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COMPORTAMENTO
Fotos Daniela Toviansky
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| Aula de modelagem no IED: 120 matriculados
na abertura do instituto italiano em São Paulo |
Modelagem, construção de marca,
montagem de blazers, estamparia...
Há cursos sobre quase tudo para cativar
os 5 500 estudantes de moda da cidade
Marcella Centofanti
"Isso é escola de corte
e costura!" Fernanda Abrusio, de 22 anos, ouviu essa frase quando
contou ao pai que pretendia abandonar a faculdade de arquitetura
para estudar moda. Com muita insistência e com a ajuda da
mãe, conseguiu convencê-lo a pagar sua inscrição
no Instituto Europeo di Design (IED). Na hora da matrícula,
ainda ouviu: "Filha, você não prefere fazer design?".
Fernanda manteve-se firme em sua decisão e hoje está
entre os 120 alunos de moda do instituto inaugurado neste ano em
Higienópolis. Nos outros cinco endereços do IED (Milão,
Roma, Turim, Barcelona e Madri), o forte são os cursos de
desenho industrial e design de interiores. A filial paulistana é
exceção. "Sabíamos que havia uma grande demanda
na área, mas nos surpreendemos com a procura", afirma o diretor
Mauro Mantica. "Esperávamos abrir três turmas e ampliamos
para cinco." O sucesso chama ainda mais atenção quando
se leva em conta que a escola é pouco conhecida por aqui,
não dá diploma universitário e cobra 1 415
reais de mensalidade, mais do que a Faculdade de Direito da PUC
(1 052 reais).
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| Desfile de graduação do Senac: trabalhos em
dupla em que um aluno é estilista e o outro, modelista |
Não se trata, entretanto,
de um fenômeno isolado. Além dos oito cursos oferecidos
pelo IED, existem mais cinqüenta na cidade, com um total de
5 500 alunos (veja quadro).
Aos poucos, a moda deixa de ser uma profissão para quem não
tem qualificação formal e se torna uma atividade altamente
especializada. "O senso comum ainda a vê como banalidade e
frescura", diz o estilista João Braga, professor de sete
escolas. "É uma impressão equivocada." Ele tem razão.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria
Têxtil e de Confecção (Abit), o setor emprega
no país cerca de 1,5 milhão de pessoas, desde operários
e vendedores até estilistas famosos, que trabalham em confecções,
tecelagens e lojas. Em 2004, esse mercado faturou 25 bilhões
de dólares.
Nos últimos anos, a indústria
sofreu profundas transformações. Após a abertura
da economia, no início dos anos 1990, muitas empresas familiares
fecharam as portas. Em 1996, a MorumbiFashion, atual São
Paulo Fashion Week, deu um chacoalhão no mundinho. A meninada,
atraída pelos flashes e pelo glamour das passarelas, começou
a se interessar cada vez mais por moldes, agulhas e tesouras. E
as empresas, que se viram obrigadas a investir em maquinário
e tecnologia para competir com a concorrência estrangeira,
correram atrás de mão-de-obra qualificada. Foi assim
que as escolas conheceram seu boom. "Há vinte anos, as pessoas
trabalhavam apenas porque tinham alguma aptidão", compara
o produtor Paulo Borges, criador da São Paulo Fashion Week
e um dos responsáveis pela nova configuração
do setor. "Hoje a moda é um grande business e os jovens estão
se preparando melhor para enfrentar o mercado."
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| Intervalo da Santa Marcelina, a escola pioneira:
o pátio mais fashion de todos |
Quando entra na faculdade, a maioria
dos estudantes não tem uma visão realista do que irá
encontrar pela frente. "Muita patricinha não sabe o que fazer
da vida e vai estudar moda", diz a editora Erika Palomino. Para
muitas jovens (elas representam 90% dos alunos), o sonho é
ver seu nome estampado numa etiqueta, especialmente no primeiro
ano de curso. Elas suspiram por desfiles, reportagens e holofotes.
Pura ilusão. As passarelas não comportariam 5.000
novos estilistas todos os anos. "O glamour é para quem compra
a roupa, não para quem vende", afirma Emanuela Carvalho,
professora, consultora e diretora de moda e imagem da gravadora
Trama. "A profissão é dura e não dá
tanto dinheiro quanto pensam." Se o aluno analisar suas reais aptidões,
terá mais chance de se sair bem. Há uma ampla rede
de carreiras: modelista, stylist, consultor, administrador, produtor,
editor etc. Para quem quer ser estilista, não basta ter talento.
Gloria Coelho, uma das principais atrações das passarelas
nacionais, ressalta que seu trabalho é muito mais que exibir
looks na São Paulo Fashion Week. "Produzimos 500 novos itens
a cada seis meses, além de cuidar da administração",
diz. "Tem estagiário que desiste da carreira depois de passar
por aqui."
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| Evento sobre jeans na Anhembi Morumbi: foco
no mercado de varejo |
Embora os jovens ainda tenham
uma noção limitada do mercado, as escolas já
descobriram que a tendência é a segmentação.
"As instituições estão atentas e deram uma
resposta rápida para o mercado", afirma o ex-ministro da
Educação Paulo Renato Souza. "É um sinal positivo."
Existe curso sobre (quase) tudo: construção de marca,
modelagem e montagem de blazers, desenho técnico no computador,
estamparia têxtil, joalheria, entre outros. O Senac oferece
a maior variedade. São 22 opções, entre graduação,
pós, extensão, cursos livres e um mestrado que começou
neste ano. A Faap, que criou uma graduação seqüencial
de dois anos em 2001, pretende lançar uma versão em
bacharelado. Aguarda permissão do Ministério da Educação.
Em outubro, inaugura uma pós-graduação em parceria
com o recém-criado Instituto Brasil de Arte e Moda. O estilista
Jum Nakao cuidará da coordenação.
A Universidade Anhembi Morumbi
investe na formação de profissionais para o varejo.
No 3º ano (a duração é de quatro), os
estudantes têm de optar pela especialização
em desenho ou em marketing. Cerca de 95% ficam com a segunda opção.
É o caso de Regiane Machado, de 30 anos. Ela trancou a faculdade
de fisioterapia para se dedicar à moda. Cresceu na carreira
e hoje é diretora de produto da marca espanhola Zara. Seu
trabalho é planejar compras e adaptar coleções
européias para o público e os costumes brasileiros.
Teoricamente, nem precisaria mais se formar. Mas fez questão
de continuar na sala de aula e buscar o diploma. "Depois, quero
fazer pós-graduação e MBA", diz.
Na área de estilismo,
a principal referência é a Faculdade Santa Marcelina.
Seu curso superior de desenho de moda, aberto em 1987, foi o primeiro
do Brasil. De lá, saíram nomes como Icarius de Menezes,
Thais Losso, Gisele Nasser, Érika Ikezili, Emilene Galende
e Vinícius Campion. O maior expoente, orgulho da casa e modelo
de inspiração dos alunos, é o badalado criador
Alexandre Herchcovitch. Mesmo na Santa Marcelina, onde o foco é
estilismo, as disciplinas relacionadas às passarelas são
apenas parte do currículo. Os alunos aprendem modelagem,
confecção industrial, joalheria, fotografia, estamparia,
cenografia, organização de eventos, marketing, computação
gráfica e produção.
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| O estilista Walter Rodrigues: aula no IBModa
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Uma das atuais darlings das passarelas
paulistanas, a estilista Adriana Barra formou-se na Santa Marcelina
em 2001. Na faculdade, seu desempenho não era dos mais empolgantes.
Passou raspando em quase todas as matérias e chegou a trancar
a matrícula. Descobriu seu talento no trabalho de graduação,
quando foi classificada para o desfile final, o chamado Fórum,
que reúne os quinze melhores alunos. Ela recebeu 8,5 de nota
da banca formada por professores. "Não souberam entender
meu trabalho. O reconhecimento veio de fora", reclama. "A maioria
das aulas parece encheção de lingüiça.
Mas tive cinco professores excepcionais a quem devo muito." Os vestidos
e tops estampados que a estilista exibiu no desfile de formatura
são até hoje a base de suas criações
e enlouquecem socialites paulistanas. Em sua butique, nos Jardins,
os vestidos custam 1.000 reais, quase o preço de uma mensalidade
na faculdade em que se formou.
O pátio da Santa Marcelina
é, disparado, o mais fashion de todos. Por ali circulam alunos
com um figurino que não se vê na USP ou na PUC. Meninas
com pinta de modelo e cabelo alisado com chapinha, uma japonesa
de mechas roxas e lentes de contato azuis, um rapaz de salto alto
e chapéu... Chama atenção também uma
garota de cabelo branco, olhos escondidos sob sombra negríssima,
meias arrastão, um palmo de saia, botas de vinil acima dos
joelhos e casaquinho com o símbolo de um coelhinho da Playboy.
É Ana Paula Barros, de 20 anos, matriculada no 3º ano.
Ela entra na aula às 7h30, diariamente. Antes, reserva vinte
minutos para se maquiar. "Minha produção para vir
à faculdade é casual. Não tem nada de mais",
desdenha. Lá no meio, entre os estudantes que se vestem das
formas mais variadas, digamos assim, estão as freiras da
ordem marcelina (fundada em 1838, em Milão, na Itália).
Com seus hábitos brancos, elas nem se chocam. "Tem coisa
que a gente acha ridícula, mas fazer o quê?", comenta
a irmã Maria Bordin, que cuida da manutenção
das instalações. "Moda é moda, né?"
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As aprendizes
Fotos Daniela Toviansky
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nsky
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| Fernanda Abrusio, 22 anos, caloura do IED, precisou
convencer o pai de que não iria aprender apenas corte
e costura. Ela já cria seus primeiros looks numa marca
própria. |
A paulistana Cinara Di Ciommo, 25 anos, formou-se em
hotelaria, mas decidiu mudar de área. Ela é aluna do curso
seqüencial da Faap, que tem dois anos de duração. "Não
queria encarar outra faculdade", diz. |
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| "Eu sabia o que queria estudar desde
o colégio. Nem pensei em outra carreira", afirma Thaís
Junqueira. Aos 19 anos, ela está prestes a se formar pela
Faap. Pretende ser produtora. |
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