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HISTÓRIA Nos
passos do imperador O caminho de dom Pedro I por São
Paulo em 1822, antes da independência Lúcia
Monteiro Aquarela
de Jean-Baptiste Debret/Coleção Aluizio Rebelo de Araujo
 | | Pátio
do Colégio: o Palácio dos Governadores (à esq.), que
serviu de hospedaria, e a igreja, só reconstruída nos anos 70 |
Sábado, 7 de setembro de 1822, 9 da noite.
Quatro horas depois de rasgar a carta da corte de Lisboa que exigia seu imediato
retorno a Portugal e de afirmar que o Brasil se tornara independente, dom Pedro
I que ainda era apenas dom Pedro foi ao teatro. O lugar ficava bem
em frente ao Palácio dos Governadores, na região do Pátio
do Colégio, onde estava hospedado. Sem nenhum luxo, a construção
condizia com a rusticidade de São Paulo, onde viviam cerca de 20.000 habitantes.
Naquela noite, a Companhia Zachelli encenava O Convidado de Pedra, de Molière.
Apesar da fama da trupe, não era por causa dos atores que os 350 lugares
da platéia e os 28 camarotes estavam ocupados. O toque de clarim havia
anunciado a presença do imperador, então com 23 anos, ovacionado
ao aparecer no camarote real com uma fita verde-e-amarela, antes do início
do espetáculo. Em seguida, o maestro regeu os primeiros acordes do Hino
da Independência, composto pelo próprio dom Pedro I. A proclamação
da independência (com aquele famoso grito dado às margens plácidas
do Ipiranga) só foi anunciada no domingo, 8 de setembro. Afixado nos lugares
públicos de São Paulo, o texto levava a seguinte assinatura: "Príncipe
Regente". Na segunda-feira, a comitiva real retornou ao Rio de Janeiro, a capital
do novo Império. Aquarela
de Edmund Pink/Acervo Bovespa
 | | Residência
da família da marquesa de Santos, onde dom Pedro I passou na volta do litoral:
troca de acenos |
É possível,
com a ajuda de documentos e relatos de testemunhas, refazer todo o percurso de
dom Pedro I desde sua chegada a São Paulo, em 25 de agosto, até
o momento descrito no parágrafo acima. Historiador do Departamento do Patrimônio
Histórico (DPH), Luís Soares de Camargo pesquisou o assunto para
elaborar um roteiro (veja mapa). As informações reunidas
por Camargo sobre os acontecimentos ocorridos há exatamente 183 anos indicam,
por exemplo, que a viagem entre o Rio e São Paulo, com várias paradas,
levou doze dias. Que no dia 24, antes de entrar na cidade, pernoitou no local
em que hoje fica o bairro da Penha. E que o primeiro ponto avistado em São
Paulo foi a Ladeira do Carmo, atual Avenida Rangel Pestana.
Aquarela
de Jean-Baptiste Debret/Coleção Aluizio Rebelo de Araujo
 | | A
Ladeira do Carmo, atual Avenida Rangel Pestana, em imagem de 1827: primeiro ponto
da cidade avistado pela comitiva real ao chegar do Rio de Janeiro |
Na
manhã do dia 5 de setembro, a comitiva real galopou para Santos, onde o
até ali príncipe visitaria a família do amigo José
Bonifácio de Andrada e Silva. No caminho de volta, 48 horas mais tarde,
passou pela residência de Domitila de Castro Canto e Melo, que depois se
tornaria a marquesa de Santos, e os dois trocaram acenos. Algumas pessoas acreditam
que esse teria sido o primeiro encontro dos dois. "É uma versão
que não se sustenta", diz Camargo. "No dia 29 de agosto, o major Francisco
de Castro Canto e Melo, irmão da marquesa e membro da comitiva real, havia
levado dom Pedro I para visitar a chácara da família." E, aí
sim, os futuros amantes teriam se visto pela primeira vez. Marc
Ferrez/Instituto Moreira Salles
 | | O
Largo da Sé, em imagem de 1880: na antiga Matriz, dom Pedro I assistiu a uma missa
solene |
Outra história famosa
é a do mal-estar do futuro imperador momentos antes da independência.
O relato do barão de Pindamonhangaba, comandante da guarda de honra, não
deixa dúvida: "Já havíamos subido a serra quando dom Pedro
se queixou de ligeiras cólicas intestinais, precisando por isso apear-se
para empregar os meios naturais de aliviar seus sofrimentos. Observou-nos então
que melhor seria a guarda seguir adiante e esperá-lo na entrada de São
Paulo", escreveu. Foi ali que o alcançou a carta enviada pela corte de
Lisboa, bem como mensagens de dom João VI, seu pai, da princesa Leopoldina,
sua mulher, de Chamberlain, seu agente secreto, e de José Bonifácio.
Ao lê-las, percebeu que tinha duas opções: entregar-se a Portugal
ou proclamar a independência. O desfecho todos nós aprendemos na
escola. |