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7 de janeiro de 2004
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CRÔNICA

Gêmeos

Ivan Angelo

Em um mundo de solitários, os gêmeos têm a vantagem da companhia muito antes de nascer. Dentro da barriga, aprendem a compartilhar o espaço e os bens, escassos, mas é tudo de que precisam até ali. Vivem situações de camaradagem e de solidariedade, antes de poder compreender qualquer coisa.

A quem olha uma barrigona daquelas e fica sabendo que virão gêmeos pode ocorrer uma pergunta quase infantil: como a natureza decide qual deles vai nascer primeiro? No caso de parto natural, a precedência se resolve simplesmente por acaso ou oportunidade? Talvez o pequeno par cumpra aí uma regrazinha básica da boa educação: quem está mais próximo da porta passa primeiro.

Como um tolo, divago: já existirá neles algum traço incipiente de personalidade, sugerindo a um que se coloque mais perto da porta, malandrinho? Existirão acaso os apressadinhos, como aqueles passageiros ansiosos de sala de embarque de aeroporto, que se colocam em posição com muita antecedência – no caso de bebês, com semanas de antecedência? E haverá os descansados, que se deixam ficar confortáveis, na boa, sabendo que aquele avião não vai partir sem eles?

Na época em que os primogênitos tinham privilégios, como o direito a uma eventual coroa real ou à parte maior dos bens sucessórios, era importante chegar ao mundo primeiro; hoje, não. Talvez seja melhor aguardar a última chamada.

Diz a lenda bíblica que Esaú e Jacó já brigavam na barriga da mãe, Rebeca. Esaú nasceu primeiro, mas Jacó veio agarrando-o pelo pé com uma das mãos. Continuaram a brigar pela vida afora. Nem todas as histórias de gêmeos são de brigas: conheço duas irmãs, idênticas, mais lindas não há, que até provas de escola faziam uma pela outra, da matéria que melhor soubessem. Na mitologia grega, Castor e Pólux, deuses da hospitalidade e protetores dos mortais contra os perigos, conseguiram que Zeus os deixasse ficar juntos para sempre, nos céus, e formam a constelação de Gêmeos. Na cultura pré-colombiana do México, dois irmãos, os Heróis Gêmeos, são os grandes renovadores, que juntos transformam as coisas caducas, ultrapassadas e imperfeitas, em coisas novas.

Gêmeos significam dose dupla de mamadas – sacrifício amoroso da tresnoitada mãe –, de trocas de fraldas, de pequenas roupas para cuidar, de mamadeiras, de berços, de carrinhos, de choros, preocupações, despesas, tudo alongado em projeções futuras de aniversários, lições de casa, presentes de Natal, crises de idade, dores-de-cotovelo – e por aí vai. Mas também, certamente, dose dupla de risos, gracinhas, festas, bolos, cantoria, padrinhos, amigos, conquistas.

Meu passeio sentimental em torno do tema tem uma explicação: este começo de 2004 traz-me a condição nova de ser avô de gêmeos. É incrível o encanto das pessoas por esses pares ímpares. Eu vinha reparando, há meses, que todos, até desconhecidos, taxistas, porteiros, vizinhas, interlocutores ocasionais, se mostravam alegremente surpresos com a informação, como se ouvissem algo fantástico, e mais ainda ao ficar sabendo que os esperados eram um casal. Suspeito que se imagine algo de mágico nos gêmeos.

Quando fui ver a duplazinha no ultra-som, maravilhou-me sua encantatória movimentação naquele ambiente aquático, em lentíssima dança, marcada por alguns bocejos dos próprios artistas. Tocavam-se, roçavam a mão ou o pé na bolha do outro. Um bonito pas de deux que tomara se prolongue ao longo da vida. Feliz ano, meninos, feliz século.

         
     
 
 
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