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URBANISMO
Um
em cada quatro paulistanos mora em favela
Essa
é a estimativa mais otimista.
E o problema não pára de crescer
Alessandro
Duarte
Fotos Mário Rodrigues
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| Rodoanel:
estrada nova cercada por um velho problema |
Em
1973, São Paulo tinha 70.000 pessoas vivendo em favelas.
Era pouco mais de 1% da população e o problema quase
não preocupava os governantes. Três décadas
depois, o que poderia ser considerado um fenômeno restrito
tomou a cidade como que por assalto. Hoje, essa população
é de 2,6 milhões de pessoas mais que o dobro
do número de moradores de Campinas (incluem-se aí
tanto os que vivem em barracos no meio da cidade quanto os loteamentos
clandestinos, como aqueles em áreas de mananciais). E isso
de acordo com as estimativas mais otimistas. Diversos especialistas
acreditam que esse dado pode estar subestimado. "Alguns estudos
indicam que metade dos paulistanos mora assim", afirma a arquiteta
Ermínia Maricato, secretária executiva do Ministério
das Cidades.
A
explosão ocorreu graças à disparada do fluxo
migratório a São Paulo e à estagnação
da economia. De um lado, o mercado imobiliário não
oferecia linhas de crédito capazes de atender a população
de baixa renda. De outro, o poder público assistiu de camarote
à profusão de miseráveis que se instalava em
grandes áreas do Estado sem tomar providência alguma.
O resultado é o que vemos hoje: 1.600 favelas espalhadas
pela cidade e outro tanto pela região metropolitana, não
só enfeando a paisagem como trazendo uma série de
riscos à população. Quem chega a São
Paulo pelos 32 quilômetros do trecho oeste do Rodoanel, a
moderna estrada que liga cinco rodovias, passa por um corredor de
favelas que se espalham por suas margens. Quando as moradias irregulares
invadem áreas de mananciais, como as encostas das represas
Billings e Guarapiranga, despejam seus esgotos diretamente nas águas,
o que prejudica o abastecimento de toda a Grande São Paulo.
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A
vida em Heliópolis, com seus 100 000 moradores. Barracos são
raros e casas de alvenaria tomam conta da paisagem. Acima, sobrado
à venda por 30 000 reais e a academia montada pelo fisiculturista
Ezequiel Silva, que conta com quarenta alunos. Ao lado, a lanchonete
apelidada pelos moradores de "Mec Favela", um dos 491 estabelecimentos
comerciais |
O
aparecimento de Heliópolis, a maior favela da capital, com
cerca de 100.000 moradores, é um exemplo de como esse descaso
pode ter conseqüências desastrosas. Em 1972, a prefeitura
transferiu para um alojamento na área algumas famílias
que haviam sido retiradas de um terreno na Vila Prudente. Foram
esquecidas ali. Começaram a construir barracos e depois casas
de alvenaria. Hoje, não fossem as casas mal-acabadas e as
ruas estreitas, a área poderia ser facilmente confundida
com um bairro pobre. Lá existem 491 estabelecimentos comerciais,
de acordo com um levantamento da consultoria Escopo GeoMarketing,
com quase tudo o que os moradores necessitam: bares, lanchonetes,
supermercados, salões de beleza, videolocadoras e bancas
de jornal.
Há
quatro anos, o fisiculturista Ezequiel Paulo da Silva enxergou um
filão e montou uma academia de ginástica para atender
seus vizinhos. Tem quarenta alunos que pagam entre 20 e 25 reais
por mês para usar as esteiras, bicicletas ergométricas
e aparelhos de musculação. Alguns contratam até
um personal trainer para enrijecer músculos, definir abdome
e modelar coxas (e gastam mais 25 reais por mês). O aluguel
em Heliópolis custa entre 150 e 300 reais e um sobrado bem
localizado pode ser vendido por 30.000 reais. Segundo os moradores,
alguns proprietários têm até oito casas e vivem
exclusivamente da renda dos aluguéis.
Os
programas do governo do Estado e da prefeitura pouco fazem ante
o problema. A Secretaria Municipal da Habitação comemora
a construção ou viabilização de 40.000
moradias nos últimos quatro anos. A Secretaria Estadual fez
5 800 unidades nos últimos quinze meses e tem outras 15 700
em construção. "Essa situação só
irá melhorar com a atuação conjunta de poder
público e iniciativa privada", diz o arquiteto italiano Pietro
Garau, coordenador de uma força-tarefa da ONU que estuda
formas de conter a multiplicação das favelas no mundo,
que esteve em São Paulo na semana passada. Realmente, não
fosse a ação de empresas e profissionais liberais,
o panorama certamente seria ainda mais dramático. "Só
precisamos evitar o assistencialismo", afirma o arquiteto Ruy Ohtake,
que conseguiu o patrocínio de um grupo de empresários
e de uma fabricante de tintas para melhorar a aparência de
algumas casas de Heliópolis. A pintura será feita
pelos próprios moradores, que receberão pelo trabalho.
Não é a solução, claro. Mas torna a
realidade menos cinza.
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