Publicidade
 

 
 
 


7 de abril de 2004
VIAGEM
URBANISMO
PARA AS CRIANÇAS
BARES
MODA
AS BOAS COMPRAS
MISTÉRIOS DA CIDADE
TERRAÇO PAULISTANO
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
   

CRÔNICA

Menu impossível

Walcyr Carrasco

Há algum tempo, resolvi chamar seis amigos para comer uma paella. Fiquei com os bolsos vazios comprando camarões, mariscos, lagostins. Dei o primeiro telefonema.

– Venha jantar em casa!

– Vou, sem falta – respondeu o convidado.

– Estou fazendo uma paella fenomenal!

Do outro lado da linha, um silêncio sepulcral.

– Não gosta de paella?

– Gosto muito, mas não como nada do mar.

O que fazer, por delicadeza? Encontrei uma solução educada.

– Faço a paella só de frango.

Ficou horrenda! Seca, por falta dos sucos dos camarões, dos mariscos e de todas as maravilhas abandonadas no freezer! Parecia areia quando descia raspando a garganta. Todos deram algumas garfadas e largaram o prato, afirmando que estava deliciosa. Queria sumir no chão. Insisti outra vez na paella, para minha família e alguns amigos. Entre eles, o Roberto. Já experiente, avisei:

– É paella.

Surpresa! Também não comia nada do mar. Fui franco.

– Ih! Já encomendei de uma senhora espanhola que faz comida para fora.

O convidado respondeu alegremente:

– No caminho compro alguma coisa. Vou só para fazer companhia.

Acreditei na resposta. Avisei:

– Bem perto de casa tem uma padaria que faz um excelente frango de televisão com farofa.

No sábado, Roberto chegou de mãos abanando. Olhou a mesa, horrorizado.

– Só tem paella?

– Não falei para trazer um frango da padaria?

– Pensei que estava brincando.

Ofendeu-se. Ofereci:

– Posso mandar fritar um ovo.

– Deixe, não estou com fome – rosnou.

Respeito a alergia alheia. Mas eu não tinha avisado? Outro dia, foi a vez do Ricardo. Botei uma salada na mesa.

– Não como nada verde – explicou.

Apavorei-me, lembrando do macarrão com brócolis à espera para ser servido.

– É bom para a saúde.

– Se verdura fosse gostosa, fariam rodízio – opinou ele.

Apavorado, tentei uma solução de emergência.

– Vamos para o japonês aqui perto?

– Não freqüento restaurante onde o guardanapo vem quente e a comida fria!

Dali a pouco estava batendo uma omelete. O convidado me observava com o nariz torcido.

– Só vai servir omelete?

Haja! Faço churrascos. Nas primeiras calabresas, sempre surge um inconveniente:

– Não como carne!

Se convidei para um churrasco, por que veio torrar a paciência? O pior dos casos – talvez já tenha até contado, pois é um trauma – foi com minha amiga Lalá. Liguei:

– Venha almoçar sábado!

– Vou sim, que ótimo!

Cautelosamente, inquiri:

– Gosta de peixe?

– Adoro!

Botei o dourado no forno. Um dos meus prazeres sinceros é cozinhar. Trouxe orgulhoso na fôrma um lindo peixe, inteiro, assado com ervas, exalando aromas deliciosos! Lalá pegou um pedacinho. Fingiu comer.

– Não está bom? – assustei-me.

– Tem sabor de peixe.

– É peixe! Você não... adorava?

– Mas não como peixe com gosto de peixe.

Quase peguei o dourado pelo rabo e dei umas peixadas na cabeça dela.

Na última festa, pedi o conselho de um banqueteiro profissional.

– Ofereça frango. Carne branca todo mundo come.

Segui o palpite. Enchi a mesa de espetinhos de frango com molho asiático. Um charme. Não sobrou um para contar a história. A festa atravessou a noite. Dali a alguns dias, encontrei com um convidado.

– Boa festa – comentou ele. – Gente bonita, papo ótimo...

Já estava me inflando de orgulho, quando arrematou:

– Mas você só serviu frango... deixe de ser pão-duro!

Uh! Como as pessoas andam se tornando difíceis! Quando a gente quer reunir os amigos, pode acabar ficando doido!

         
     
 
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | VEJA Noite São Paulo
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados