais piscando!

Afastou-se rapidamente, em busca de pais indefesos. Permaneci observando, surpreso. Como nunca, material escolar virou objeto de consumo. Moda! É chato falar que no meu tempo era diferente. Coisa de rabugento. Mas era. Ainda me lembro da magia ao receber um pacote de cadernos das mãos de minha mãe. As canetas. Lápis, borrachas, lápis de cor. Comuns. Os cadernos, eu mesmo encapava com papel pardo, um a um. Tornavam-se encantadores pelo que simbolizavam. Iniciava-se um ano escolar. Um recomeço. Nova etapa. Eu sonhava. Dali a alguns anos, teria bigodes! Outros mais, estaria na faculdade! Cadernos, lancheiras, pastas, mochilas não valiam pela aparência externa. E sim pelo significado!

Talvez seja mesmo rabugice. Dá uma sensação estranha ver o material escolar a preço tão alto por causa de royalties. Não seria melhor gastar o dinheiro em livros que complementassem a educação do que no consumo momentâneo?

Na minha frente, no caixa, um senhor assinava três cheques pré-datados. A filha veio correndo com um jogo de canetas coloridas. Sem jeito, ele avisou:

– Filhinha, hoje não dá. Deixa para depois.

A menina foi embora decepcionada, porque criança é criança. O pai terminou de assinar com expressão preocupada.

Juro, me cortou o coração.

e-mail: walcyr@abril.com.br

     
   
 
 
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