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7 de abril de 2004
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Montagem sobre foto

Com bons preços e atrações de primeira,
a capital argentina desbanca Miami e
torna-se o principal destino internacional
dos paulistanos

Lúcia Monteiro
fotos Heudes Regis

O monumento Floralis Genérica, de Eduardo Catalano: inaugurado em 2002 Os dançarinos Nahuel e Claudia Hilce: tango em frente às Galerías Pacífico
Café Tortoni: fundado em 1858, foi freqüentado pelo escritor Jorge Luis Borges A charmosa Avenida de Mayo, no centro: arquitetura de estilo francês


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Atraídos pela atmosfera européia, por noites calientes, carnes saborosas e, principalmente, pelos preços baixos, mais de 2 500 paulistanos deverão desembrulhar seus ovos de chocolate num cenário diferente neste feriado de Páscoa. Não é difícil entender por que o número de turistas que trocam as margens do Tietê pelas margens do Rio da Prata cresce sem parar. Com a desvalorização do peso, viajar para Buenos Aires passou a custar menos do que para algumas pousadas do Litoral Norte ou para hotéis de Campos do Jordão. E o trajeto tem duração bem semelhante. Duas horas e quarenta minutos de avião separam São Paulo da capital argentina. Estatísticas da Infraero mostram que no ano passado Buenos Aires se tornou o destino internacional preferido dos passageiros que embarcam em Guarulhos, desbancando Miami. Perto de 120 000 paulistanos estiveram lá em 2003, segundo a Secretaria de Turismo da Argentina. O número de vôos nunca foi tão alto. São 131 por semana e, só na Semana Santa, haverá um reforço de mais dez aviões fretados.

Com 1 peso valendo 1,01 real e custos com alimentação e transporte até 60% mais baixos que os praticados em São Paulo, a playa portenha foi literalmente invadida. Os efeitos desse fenômeno são sentidos em diversos setores da economia daquele país e no comportamento dos argentinos. Há cada vez mais gente esforçando-se para falar português – em lojas, restaurantes, táxis, casas de tango... No Gran Hotel Buenos Aires, os funcionários, do carregador à telefonista, comunicam-se no idioma com desenvoltura. Há quatro anos, o português tornou-se obrigatório nas escolas de turismo da Argentina.


Librería El Ateneo, na Avenida Santa Fe: instalada em cinco andares de um antigo teatro

Os comerciantes têm um carinho todo especial pelos clientes provenientes da capital paulista. "Compram mucho", diz Flavio Alonso, dono da Polo Ralph Lauren. "Nos feriados, metade dos 250 clientes que recebo vem de São Paulo." Alguns foram rápidos em adaptar suas coleções para oferecer lá o que está na moda por aqui. "Diversificamos nossos modelos porque as roupas típicas não fazem sucesso entre os brasileiros", diz Santiago Sacca, dono da Los Ombules Estancias, butique da Rua Florida especializada em couro. Nos dois andares da loja, encontram-se jaquetas a partir de 300 pesos.

Atendendo a pedidos, algumas churrascarias passaram a servir porções de arroz como acompanhamento do bife de chorizo (antes, as opções eram salada e batata frita). Na casa de shows Señor Tango, que recebe até 400 brasileiros numa noite, as paredes são decoradas com fotos de Hebe Camargo e Pelé. O espetáculo é caro (de 160 a 300 pesos, com jantar incluído) e está longe de mostrar o tango autêntico – até cavalos e atores vestidos de índio sobem ao palco. A atração, no entanto, está entre as preferidas das operadoras paulistanas, que estacionam dezenas de ônibus em frente da casa.


Corredor da galeria Bond Street: a Ouro Fino de lá Exposição dadaísta no Malba: o melhor museu da cidade

Os estrangeiros, que haviam sumido na época da economia dolarizada, voltaram com força redobrada. Há sinais disso por toda parte. "O turismo está em franca expansão na Argentina e já traz mais receita que a exportação de carnes", diz Rubem Eduardo Ali, representante da Secretaria de Turismo do país. Os brasileiros são maioria entre os que viajam para a capital argentina, seguidos por americanos e chilenos. "Enquanto o número de visitantes estrangeiros subiu 18% no último ano, o de paulistanos cresceu 60%", explica Ali.

Na hora de comparar preços e serviços, Buenos Aires leva mesmo vantagem. A corrida de táxi raramente passa de 7 pesos – ou 7 reais. A bandeirada é de 1,44 peso, contra 3,20 reais em São Paulo. Come-se bem, com vinho, por 30 pesos. É notável o caso do Cabaña Las Lilas, filial argentina do Rubaiyat, onde uma pessoa gasta 60 pesos por refeição. No Rubaiyat da Alameda Santos, a conta sai em média por 90 reais. "Dá para cobrar menos porque os gastos com impostos, luz, água e estacionamento são muito menores", diz Belarmino Iglesias, dono das duas casas.

Os pontos pró-Buenos Aires não param por aí. Se a Europa está cara e colocar os pés em território americano parece uma gincana, cruzar a fronteira argentina é uma barbada. Na imigração, basta mostrar a carteira de identidade. Pacotes de duas noites custam a partir de 250 dólares. O negócio é mais compensador para estadas longas e quartos duplos. Pagam-se 350 dólares, por exemplo, pelo pacote de cinco dias.


Puerto Madero: docas abandonadas transformadas em restaurantes chiques Brunch no Hotel Alvear: 80 pesos por pessoa e espumante à vontade

Aproveitando a boa maré e a vocação noturna da cidade, a promoter argentina Valeria Buchelche passou a levar grupos de paulistanos para trasnochar (virar a noite) ao som de música eletrônica. Em novembro passado, alojou no Hotel Hilton 180 pessoas que foram curtir o festival Creamfields, uma espécie de Skol Beats. "Fiquei impressionada ao ver como as mulheres daí são arrumadas", diz Valeria. A galera que curte dançar até de manhã não reclama das baladas bonaerenses. Janta-se depois das 22 horas. Na danceteria Pacha, a pista só começa a encher às 3 da manhã e não esvazia antes das 8 horas.

Cosmopolita, a cidade oferece diversão para todas as tribos. Quem não gosta de carne pode se deliciar no restaurante natural Demetria, no bairro de Saavedra, com mesas no jardim e ingredientes orgânicos no cardápio. Os mais sofisticados preferem o Puerto Madero, onde estão as melhores churrascarias e o estiloso bar Asia de Cuba. E, no domingo, o brunch do Hotel Alvear, tradicionalíssimo. Custa 80 pesos por pessoa e dá direito a frios, saladas, ostra, camarão, mariscos, pratos quentes, sobremesa e espumante à vontade. No fim, café e chá são servidos em bule de prata ao lado de petits-fours tão lindos que parecem enfeite. O mesmo requinte é visto nas vitrines da Avenida Alvear, onde se localiza o hotel. Com uma vantagem em relação a nossa Oscar Freire: as grifes internacionais ficam em palacetes do início do século XX, perto de belíssimas embaixadas, como a do Brasil e a da França.


As coloridas casas do Caminito: um dos programas mais tradicionais Fim de tarde nos Bosques de Palermo: clima de Ibirapuera

Mas não é exatamente ali que a grande parte dos brasileiros gasta dinheiro e sola de sapato. O calçadão da Florida, no centro, atrai quem gosta de pechinchar. Há dezenas de lojas de roupas e acessórios de couro, dançarinos de tango no meio da rua e prédios centenários. Essa região faz parte do roteiro básico das agências de turismo, assim como o Caminito, a Recoleta e San Telmo. Ou seja, os lugares ficam cheios de rostos familiares. No último domingo, a economista Andrea Alberti Issa, que mora nos Jardins, chegou a encontrar – por acaso – uma antiga colega de trabalho na feira de antiguidades de San Telmo. "Nunca imaginava ver uma conhecida nessa viagem", diz Andrea, em sua segunda visita ao país.

Também não dá para fazer o check-out sem assistir a um show de tango. Uma boa pedida é conferir as chamadas milongas, casas freqüentadas pelos argentinos. Há um endereço para cada dia da semana, onde se dança à vontade, como nos forrós daqui. Vale a pena fazer uma aula antes de a casa abrir e, em seguida, escolher uma mesa. Só não baila quem não quer. É mais autêntico e gratificante do que alguns espetáculos feitos apenas para estrangeiros.


Os paulistanos Roberto e Andrea Issa: domingo em San Telmo As Galerías Pacífico: na movimentada Rua Florida

A Librería El Ateneo, que ocupa os cinco andares de um antigo teatro, recuperado em 2000, e a visita guiada ao Teatro Colón (o lugar é gigante e labiríntico. Cuidado para não se perder!) são programas igualmente imperdíveis. Assim como o Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba), onde está exposto o Abaporu, obra-prima de Tarsila do Amaral. Até maio, o 2º andar dá espaço a uma bem-cuidada mostra de dadaísmo e surrealismo, que reúne marcos das vanguardas modernistas, como a Roda de Bicicleta, exibida pelo irreverente Marcel Duchamp em 1912.

Mas não faltam opções para quem quer fugir do circuito turístico. No bairro de Palermo Viejo (dividido entre Palermo Soho e Palermo Hollywood), uma moçada descolada passeia de um lado para outro nos fins de semana. Na Plaza Serrano, um amplo sobrado abriga a Feria Urbana, versão local do Mercado Mundo Mix, aos sábados e domingos à tarde. Fica apinhado de gente e de roupas modernérrimas. Saindo dali, um tour pela região inclui lindas vitrines de lojas de decoração, moda, vinhos e azeites. O ponto alto é a Papelera Palermo, que vende papéis de diferentes texturas, cores e estampas.

Pelo que se vê, há motivos de sobra para embarcar nessa viagem azul e branca. Uma última dica para quem pretende se juntar aos 2.500 paulistanos que estão de malas prontas para curtir a Semana Santa na terra de Borges, Cortázar e Piazzolla. Nada de se preocupar em colocar ovos de Páscoa na mala. Há alguns deliciosos por lá, à venda nas dezenas de lojinhas de alfajores Havana e na sorveteria Persicco.

 
O roteiro preferido de Marta Suplicy


Vitrine da Nina Ricci, na Recoleta: vestido para o casamento

Assim como muitos paulistanos, a prefeita Marta Suplicy gosta de curtir os ares portenhos sempre que tem uma folguinha. Não fala sobre o assunto, mas é sabido que já se tornou cliente cativa de alguns dos estabelecimentos mais chiques de Buenos Aires. Natural que o marido, o franco-argentino Luis Favre, teve influência nisso. Aliás, foi lá que ele a ajudou a escolher um figurino para o casamento, em setembro do ano passado. O vestido, de crepe e organza, com o colo à mostra, foi desenhado pela estilista argentina Sylvie Burstin para a grife francesa Nina Ricci. Recentemente, Marta voltou à butique para levar um tailleur e dois longos – um de festa e outro informal. "É incrível como tudo fica lindo nela", diz Sylvie. Atualmente, na liquidação da marca, encontram-se conjuntos de verão a partir de 700 pesos. A loja fica na elegante Avenida Alvear, a Oscar Freire de lá, onde estão instaladas as principais grifes internacionais, como Cartier, Emporio Armani, Hermès e Zegna. Um palacete de três andares construído em 1900 abriga a Polo Ralph Lauren, também freqüentada pelo casal Marta-Favre. Neste caso, para abastecer o closet dele. De olho no mercado paulistano, o dono da loja, Flavio Alonso, pretende abrir uma filial em São Paulo no início de dezembro.

O Cabaña Las Lilas, em Puerto Madero: jantares com o marido Luis Favre

Caminhar por Puerto Madero, com seus charmosos galpões de tijolos vermelhos totalmente restaurados, é o programa noturno preferido de Marta Suplicy. Um bem-sucedido projeto urbanístico transformou o lugar, onde antigamente havia docas abandonadas, em sede de alguns dos melhores e mais caros restaurantes da cidade. A prefeita e o marido costumam comer no Cabaña Las Lilas, filial argentina da rede de churrascarias Rubaiyat, tão badalado quanto A Figueira da Rua Haddock Lobo. Os presidentes Bill Clinton, Fernando Henrique Cardoso e o primeito-ministro José María Aznar já se sentaram à mesa do Cabaña, que recebe 500 comensais por noite – os paulistanos representam cerca de 10% do movimento. Numa atmosfera romântica, com luz baixa, à margem do Rio Riachuelo, a prefeita adora o "ojo de bife" (34 pesos), o miolo do contrafilé, corte típico da Argentina, que se parece com um medalhão gigante.

 

Dicas espertas


ONDE FICAR

Entre os quatro-estrelas, o El Conquistador (Suipacha, 948, 4328-3012) é um dos mais procurados pelas operadoras (60 dólares a diária do casal). No Gran Hotel Buenos Aires (Marcelo T. de Alvear, 767, 4328-1366, 60 dólares o casal), toda a equipe fala português. Numa categoria acima, está o Claridge (Tucumán, 535, 4314-7700), com quartos pequenos e decoração em estilo inglês (85 dólares o casal). O Alvear (Avenida Alvear, 1891, 4808-2100) e o Four Seasons (Posadas, 1086/1088, 4321-1234) são os mais chiques (254 e 270 dólares o casal, respectivamente).

 

ONDE COMER

Para uma parrilla, o churrasco argentino, o Puerto Madero concentra bons endereços. Filial portenha do Rubaiyat, o Cabaña Las Lilas (Alicia Moreau de Justo, 516, 4313-1336) serve um saboroso "ojo de bife", o miolo de contrafilé (34 pesos), e, de sobremesa, panqueca de doce de leite (12 pesos).

No bairro de Palermo estão os restaurantes moderninhos. Há japoneses, marroquinos, vietnamitas... Um dos melhores é o Olsen (Gorriti, 5870, 4776-7677), de inspiração nórdica. No smörgasbord (29 pesos) (foto), cada um dos cinco canapés acompanha uma dose de vodca diferente – há mais de sessenta rótulos no cardápio. Para ver gente bonita, tome um licuado de durazno (suco de pêssego) no Mark's (El Salvador, 4701, 4832-6244).

As sorveterias são uma atração à parte. A maior rede é a Freddo, com filiais por toda a cidade. Destaque para os cinco sabores de sorvete de doce de leite da Persicco, no complexo La Imprenta, no bairro de Belgrano.

No domingo, o brunch do Hotel Alvear (Avenida Alvear, 1891, 4808-2100), com espumante Norton à vontade, vale os 80 pesos por pessoa. Já uma mesa no jardim do restaurante natural Demetria (Ramallo, 2626, 4703-0020) é garantia de verduras e legumes orgânicos e bons risotos.

 

ONDE CURTIR A NOITE

O Café Tortoni (Avenida de Mayo, 825, 4342-4328) (foto ao lado) tem shows intimistas de tango e jazz todas as noites, com preços a partir de 15 pesos.

Freqüentadas pelos argentinos que curtem dançar tango, as chamadas milongas têm um endereço diferente a cada dia da semana. Na quinta, a ferveção é no Niño Bien (Humberto 1º, 1462, 15 4147-8687). Sugestão: chegue às 21h, faça uma aula e escolha uma mesa. Só não baila quem não quer.

Para uma noite no estilo Vila Olímpia, a pedida é o Rua Báez, em Las Cañitas, ou o Soul Café (número 246, 4778-3115). Encerre a programação de sábado na Pacha (Costanera Norte, 1428, 4788-4280) (foto abaixo). Chegue às 3h, quando a pista começa a encher.


ONDE COMPRAR

O quadrilátero do luxo de Buenos Aires é delimitado pela Avenida Alvear e pela Calle Posadas. No número 1539 da Alvear está a Nina Ricci, onde Marta Suplicy comprou seu vestido de casamento. No 1780, um belíssimo palacete de 1900 abriga a quinta maior Polo Ralph Lauren do mundo. Outros pontos chiques do pedaço são Hermès, Cartier, Zegna, Louis Vuitton e Kenzo. Perto dali fica o Patio Bullrich (Posadas, 1257), um shopping com cheirinho de perfume nos corredores e grifes como Cacharel, Hugo Boss e Christian Dior.

Na Avenida Santa Fe, estão a Librería El Ateneo (no número 1860), num antigo teatro, e a galeria Bond Street (no 1670), uma espécie de Galeria Ouro Fino. Há estúdios de tatuadores, roupas divertidas e todo tipo de acessório.

Palermo Viejo é o lugar das compras descoladas. Há bons azeites argentinos no Cathelo (El Salvador, 4694, 4833-0880). A vinheria La Finca (Costa Rica, 4615, 4832-3004) oferece vinhos de Mendoza baratíssimos. Uma casa na Plaza Serrano abriga a Feria Urbana (Jorge Luis Borges, 1640, 4786-2854), no espírito do Mercado Mundo Mix, aos sábados e domingos, das 13h30 às 19h30. Outra atração da região é a Papelera Palermo (Honduras, 4945, 4833-3081), que vende papéis feitos a mão de várias cores, texturas e estampas.

 

QUEM LEVA

A CVC ( 3889-7011) tem pacotes de duas noites a partir de 308 dólares. Na Agaxtur ( 3067-0900), os preços começam em 248 dólares e na Nascimento ( 3156-9900), em 355 dólares.

 

FIQUE ATENTO!

Como dizem os bonaerenses, "ojo" na hora de conferir o troco. Alguns motoristas de táxi têm o péssimo hábito de repassar notas falsas.

Faça reservas. Restaurantes, shows de tango e até bares dão preferência a clientes que tenham marcado antes.

O DDI da Argentina é 54 e o código de Buenos Aires, 11.

         
     
 
 
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