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CRÔNICA
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impossível
Walcyr
Carrasco
Há
algum tempo, resolvi chamar seis amigos para comer uma paella. Fiquei
com os bolsos vazios comprando camarões, mariscos, lagostins.
Dei o primeiro telefonema.
Venha jantar em casa!
Vou, sem falta respondeu o convidado.
Estou fazendo uma paella fenomenal!
Do
outro lado da linha, um silêncio sepulcral.
Não gosta de paella?
Gosto muito, mas não como nada do mar.
O
que fazer, por delicadeza? Encontrei uma solução educada.
Faço a paella só de frango.
Ficou
horrenda! Seca, por falta dos sucos dos camarões, dos mariscos
e de todas as maravilhas abandonadas no freezer! Parecia areia quando
descia raspando a garganta. Todos deram algumas garfadas e largaram
o prato, afirmando que estava deliciosa. Queria sumir no chão.
Insisti outra vez na paella, para minha família e alguns
amigos. Entre eles, o Roberto. Já experiente, avisei:
É paella.
Surpresa!
Também não comia nada do mar. Fui franco.
Ih! Já encomendei de uma senhora espanhola que faz comida
para fora.
O
convidado respondeu alegremente:
No caminho compro alguma coisa. Vou só para fazer companhia.
Acreditei
na resposta. Avisei:
Bem perto de casa tem uma padaria que faz um excelente frango de
televisão com farofa.
No
sábado, Roberto chegou de mãos abanando. Olhou a mesa,
horrorizado.
Só tem paella?
Não falei para trazer um frango da padaria?
Pensei que estava brincando.
Ofendeu-se.
Ofereci:
Posso mandar fritar um ovo.
Deixe, não estou com fome rosnou.
Respeito
a alergia alheia. Mas eu não tinha avisado? Outro dia, foi
a vez do Ricardo. Botei uma salada na mesa.
Não como nada verde explicou.
Apavorei-me,
lembrando do macarrão com brócolis à espera
para ser servido.
É bom para a saúde.
Se verdura fosse gostosa, fariam rodízio opinou ele.
Apavorado,
tentei uma solução de emergência.
Vamos para o japonês aqui perto?
Não freqüento restaurante onde o guardanapo vem quente
e a comida fria!
Dali
a pouco estava batendo uma omelete. O convidado me observava com
o nariz torcido.
Só vai servir omelete?
Haja!
Faço churrascos. Nas primeiras calabresas, sempre surge um
inconveniente:
Não como carne!
Se
convidei para um churrasco, por que veio torrar a paciência?
O pior dos casos talvez já tenha até contado,
pois é um trauma foi com minha amiga Lalá.
Liguei:
Venha almoçar sábado!
Vou sim, que ótimo!
Cautelosamente,
inquiri:
Gosta de peixe?
Adoro!
Botei
o dourado no forno. Um dos meus prazeres sinceros é cozinhar.
Trouxe orgulhoso na fôrma um lindo peixe, inteiro, assado
com ervas, exalando aromas deliciosos! Lalá pegou um pedacinho.
Fingiu comer.
Não está bom? assustei-me.
Tem sabor de peixe.
É peixe! Você não... adorava?
Mas não como peixe com gosto de peixe.
Quase
peguei o dourado pelo rabo e dei umas peixadas na cabeça
dela.
Na
última festa, pedi o conselho de um banqueteiro profissional.
Ofereça frango. Carne branca todo mundo come.
Segui
o palpite. Enchi a mesa de espetinhos de frango com molho asiático.
Um charme. Não sobrou um para contar a história. A
festa atravessou a noite. Dali a alguns dias, encontrei com um convidado.
Boa festa comentou ele. Gente bonita, papo ótimo...
Já
estava me inflando de orgulho, quando arrematou:
Mas você só serviu frango... deixe de ser pão-duro!
Uh!
Como as pessoas andam se tornando difíceis! Quando a gente
quer reunir os amigos, pode acabar ficando doido!
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