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8 de janeiro de 2003
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CRÔNICA

O tempo e a memória

Um ursinho, amigos que se
foram e a foto de um bebê

Walcyr Carrasco

Outro dia observei uma foto minha quando bebê. Um garoto gordinho, de chocalho na mão. Sei que sou eu. Ao mesmo tempo existe um certo estranhamento. Não me lembro de quando andava de gatinhas. Abro um livro da minha infância. Alice no País das Maravilhas. As ilustrações em preto-e-branco estão pintadas com lápis de cor. Fui eu! Tive um ursinho de pelúcia, também. Não sei onde foi parar. Decidido a ser médico, eu lhe aplicava injeções. Acabou destruído, o coitado! Eu adorava o ursinho, como o deixei desaparecer?

O início de um novo ano é simbólico. Sempre se faz uma certa retrospectiva. Flashes passam pela minha cabeça. Um ano-novo em Ubatuba, quando eu era adolescente. Uma festa agitada. Andava com uma turma da qual não tenho mais notícia. Havia uma carioca, chamada Marcy. Só a conheci naquela passagem de ano... ou terá sido na seguinte, em Parati? Entre meus guardados, há uma foto da garota. Um sorriso enorme. Não soube mais dela. Sua alegria, nunca esqueci. Tento imaginar. Como estará agora, uma mulher madura, com filhos? O que a vida lhe reservou? Um marido, uma separação? Terá ido viver fora do país? O sorriso permanece o mesmo?

Tive um grande amigo, Nélson, lá pelos 20 anos. Artista gráfico. Passei dois anos vivendo fora do país. Só nos escrevemos no começo. Quando voltei, perguntei dele a conhecidos comuns.

– Sumiu. De um dia para o outro não se teve mais notícia.

A mulher procurou por todo lado. Foi na época da ditadura militar. Nunca soube que tivesse envolvimento político. Seria um segredo seu? Ou simplesmente largou tudo? Saiu de casa para ir ao cinema e nunca mais voltou? A pergunta dói. Sumiu ou foi sumido?

E minha amiga Malu, psicóloga? Íamos dançar sempre. Não perdíamos festas. Só a vi muito tempo atrás, em um lançamento de livro. Beijou-me e pediu:

– Não desapareça.

Prometi ligar na semana seguinte. Há anos. Resta a vaga informação de que ela fez doutorado. Será que ainda dança? Outro psicólogo, o Ercílio. Gostava de psicodrama. Continuará acreditando em um modo de vida alternativo? Ou se transformou em um homem formal?

Há gente que nos acompanha a vida toda. Tenho uma amiga desde a infância. Não nos falamos muito. Outro dia, depois de uns cinco anos, ela me ligou.

– Estou com um problema afetivo. Preciso de um conselho e só tenho você a quem recorrer.

Ficamos duas horas no telefone. No final, agradeceu, aliviada.

– É bom ter com quem falar.

Passo anos sem ver o Pérsio e o Raul, a Sônia e a Míriam. Se nos encontramos, começamos a conversar, como se tivéssemos nos visto na noite anterior. Certas amizades são assim, não? A gente fica um tempo enorme sem se ver. Quando se encontra, retoma do ponto em que parou.

Não consigo deixar de pensar, ao começar um ano, nas coisas que poderia ter feito. Quis ser pintor, e há uma tela horrenda que perpetrei aos 11 anos. Médico. Leitor de tarô. Fica uma certa lamentação pelos amigos que nunca mais vi. Por tudo que poderíamos ter vivido juntos. Também, outras pessoas entraram na minha vida. Olhando em torno, eu penso que essa é a grande vantagem dos anos. A gente forma famílias não só de sangue. Mas de pessoas que nos acompanham, de perto ou de longe, sempre em um cantinho do coração. Vejo a foto de um bebê que fui eu. Pergunto-me:

– A vida é apenas uma grande recordação?

Vem a resposta, como se o bebê da foto conversasse comigo.

– É uma continuidade. Você de hoje é fruto do de ontem.

Sorrio. A entrada de um novo ano mostra que a vida continua. Passado, presente e futuro se misturam, com muita coisa boa para acontecer.

         
     
 
 
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