Publicidade
 

 
 
 


8 de janeiro de 2003
LITORAL
TEATRO
AMBIENTE
DINHEIRO
COMIDA
CIDADE
TERRAÇO PAULISTANO
AS BOAS COMPRAS
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
   

LITORAL

A volta do Guarujá

Novos calçadões, praias limpas e
acesso facilitado fazem do
balneário
uma boa opção de férias

Maria Rita Alonso


Heudes Regis
Praia das Astúrias: 1 milhão de turistas são esperados nesta temporada



Veja também
Galeria de fotos

Site da Prefeitura Municipal do Guarujá

Não havia balneário mais chique em São Paulo do que o Guarujá. Era lá que os paulistanos ricos, hospedados nos elegantes edifícios modernistas à beira-mar, curtiam as férias até meados da década de 70. Nos últimos vinte anos, no entanto, ocorreu uma revoada de endinheirados para o Litoral Norte. O Guarujá, apinhado de prédios e explorado sem dó pela especulação imobiliária, sentiu o golpe. Amargou as temporadas de 1996 e 1997 com o emissário submarino quebrado e as praias imundas. Deixou de fazer jus a seu velho apelido de Pérola do Atlântico.A situação não é mais essa. Quem chega a Pitangueiras, a praia central e mais movimentada, percebe logo uma cidade de cara nova. Os calçadões, as ciclovias e os canteiros estão zero-quilômetro. E esse é só o primeiro sinal. Todas as suas 22 praias hoje são consideradas limpas e próprias para o banho. "Neste início de verão, a qualidade da água está tão boa quanto a das praias de São Sebastião", garante Lineu José Bassoi, gerente de recursos hídricos da Cetesb. "Mas só vamos saber se o trabalho foi bem-feito e se trouxe resultados efetivos quando a invasão de turistas estiver no auge."


Heudes Regis
Hóspedes do Casa Grande Hotel, na piscina do spa: há trinta anos recebendo endinheirados

É mesmo uma invasão. Localizado a 88 quilômetros da capital, o Guarujá teve sua principal via de acesso ampliada com a abertura da nova pista da Rodovia dos Imigrantes. Estima-se que na atual temporada o balneário vá receber 1 milhão de pessoas. No ano passado, foram 700.000. Entre o Natal e o Ano-Novo, as praias ficaram apinhadas de guarda-sóis e devem continuar assim até o Carnaval (a Terça-Feira Gorda cairá no dia 4 de março). Os veranistas estão encontrando boa parte da orla reurbanizada. Não era sem tempo. O piso esburacado de mosaico português e os deques de madeira, que já estavam podres, foram trocados por um calçadão que se estende pelos 2 quilômetros da Praia de Pitangueiras. Ali, uma grande praça com um estrambólico chafariz e golfinhos esculpidos em bronze (algo exagerado, diga-se) dão as boas-vindas aos turistas. A reforma alcançou também outros 3 quilômetros da Enseada, a maior de suas praias, com 6,5 quilômetros de extensão. Nela foi feita ainda uma ciclovia. Não se vêem mais por lá barracas mal-ajambradas e com cheiro de fritura. Em seu lugar, cinqüenta quiosques bem montados servem petiscos, cervejas, sucos e água-de-coco. Na Avenida Dom Pedro I, que corre paralela à rua da praia, 74 coqueiros imperiais, cada um com 4 metros de altura, dão um ar de imponência ao ambiente.

Heudes Regis
Simmioni (à esq.) e a tropa de surfistas que dão aulas na praia: berço do esporte no país

Mudança maior aconteceu na Praia do Tombo, que estava mal-cuidada e muito poluída. "Hoje em dia a situação é mil vezes melhor", diz a estudante Mariana Klockner, uma freqüentadora assídua. "O Guarujá cresceu muito e ficou mais bonito, com cara de cidade grande", acha Sarah Oliveira, VJ da MTV, que passou as férias na cidade durante sua adolescência. Segundo dados da prefeitura, nos últimos dez anos foram investidos cerca de 10 milhões de reais no processo de reurbanização. Tudo é feito por meio de parcerias com a iniciativa privada. No ano passado, a Rede Globo ajudou a bancar uma arena esportiva na Enseada, onde haverá campeonatos de futebol de areia. A arena fica próxima ao tradicional Casa Grande Hotel, que há trinta anos hospeda gente abonada. "O hotel investiu 250.000 reais para construir uma praça bem em frente às suas instalações e 3 milhões de reais em um centro de exposições de 4.000 metros quadrados", diz a gerente de marketing Sueli Cogos. Durante este mês de janeiro funciona no hotel um shopping de verão, com lojas de grifes, como a M.Officer. O Casa Grande, que dispõe de 263 apartamentos e três chalés (as diárias com café-da-manhã chegam a custar 866 reais para um casal), tem restaurantes, bar, boate e um spa abertos ao público em geral.

Heudes Regis
Um dos 160 salva-vidas: queda no número de afogamentos


Heudes Regis
As estudantes Mariana e Beatriz Klockner, na Praia do Tombo: "Mil vezes melhor"


Mesmo com um apartamento montado na Praia de Pitangueiras, a empresária Lucília Diniz prefere hospedar-se no hotel. "No Guarujá, a gente encontra o DNA do luxo", acredita. "Por isso, jamais o abandonei para ficar em Maresias ou em outra praia do Litoral Norte. Não existe comparação em termos de conforto." A cidade não é daquelas em que, quando chove, não se tem mais nada para fazer. Há grande variedade de cenários e, seguramente, uma das melhores infra-estruturas do litoral. Não faltam lugares para badalar, namorar, descansar, comer bem e praticar esportes. No Morro do Maluf, um grupo orientado por especialistas pratica escalada nos fins de semana. Na Ponta do Tortuga é fácil (e caro) alugar um jet-ski (60 reais por quinze minutos). Depois das 5 da tarde, a areia está liberada para jogos de vôlei, frescobol e futebol.


Heudes Regis
A paulistana Caroline, que se mudou para a ilha: população cresceu 40% em dez anos


Heudes Regis
Lucília Diniz, no novo calçadão: "Aqui está o DNA do luxo"


Na Praia do Tombo, ponto de encontro dos surfistas, foi construído um mirante para os jurados assistirem aos campeonatos. É lá que funciona a maior fábrica de pranchas do país. "O Guarujá é um dos berços do esporte e conta com seis escolas de surfe pela costa", diz o professor Giovani Simmioni. Com aulas dentro e fora da água, Simmioni ensina o básico para quem quer pegar onda sem dar vexame. "É uma experiência incrível", afirma a paulistana Caroline Furtado Nobre, de 17 anos, com um longboard debaixo do braço. Faz um ano que Caroline se mudou para o Guarujá. Foi cursar faculdade de direito na Unaerp, uma universidade de Ribeirão Preto que em 1999 inaugurou um campus na Praia da Enseada. "Estou adorando viver aqui."

O Guarujá é uma ilha. Fica separado de Santos pelo canal de entrada dos navios que se dirigem ao porto. Nos últimos dez anos, sua população aumentou. Hoje são 275.000 habitantes, 40% a mais que em 1992. A maioria não vive nos elegantes edifícios modernistas erguidos junto à orla, mas em bairros distantes, vilas e 58 favelas que tomam os morros e as áreas aterradas de mangue. Há explicações para o inchaço do município. Fundado no início do século XX, o Guarujá era o destino favorito dos veranistas que, além do sol, iam atrás das mesas de roleta e bacará de seu famoso cassino, fechado quando o jogo foi proibido no Brasil, em 1946. Nos anos 70 houve a explosão imobiliária. Migrantes nordestinos chegaram atraídos pelos empregos na construção civil. Surgiram favelas, as praias se encheram além da conta, cessaram os investimentos e os problemas começaram. Veranistas com dinheiro foram para o Litoral Norte.

Heudes Regis
A VJ Sarah Oliveira: "Com cara de cidade grande"


"Comemos o pão que o diabo amassou, mas conseguimos trazer nossos turistas de volta", diz o prefeito Maurici Mariano, que está em seu terceiro mandato. "Meu objetivo agora é transformar a base aérea em aeroporto até o fim de 2004." Para tentar diminuir os problemas de segurança, a prefeitura criou a guarda municipal, com um efetivo de 350 homens, quase todos espalhados pela orla. O número de salva-vidas igualmente cresceu. Pulou de noventa para 160. Graças a sua ação preventiva, os afogamentos vêm caindo nos últimos anos. Uma lei municipal proíbe a entrada de ônibus de excursão se os passageiros não comprovarem que têm onde ficar hospedados. Diante dessas mudanças, os imóveis, antes desvalorizados, recuperaram o valor. Um apartamento de quatro quartos com vista para o mar não sai por menos de 350.000 reais. Há cinco anos, o mesmo imóvel não alcançava mais que 215.000 reais. Passar as férias no Guarujá custa menos que no Litoral Norte. O aluguel de um apartamento de um quarto na Praia das Astúrias ou na Enseada (a lei municipal não permite a construção de quitinetes) fica entre 60 e 90 reais por dia. Em Camburi, um chalé do mesmo tamanho custa o dobro. Em Pitangueiras, apartamentos de dois e até três dormitórios são oferecidos por 250 reais diários. "Como o Guarujá se revitalizou e o acesso ficou facilitado, muitos proprietários de imóveis resolveram descer e a oferta diminuiu consideravelmente", conta o corretor Caio Borges, dono de uma das imobiliárias mais antigas da ilha.

Com tudo isso, a cidade voltou a ser uma boa opção para o verão. Uma grande queima de fogos na Praia de Pitangueiras fechou 2002 em clima de euforia. As praias ficaram completamente tomadas. No primeiro dia do ano, um batalhão de lixeiros começou logo cedo a limpeza nas areias. Nesta temporada, o Guarujá se esforça para que voltem a chamá-lo, como no passado, de Pérola do Atlântico.

 

O QUE HÁ DE MELHOR

Ilustração Dalcio


Pegar sol com tranqüilidade na Praia de Pernambuco, das 9 às 11h30 da manhã.

Assistir ao pôr-do-sol, tomando água-de-coco, no canto do Morro do Maluf, com sua bela vista da Praia das Pitangueiras.

Paquerar surfistas parafinados ou gatas saradas na Praia do Tombo.

As especialidades dos três melhores restaurantes da ilha: a mariscada do Joca, o camarão do Dalmo Bárbaro e os peixes do Rufino's.

Percorrer a orla da cidade, num passeio de barco ao redor da ilha.

Contar com amigos que tenham casa em praias exclusivas, como Iporanga, para que liberem a entrada na portaria.

O chope bem tirado do Rudy's, na agitada Rua Rio de Janeiro.

 

O QUE HÁ DE PIOR

Ilustração Dalcio


Ter de escutar o pagode no último volume do carro vizinho, parado num congestionamento da Praia das Pitangueiras.

Pegar uma fila de horas, dentro do carro, para conseguir entrar na Praia Sítio São Pedro, que tem acesso controlado pelo luxuoso condomínio.

A desconfortável sensação de pisar na água amarelada que ainda sai dos canais e desemboca na Praia da Enseada.

A agitadíssima Praia do Guaiúba, aos domingos, um dos pontos favoritos dos turistas de um dia.

O cheiro de peixe da Praia do Perequê, reduto de pescadores.

Dar uma volta em um dos três shoppings da cidade lotados em dia de chuva.

Os vendedores ambulantes que se espalham pelas praias.

 

Atrações para as crianças

Fotos de Leo Feltran e Heudes Régis
O aquário, com 270 espécies, e o museu Heureka!: dois programas legais

Aonde levar as crianças no Guarujá? Além da praia, que já é pura diversão, há dois parques temáticos que valem a viagem: o Acqua Mundo e o Heureka! Exploratorium. O primeiro é um superaquário com 27 tanques de água salgada e oito de água doce. Considerado o maior da América do Sul, reúne 270 espécies. Tem polvo, jacaré, pingüim da Patagônia, tartaruga, tubarão... A novidade da estação é um lobo-marinho. No Heureka!, os visitantes podem interagir e participar de experimentos científicos, como a engenhoca Loconauta Giroscópio Humano, que simula a falta de gravidade. No laboratório lúdico, há outras 130 instalações. Uma das que provocam maior fila de espera é o gerador de eletrostática, que deixa a criançada literalmente de cabelos em pé. Tudo é acompanhado de perto por monitores, que procuram dar explicações técnicas em linguagem simplificada.

Acqua Mundo, Avenida Miguel Stéfano, 2001, Praia da Enseada, Guarujá, (13) 3351-8867. 10h/22h. R$ 7,00 (crianças até 12 anos) e R$ 10,00.

Heureka! Exploratorium, Avenida Marechal Deodoro da Fonseca, 1096, Praia das Pitangueiras, Guarujá, (13) 3384-3050. 15h/22h (fecha seg.). R$ 5,00 (até 14 anos) e R$ 9,00.

 

Refúgios dos milionários

Renata Ursaia
Heudes Regis
Condomínio Tijucopava e Iate Clube: os Safra e os Setúbal continuam lá

Nesta temporada, cada cantinho de areia das praias mais conhecidas do Guarujá estará ocupado. Mas só das mais conhecidas. Ao norte da costa guarujaense, encravadas na Serra do Guaraú, quatro praias exclusivas preservam o glamour e a tranqüilidade de outros tempos. O acesso a elas é feito desde o início da década de 80 por estradinhas controladas pelos condomínios Iporanga, Tijucopava e Sítio São Pedro. Há três anos, foi inaugurado mais um condomínio de altíssimo padrão, o Taguaíba, com apenas cinco casas (cada uma avaliada em 2 milhões de reais). Os seguranças só permitem a entrada de visitantes caso os dois estacionamentos coletivos disponíveis não estejam lotados. Existem 280 vagas. Boa parcela dos proprietários, como o empresário Tufi Duek, dono da Forum, e o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, costuma chegar ali de helicóptero. As famílias Safra, Setúbal e Diniz conservam suas mansões no condomínio Península, localizado na Praia da Enseada. Parte desses veranistas freqüenta o Clube Samambaia e o Iate Clube de Santos (que, apesar do nome, fica no Guarujá). O apresentador Silvio Santos sonha montar um hotel-cassino, se um dia o jogo for novamente legalizado no Brasil, num terreno de 77 000 metros quadrados de frente para o mar que possui no condomínio Jardim Acapulco, na Praia de Pernambuco. Se conseguir, será uma volta às origens. No passado, funcionava ali um luxuoso cassino que atraía milionários ao Guarujá.

         
     
 
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | VEJA Noite São Paulo
copyright © 2002 . Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados