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7 de dezembro de 2005
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Parafernália eletrônica

Walcyr Carrasco

Minha bolsa de viagem tornou-se um símbolo do que é a vida hoje em dia. Vou com freqüência para o Rio de Janeiro, onde deixo algumas roupas. Levava apenas um bom livro, agenda, caneta, óculos escuros. Virou uma loucura. Antes de sair é preciso fazer uma listinha. O interior da bolsa tornou-se um amontoado de fios embaraçados. É espantosa a capacidade de os fios se misturarem! Começa pelo celular. Fundamental na vida moderna. Esquecer o carregador é uma tragédia. Antes, as pessoas se contentavam com a informação de que eu estava fora da cidade. Agora, querem falar no mesmo dia, na mesma hora. Se é assunto profissional, pior! O próprio celular exige cautela. Não se usa nos aeroportos, por risco de clonagem. Tem de ser desligado nos aviões. Outro dia, na decolagem, uma senhora lembrou-se do seu, ligado, em uma valise enfiada no bagageiro. Vários passageiros se levantaram para ajudar. Meu casaco voou para longe. Um pacote caiu na cabeça de um cavalheiro. Até que ela desligou!

Uso agenda eletrônica. Tem de ser carregada na porta USB do computador. Não faz muito, nem sabia da existência da tal porta. Que erro! Sem a tal USB, um ser humano está exilado da vida eletrônica! Quando acaba a bateria, tenho de ligar a agenda, ou fico sem os telefones de que preciso! Isso se não esqueci o... carregador da agenda, conectável à USB! Que estará mergulhado em um mar de fios no fundo da bolsa! Um amigo mais velho ironizou. Mostrou-me uma pequena agenda de papel e disse:

– Esta é a mais nova invenção. Você escreve a lápis, pode apagar... e não precisa botar na tomada!

Descobri há pouco as maravilhas do iPod. Sim, eu tenho um! Uma delícia. Enfiei uma porção de músicas incríveis, separadas em listas: jazz, clássica, MPB. Boto os fones no ouvido e esqueço do mundo! O carregador deve, é claro, ser conectado na tal porta USB. Mas não basta. O programa atualiza automaticamente o conteúdo. Assim, devo transportar o programa iTunes para cima e para baixo. Coisa fácil, pois surgiu um tal de minidrive. Do tamanho aproximado de um chaveiro, arquiva todos os documentos escritos do meu computador: novelas, originais de livros, programas... Basta conectá-lo na... porta USB! Inevitável enfiá-lo na bolsa. Também, é claro, um benjamim para as tais USB!

Visitei um amigo escritor. Mostrou-me, orgulhoso, seu notebook.

– Não tenho mais a máquina de mesa. Usar esse aqui equivaleu a trocar a máquina de escrever pelo meu primeiro computador. Escrevo em cafés, hotéis, até no avião!

Avisou-me:

– Tenha cuidado com o seu!

De fato, roubam. Muitos motoristas de táxi do Aeroporto de Congonhas já me contaram. Certos ladrões ficam de olho em quem desce com notebook. Avisam os comparsas, que seguem o táxi. Assaltam no sinal, lá adiante. Portanto, jamais usar algumas daquelas confortáveis maletas especiais para notebooks! O segredo é transportá-los discretamente. Da última vez, botei o meu no fundo de uma sacola de compras. Empilhei roupa suja em cima! Imagino a bela figura que fiz no aeroporto, com as cuecas pulando para fora da sacola!

É dramático! Surge um aparelho eletrônico atrás do outro! Logo se torna essencial para a minha sobrevivência, e de boa parte dos profissionais! Outro dia, tentando achar a passagem (eletrônica, mas eu havia imprimido o código) no meio da confusão, suspirei:

– Afinal, tudo isso não foi criado para facilitar a vida da gente?

e-mail: walcyr@abril.com.br

     
   
 
 
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