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8 de janeiro de 2003
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CIDADE

Avenida pede socorro

Prefeitura promete, novamente,
revitalizar
a cada vez mais suja e
deteriorada Santo Amaro

Erika Sallum

Mario Rodrigues
Realidade e esperança: casas abandonadas da Santo Amaro e, ao fundo, um dos modernos edifícios que estão sendo erguidos na vizinhança

A vizinhança é toda estrelada. De um lado, Pinheiros, Itaim e Vila Olímpia. Do outro, Jardim Paulista, Moema e Vila Nova Conceição. São bairros onde o metro quadrado chega a custar 10.000 reais. Apesar do entorno valorizado, a Avenida Santo Amaro (metro quadrado a 600 reais, em média), entra ano, sai ano, sofre com a deterioração e o descaso há quase duas décadas. Numa das maiores avenidas da cidade, com 7,7 quilômetros de extensão, o que se vê é um espetáculo de pavor a céu aberto: muros e mais muros inteiramente pichados, imóveis abandonados, terrenos destruídos, calçadas imundas e asfalto esburacado. Trata-se de uma vergonha para os paulistanos, exposta a poucos metros de lugares sofisticadíssimos, cercados de prédios de alto padrão, como a butique Daslu, na Rua João Lourenço, ou de tradicionais regiões de classe média, como o Brooklin Paulista. "A Santo Amaro é um dos piores exemplos de degradação urbana da capital", diz o arquiteto Paulo Bastos, membro do Movimento Defenda São Paulo. "Além de ser fundamental para ligar o centro à Região Sul, ela é historicamente muito importante. Não merecia tanto desprezo."

Em uma tentativa de mudar tamanho horror urbano, a prefeitura promete iniciar neste mês um conjunto de obras para revitalizar a avenida. Eis uma bela resolução de ano novo. Infelizmente, não é a primeira vez que o governo municipal diz que vai dar um jeito nela. Desde que assumiu o cargo, a prefeita Marta Suplicy fala em tirar a Santo Amaro do buraco. Pitta, Maluf e Erundina diziam coisas parecidas. Até agora, no entanto, pouco foi realizado. Em 2002, houve apenas algumas melhorias na Parada dos Eucaliptos, na altura da Santo Amaro com a Bandeirantes. Nesse trecho, além do plantio de árvores, alargaram a pista. Para 2003, a Empresa Municipal de Urbanização (Emurb) anuncia que irá recuperar o asfalto de toda a estragada avenida e reformar os pontos de ônibus, a sinalização e a iluminação. "Vamos tentar um acordo com a Eletropaulo para colocar as fiações no subsolo", diz Luiz Horta, engenheiro da Emurb responsável pela execução das obras. A segunda etapa do projeto prevê uma ação conjunta entre a prefeitura, os comerciantes e os moradores para restaurar as fachadas dos imóveis. Por enquanto, o pouco que se vê de alentador deve-se à iniciativa privada, como alguns novos prédios em construção nas imediações da Avenida São Gabriel, onde a Santo Amaro começa.

Fotos Mario Rodrigues
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Os cinemas Guarujá e Vila Rica atraíam, ao lado de salas como Del Rey, Graúna e Chaplin, milhares de pessoas. Viraram fantasmas depois de aberto o corredor de ônibus, nos anos 80

Antiga estrada que ligava São Paulo ao então município de Santo Amaro (incorporado à capital nos anos 30), a avenida viveu dias bem melhores até os anos 80, quando foram construídos os atuais corredores de ônibus. As calçadas se estreitaram e os carros não puderam mais estacionar. "Com isso, o comércio desapareceu", explica José Eduardo Lefèvre, professor de história da arquitetura da Universidade de São Paulo. Boas lojas de roupas e calçados deram lugar a borracharias, modestas oficinas mecânicas e postos de gasolina, além de um pequeno comércio como o Relojoeiro Alemão, que há trinta anos teima em não sair de lá. Cinemas conhecidos, como o Vila Rica e o Chaplin, fecharam com o sumiço do público. "Ficávamos lotados nos fins de semana", lembra Francisco Lucas, que dirigia o Cine Del Rey, com 1.200 lugares.

Para ressuscitar a Santo Amaro, especialistas acreditam ser necessário mais que um simples projeto para embelezá-la – embora nem isso tenha saído do papel. "Ela deveria ser alargada para que as pessoas pudessem percorrê-la com tranqüilidade, sem ficar espremidas", sugere o especialista imobiliário Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp). "Uma revisão na Lei de Zoneamento da região também seria fundamental." Hoje, a altura máxima permitida para as construções é de 15 metros. Como os lotes são pequenos, torna-se difícil erguer um empreendimento de grande porte. "Com todas essas restrições, quem vai querer investir num lugar tão destruído?", pergunta Pompéia.

         
     
 
 
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