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7 de setembro de 2005
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COMPORTAMENTO

Fotos Daniela Toviansky
Aula de modelagem no IED: 120 matriculados na abertura do instituto italiano em São Paulo

Modelagem, construção de marca,
montagem de blazers, estamparia...
Há cursos sobre quase tudo para cativar
os 5 500 estudantes de moda da cidade

Marcella Centofanti

"Isso é escola de corte e costura!" Fernanda Abrusio, de 22 anos, ouviu essa frase quando contou ao pai que pretendia abandonar a faculdade de arquitetura para estudar moda. Com muita insistência e com a ajuda da mãe, conseguiu convencê-lo a pagar sua inscrição no Instituto Europeo di Design (IED). Na hora da matrícula, ainda ouviu: "Filha, você não prefere fazer design?". Fernanda manteve-se firme em sua decisão e hoje está entre os 120 alunos de moda do instituto inaugurado neste ano em Higienópolis. Nos outros cinco endereços do IED (Milão, Roma, Turim, Barcelona e Madri), o forte são os cursos de desenho industrial e design de interiores. A filial paulistana é exceção. "Sabíamos que havia uma grande demanda na área, mas nos surpreendemos com a procura", afirma o diretor Mauro Mantica. "Esperávamos abrir três turmas e ampliamos para cinco." O sucesso chama ainda mais atenção quando se leva em conta que a escola é pouco conhecida por aqui, não dá diploma universitário e cobra 1 415 reais de mensalidade, mais do que a Faculdade de Direito da PUC (1 052 reais).

Desfile de graduação do Senac: trabalhos em dupla em que um aluno é estilista e o outro, modelista

Não se trata, entretanto, de um fenômeno isolado. Além dos oito cursos oferecidos pelo IED, existem mais cinqüenta na cidade, com um total de 5 500 alunos (veja quadro). Aos poucos, a moda deixa de ser uma profissão para quem não tem qualificação formal e se torna uma atividade altamente especializada. "O senso comum ainda a vê como banalidade e frescura", diz o estilista João Braga, professor de sete escolas. "É uma impressão equivocada." Ele tem razão. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o setor emprega no país cerca de 1,5 milhão de pessoas, desde operários e vendedores até estilistas famosos, que trabalham em confecções, tecelagens e lojas. Em 2004, esse mercado faturou 25 bilhões de dólares.

Nos últimos anos, a indústria sofreu profundas transformações. Após a abertura da economia, no início dos anos 1990, muitas empresas familiares fecharam as portas. Em 1996, a MorumbiFashion, atual São Paulo Fashion Week, deu um chacoalhão no mundinho. A meninada, atraída pelos flashes e pelo glamour das passarelas, começou a se interessar cada vez mais por moldes, agulhas e tesouras. E as empresas, que se viram obrigadas a investir em maquinário e tecnologia para competir com a concorrência estrangeira, correram atrás de mão-de-obra qualificada. Foi assim que as escolas conheceram seu boom. "Há vinte anos, as pessoas trabalhavam apenas porque tinham alguma aptidão", compara o produtor Paulo Borges, criador da São Paulo Fashion Week e um dos responsáveis pela nova configuração do setor. "Hoje a moda é um grande business e os jovens estão se preparando melhor para enfrentar o mercado."

Intervalo da Santa Marcelina, a escola pioneira: o pátio mais fashion de todos

Quando entra na faculdade, a maioria dos estudantes não tem uma visão realista do que irá encontrar pela frente. "Muita patricinha não sabe o que fazer da vida e vai estudar moda", diz a editora Erika Palomino. Para muitas jovens (elas representam 90% dos alunos), o sonho é ver seu nome estampado numa etiqueta, especialmente no primeiro ano de curso. Elas suspiram por desfiles, reportagens e holofotes. Pura ilusão. As passarelas não comportariam 5.000 novos estilistas todos os anos. "O glamour é para quem compra a roupa, não para quem vende", afirma Emanuela Carvalho, professora, consultora e diretora de moda e imagem da gravadora Trama. "A profissão é dura e não dá tanto dinheiro quanto pensam." Se o aluno analisar suas reais aptidões, terá mais chance de se sair bem. Há uma ampla rede de carreiras: modelista, stylist, consultor, administrador, produtor, editor etc. Para quem quer ser estilista, não basta ter talento. Gloria Coelho, uma das principais atrações das passarelas nacionais, ressalta que seu trabalho é muito mais que exibir looks na São Paulo Fashion Week. "Produzimos 500 novos itens a cada seis meses, além de cuidar da administração", diz. "Tem estagiário que desiste da carreira depois de passar por aqui."

Evento sobre jeans na Anhembi Morumbi: foco no mercado de varejo

Embora os jovens ainda tenham uma noção limitada do mercado, as escolas já descobriram que a tendência é a segmentação. "As instituições estão atentas e deram uma resposta rápida para o mercado", afirma o ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza. "É um sinal positivo." Existe curso sobre (quase) tudo: construção de marca, modelagem e montagem de blazers, desenho técnico no computador, estamparia têxtil, joalheria, entre outros. O Senac oferece a maior variedade. São 22 opções, entre graduação, pós, extensão, cursos livres e um mestrado que começou neste ano. A Faap, que criou uma graduação seqüencial de dois anos em 2001, pretende lançar uma versão em bacharelado. Aguarda permissão do Ministério da Educação. Em outubro, inaugura uma pós-graduação em parceria com o recém-criado Instituto Brasil de Arte e Moda. O estilista Jum Nakao cuidará da coordenação.

A Universidade Anhembi Morumbi investe na formação de profissionais para o varejo. No 3º ano (a duração é de quatro), os estudantes têm de optar pela especialização em desenho ou em marketing. Cerca de 95% ficam com a segunda opção. É o caso de Regiane Machado, de 30 anos. Ela trancou a faculdade de fisioterapia para se dedicar à moda. Cresceu na carreira e hoje é diretora de produto da marca espanhola Zara. Seu trabalho é planejar compras e adaptar coleções européias para o público e os costumes brasileiros. Teoricamente, nem precisaria mais se formar. Mas fez questão de continuar na sala de aula e buscar o diploma. "Depois, quero fazer pós-graduação e MBA", diz.

Na área de estilismo, a principal referência é a Faculdade Santa Marcelina. Seu curso superior de desenho de moda, aberto em 1987, foi o primeiro do Brasil. De lá, saíram nomes como Icarius de Menezes, Thais Losso, Gisele Nasser, Érika Ikezili, Emilene Galende e Vinícius Campion. O maior expoente, orgulho da casa e modelo de inspiração dos alunos, é o badalado criador Alexandre Herchcovitch. Mesmo na Santa Marcelina, onde o foco é estilismo, as disciplinas relacionadas às passarelas são apenas parte do currículo. Os alunos aprendem modelagem, confecção industrial, joalheria, fotografia, estamparia, cenografia, organização de eventos, marketing, computação gráfica e produção.

O estilista Walter Rodrigues: aula no IBModa

Uma das atuais darlings das passarelas paulistanas, a estilista Adriana Barra formou-se na Santa Marcelina em 2001. Na faculdade, seu desempenho não era dos mais empolgantes. Passou raspando em quase todas as matérias e chegou a trancar a matrícula. Descobriu seu talento no trabalho de graduação, quando foi classificada para o desfile final, o chamado Fórum, que reúne os quinze melhores alunos. Ela recebeu 8,5 de nota da banca formada por professores. "Não souberam entender meu trabalho. O reconhecimento veio de fora", reclama. "A maioria das aulas parece encheção de lingüiça. Mas tive cinco professores excepcionais a quem devo muito." Os vestidos e tops estampados que a estilista exibiu no desfile de formatura são até hoje a base de suas criações e enlouquecem socialites paulistanas. Em sua butique, nos Jardins, os vestidos custam 1.000 reais, quase o preço de uma mensalidade na faculdade em que se formou.

O pátio da Santa Marcelina é, disparado, o mais fashion de todos. Por ali circulam alunos com um figurino que não se vê na USP ou na PUC. Meninas com pinta de modelo e cabelo alisado com chapinha, uma japonesa de mechas roxas e lentes de contato azuis, um rapaz de salto alto e chapéu... Chama atenção também uma garota de cabelo branco, olhos escondidos sob sombra negríssima, meias arrastão, um palmo de saia, botas de vinil acima dos joelhos e casaquinho com o símbolo de um coelhinho da Playboy. É Ana Paula Barros, de 20 anos, matriculada no 3º ano. Ela entra na aula às 7h30, diariamente. Antes, reserva vinte minutos para se maquiar. "Minha produção para vir à faculdade é casual. Não tem nada de mais", desdenha. Lá no meio, entre os estudantes que se vestem das formas mais variadas, digamos assim, estão as freiras da ordem marcelina (fundada em 1838, em Milão, na Itália). Com seus hábitos brancos, elas nem se chocam. "Tem coisa que a gente acha ridícula, mas fazer o quê?", comenta a irmã Maria Bordin, que cuida da manutenção das instalações. "Moda é moda, né?"

 

As aprendizes


Fotos Daniela Toviansky
nsky
Fernanda Abrusio, 22 anos, caloura do IED, precisou convencer o pai de que não iria aprender apenas corte e costura. Ela já cria seus primeiros looks numa marca própria. A paulistana Cinara Di Ciommo, 25 anos, formou-se em hotelaria, mas decidiu mudar de área. Ela é aluna do curso seqüencial da Faap, que tem dois anos de duração. "Não queria encarar outra faculdade", diz.


"Eu sabia o que queria estudar desde o colégio. Nem pensei em outra carreira", afirma Thaís Junqueira. Aos 19 anos, ela está prestes a se formar pela Faap. Pretende ser produtora.

 

Os bem-sucedidos


Fotos Daniela Toviansky
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Regiane Machado já trabalhava no mundinho quando entrou na Anhembi Morumbi. Hoje ela se divide entre a faculdade e o cargo de diretora de produto da Zara. "Vou fazer MBA." No Senac, os alunos podem se graduar em criação ou modelagem. Wanderley Silva, recém-formado, ficou com a segunda opção. Ele é responsável pela linha masculina da grife Uma.


Graduada pela Santa Marcelina em 1997, Emannuelle Junqueira trabalhou no varejo antes de estampar seu nome numa etiqueta, em 2003. Neste mês, ela inaugura sua primeira loja, com vestidos de festa e de noiva. "Precisei aprender mais sobre administração para abrir meu negócio."

     
 



   
 
 
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