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CULTURA
Galpão das artes Teatro Municipal ganha central de
produção de figurinos e cenários Nana
Caetano Fotos
Daniela Toviansky
 | Últimos
retoques para Os Pescadores de Pérolas: trajes feitos em casa |
Na confecção dos
trajes da protagonista de uma ópera são usados tecidos finos, bordados
e uma infinidade de acabamentos e acessórios, exatamente como se fosse
um vestido de festa. Não raro, uma indumentária chega a custar 2.000
reais. Como em cada montagem os protagonistas usam em média dez roupas
e há outros 100 figurantes, 50% do orçamento é gasto apenas
em cenário e figurino. Para baratear esses custos, a direção
do Teatro Municipal decidiu criar uma central de produção, que funciona
desde o início de agosto em um galpão de 2.700 metros quadrados
na Vila Guilherme, na Zona Norte. O primeiro espetáculo saído de
lá em cartaz nesta semana é Os Pescadores de Pérolas,
de Georges Bizet, com história passada no Ceilão (atual Sri
Lanka). "Em vez de gastarmos os habituais 800.000 reais, desembolsamos 420.000",
afirma Jamil Maluf, maestro e diretor artístico do teatro.  |  | O
novo espaço servirá para armazenar materiais... | ...e
facilitar o trabalho de artesãos: economia de 50% |
A
economia se dá porque, antes, era necessário alugar espaços
espalhados pela cidade e contratar pessoal especializado para apenas um trabalho.
Nos moldes dos galpões das escolas de samba, o Teatro Municipal tem agora
uma equipe permanente de costureiras, cenógrafos e técnicos. "Essas
pessoas funcionam como professores para os funcionários do teatro", diz
Naum Alves de Souza, que acumula as funções de diretor, cenógrafo
e figurinista de Os Pescadores de Pérolas. "Todo teatro grande no
mundo tem uma central como essa", explica. Além do barateamento de custos,
a Central de Produção Chico Giacchieri (o nome é uma homenagem
a um cenotécnico do Municipal morto em 1985) traz outro benefício:
a conservação de todo o acervo do teatro. Sem o galpão, roupas
de espetáculos mofavam em caixas e objetos cênicos apodreciam em
locais sem estrutura. "Muitos dos cenários
antigos acabaram sendo perdidos por causa de goteiras, por exemplo", conta Jamil
Maluf. Com a reorganização, foram recuperados milhares de trajes
e cenários de vinte óperas. "O número seria pelo menos quatro
vezes maior caso contássemos com esse espaço desde a fundação
do Municipal", diz. Entre os achados estão figurinos criados pelo costureiro
Dener na década de 1970 para as óperas Lakmé, de Léo
Delibes, e La Bohème, de Giacomo Puccini. Eles ficarão
expostos até outubro no salão nobre do teatro (veja
quadro). A produção do Municipal irá servir também
para fomentar apresentações em outras cidades, por meio de empréstimos
e aluguéis de roupas e cenários. Alta-costura
nos palcos Fotos
Renata Ursaia
 | | Em
exposição: criações do estilista Dener |
Na
entrada do salão, chama atenção um belo vestido inspirado
em um sári indiano. Amarelo-ouro com detalhes e bordados em dourado, o
tecido forma uma cauda que pousa sobre um dos braços do manequim. O caimento
é perfeito. Mais adiante estão trajes típicos ingleses do
século XIX, grandes caftãs masculinos, saiotes e crochês.
Quando criou figurinos para as óperas Lakmé e La Bohème,
o estilista Dener Pamplona de Abreu (1936-1978) não esqueceu os detalhes
que fizeram seu trabalho ser reconhecido como um dos mais importantes da história
da moda brasileira. Vistos somente durante as apresentações, eles
ficarão expostos até outubro no salão nobre do Teatro Municipal
(e poderão ser admirados por todos os que assistirem aos espetáculos).
A reunião das peças foi possível graças à catalogação
do acervo por especialistas da USP após a abertura da central de produção
do teatro. "Cada caixa aberta escondia surpresas e preciosidades", afirma o professor
Fausto Viana, especialista em história da indumentária teatral.
O trabalho de recuperação e organização das peças
deve durar um ano e envolve 72 voluntários e quatro bolsistas. Até
o fim do ano, estão prometidas mais três exposições
como a atual.  |  | | Vestido
inspirado em sáris indianos e bata masculina (à esq.): tecidos
nobres para a ópera Lakmé |
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