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7 de abril de 2004
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Um em cada quatro paulistanos mora em favela

Essa é a estimativa mais otimista.
E o problema não pára de crescer

Alessandro Duarte

 
Fotos Mário Rodrigues
Rodoanel: estrada nova cercada por um velho problema


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O aumento em três décadas e as regiões com maior concentração

Em 1973, São Paulo tinha 70.000 pessoas vivendo em favelas. Era pouco mais de 1% da população e o problema quase não preocupava os governantes. Três décadas depois, o que poderia ser considerado um fenômeno restrito tomou a cidade como que por assalto. Hoje, essa população é de 2,6 milhões de pessoas – mais que o dobro do número de moradores de Campinas (incluem-se aí tanto os que vivem em barracos no meio da cidade quanto os loteamentos clandestinos, como aqueles em áreas de mananciais). E isso de acordo com as estimativas mais otimistas. Diversos especialistas acreditam que esse dado pode estar subestimado. "Alguns estudos indicam que metade dos paulistanos mora assim", afirma a arquiteta Ermínia Maricato, secretária executiva do Ministério das Cidades.

A explosão ocorreu graças à disparada do fluxo migratório a São Paulo e à estagnação da economia. De um lado, o mercado imobiliário não oferecia linhas de crédito capazes de atender a população de baixa renda. De outro, o poder público assistiu de camarote à profusão de miseráveis que se instalava em grandes áreas do Estado sem tomar providência alguma. O resultado é o que vemos hoje: 1.600 favelas espalhadas pela cidade e outro tanto pela região metropolitana, não só enfeando a paisagem como trazendo uma série de riscos à população. Quem chega a São Paulo pelos 32 quilômetros do trecho oeste do Rodoanel, a moderna estrada que liga cinco rodovias, passa por um corredor de favelas que se espalham por suas margens. Quando as moradias irregulares invadem áreas de mananciais, como as encostas das represas Billings e Guarapiranga, despejam seus esgotos diretamente nas águas, o que prejudica o abastecimento de toda a Grande São Paulo.

 
A vida em Heliópolis, com seus 100 000 moradores. Barracos são raros e casas de alvenaria tomam conta da paisagem. Acima, sobrado à venda por 30 000 reais e a academia montada pelo fisiculturista Ezequiel Silva, que conta com quarenta alunos. Ao lado, a lanchonete apelidada pelos moradores de "Mec Favela", um dos 491 estabelecimentos comerciais

O aparecimento de Heliópolis, a maior favela da capital, com cerca de 100.000 moradores, é um exemplo de como esse descaso pode ter conseqüências desastrosas. Em 1972, a prefeitura transferiu para um alojamento na área algumas famílias que haviam sido retiradas de um terreno na Vila Prudente. Foram esquecidas ali. Começaram a construir barracos e depois casas de alvenaria. Hoje, não fossem as casas mal-acabadas e as ruas estreitas, a área poderia ser facilmente confundida com um bairro pobre. Lá existem 491 estabelecimentos comerciais, de acordo com um levantamento da consultoria Escopo GeoMarketing, com quase tudo o que os moradores necessitam: bares, lanchonetes, supermercados, salões de beleza, videolocadoras e bancas de jornal.

Há quatro anos, o fisiculturista Ezequiel Paulo da Silva enxergou um filão e montou uma academia de ginástica para atender seus vizinhos. Tem quarenta alunos que pagam entre 20 e 25 reais por mês para usar as esteiras, bicicletas ergométricas e aparelhos de musculação. Alguns contratam até um personal trainer para enrijecer músculos, definir abdome e modelar coxas (e gastam mais 25 reais por mês). O aluguel em Heliópolis custa entre 150 e 300 reais e um sobrado bem localizado pode ser vendido por 30.000 reais. Segundo os moradores, alguns proprietários têm até oito casas e vivem exclusivamente da renda dos aluguéis.

Os programas do governo do Estado e da prefeitura pouco fazem ante o problema. A Secretaria Municipal da Habitação comemora a construção ou viabilização de 40.000 moradias nos últimos quatro anos. A Secretaria Estadual fez 5 800 unidades nos últimos quinze meses e tem outras 15 700 em construção. "Essa situação só irá melhorar com a atuação conjunta de poder público e iniciativa privada", diz o arquiteto italiano Pietro Garau, coordenador de uma força-tarefa da ONU que estuda formas de conter a multiplicação das favelas no mundo, que esteve em São Paulo na semana passada. Realmente, não fosse a ação de empresas e profissionais liberais, o panorama certamente seria ainda mais dramático. "Só precisamos evitar o assistencialismo", afirma o arquiteto Ruy Ohtake, que conseguiu o patrocínio de um grupo de empresários e de uma fabricante de tintas para melhorar a aparência de algumas casas de Heliópolis. A pintura será feita pelos próprios moradores, que receberão pelo trabalho. Não é a solução, claro. Mas torna a realidade menos cinza.

         
     
 
 
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