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CRÔNICA
Canivete no bolso
Vejo numa vitrine do centro grande
variedade de canivetes. Quem os compra? Não conheço
ninguém que use canivete. Perguntei aos meus amigos, novos
e usados, e confirmei: não usam. É estranho. Alguém
deve usar, senão não estariam à venda em tal
variedade de tamanhos, materiais, desenhos e serventias. Faço
uma hipótese: não é que não se usa;
é que não se vê usar. Pode ter-se tornado artigo
de utilização discreta, como a camisinha e a tintura
de cabelo para homens.
Então reparo que nos melhores
shoppings, nas vitrines de lojas de aparelhinhos e objetos bem bolados,
em meio a engenhocas de aço escovado e acrílico de
última tecnologia, lá estão eles. Tornaram-se
artigos para presente. Quem os compra, quem os dá, quem os
usa? Impossível pensar em um jovem da classe média
alta com um deles no bolso.
Para que servia um canivete?
Talvez fizesse parte da representação masculina. Da
aparência? Sim, digamos que sim, como os bigodes. Os mais
populares eram simples. No geral, um corpo no qual se encaixavam
duas lâminas de tamanhos diferentes, abrindo-se cada uma para
um lado. Serviam para muita coisa, eram adequados a um modo de vida:
descascar laranja, desencapar um fio, cortar um barbante, partir
um pedaço de queijo ou de doce, picar fumo, talhar fruta,
limpar unhas, apontar lápis, abrir páginas de livros
que não vinham aparados, preparar isca em pescaria, gravar
o nome da namorada em tronco de árvore, assustar briguentos,
impor respeito...
Às vezes, numa briga,
não dava tempo de o sujeito abrir o canivete, e ele apanhava
antes de conseguir transformar o objeto pacífico em arma.
Meu tio achava melhor não andar com canivete: é mais
feio apanhar com ele no bolso do que sem ele, dizia. Lembro-me do
filme italiano Os Companheiros, no qual um grevista dolorosamente
cômico se atrapalha para abrir seu canivete e toma uma surra
dos bate-paus patronais.
A fim de evitar isso, inventaram
para os brigões aqueles de mola. Uma leve pressão
no cabo e a lâmina saltava de ponta pronta, brilho terrível.
Não era coisa para gente como nós, era utensílio
de valentes. Efêmero brilho, pois o sambista Noel Rosa já
cantava, setenta anos atrás: "No século do progresso,
o revólver teve ingresso pra acabar com a valentia". Rubem
Braga contou uma história bonita, que publicou no espaço
da crônica dele, sobre dois irmãos que se separam porque
um ameaçou o outro com o canivete.
Serem usados como armas foi um
desvio; vê-se na variedade das vitrines que o natural deles
é prestar serviço. Chamam atenção os
de mil e uma utilidades. Um daqueles suíços vermelhos
foi objeto do meu desejo quando rapazinho. Talvez preenchesse fantasias
infantis de leitor de histórias em quadrinhos, especialmente
o Batman com seu cinto de utilidades.
Muitos anos depois, ganhei um.
Chegou tarde, minhas fantasias haviam mudado, junto com as habilidades.
Mesmo assim, a versatilidade dele encantou o antigo freqüentador
das páginas de heróis imaginados: lente de aumento,
régua de polegada e centímetro, alicate, buril, facas
de dois tamanhos, saca-rolhas, abridor de latas e de garrafas, chaves
de fenda, chave Phillips, serrinha, canetinha esferográfica,
lima, lixa de unha, tesoura e até palito. Ah, como eu teria
amado esse canivete aos 14 anos!
Não é cômodo
levar um desses no bolso. Pesa. O jeito é deixar em casa.
Mas para que serviria em casa, onde todo mundo tem faca, tesoura,
chave de fenda, palito de dentes? Mistérios do mundo do consumo.
O mercado tem sua lógica.
Se estão vendendo, tem utilidade. Vou botar o meu no carro,
para alguma emergência. Quem sabe aparece uma goiaba de beira
de estrada, um parafuso de brinquedo infantil para desenroscar,
uma bula de remédio para ler?
e-mail: ivan@abril.com.br
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