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CRÔNICA
Gêmeos
Ivan
Angelo
Em
um mundo de solitários, os gêmeos têm a vantagem
da companhia muito antes de nascer. Dentro da barriga, aprendem
a compartilhar o espaço e os bens, escassos, mas é
tudo de que precisam até ali. Vivem situações
de camaradagem e de solidariedade, antes de poder compreender qualquer
coisa.
A
quem olha uma barrigona daquelas e fica sabendo que virão
gêmeos pode ocorrer uma pergunta quase infantil: como a natureza
decide qual deles vai nascer primeiro? No caso de parto natural,
a precedência se resolve simplesmente por acaso ou oportunidade?
Talvez o pequeno par cumpra aí uma regrazinha básica
da boa educação: quem está mais próximo
da porta passa primeiro.
Como
um tolo, divago: já existirá neles algum traço
incipiente de personalidade, sugerindo a um que se coloque mais
perto da porta, malandrinho? Existirão acaso os apressadinhos,
como aqueles passageiros ansiosos de sala de embarque de aeroporto,
que se colocam em posição com muita antecedência
no caso de bebês, com semanas de antecedência?
E haverá os descansados, que se deixam ficar confortáveis,
na boa, sabendo que aquele avião não vai partir sem
eles?
Na
época em que os primogênitos tinham privilégios,
como o direito a uma eventual coroa real ou à parte maior
dos bens sucessórios, era importante chegar ao mundo primeiro;
hoje, não. Talvez seja melhor aguardar a última chamada.
Diz
a lenda bíblica que Esaú e Jacó já brigavam
na barriga da mãe, Rebeca. Esaú nasceu primeiro, mas
Jacó veio agarrando-o pelo pé com uma das mãos.
Continuaram a brigar pela vida afora. Nem todas as histórias
de gêmeos são de brigas: conheço duas irmãs,
idênticas, mais lindas não há, que até
provas de escola faziam uma pela outra, da matéria que melhor
soubessem. Na mitologia grega, Castor e Pólux, deuses da
hospitalidade e protetores dos mortais contra os perigos, conseguiram
que Zeus os deixasse ficar juntos para sempre, nos céus,
e formam a constelação de Gêmeos. Na cultura
pré-colombiana do México, dois irmãos, os Heróis
Gêmeos, são os grandes renovadores, que juntos transformam
as coisas caducas, ultrapassadas e imperfeitas, em coisas novas.
Gêmeos
significam dose dupla de mamadas sacrifício amoroso
da tresnoitada mãe , de trocas de fraldas, de pequenas
roupas para cuidar, de mamadeiras, de berços, de carrinhos,
de choros, preocupações, despesas, tudo alongado em
projeções futuras de aniversários, lições
de casa, presentes de Natal, crises de idade, dores-de-cotovelo
e por aí vai. Mas também, certamente, dose
dupla de risos, gracinhas, festas, bolos, cantoria, padrinhos, amigos,
conquistas.
Meu
passeio sentimental em torno do tema tem uma explicação:
este começo de 2004 traz-me a condição nova
de ser avô de gêmeos. É incrível o encanto
das pessoas por esses pares ímpares. Eu vinha reparando,
há meses, que todos, até desconhecidos, taxistas,
porteiros, vizinhas, interlocutores ocasionais, se mostravam alegremente
surpresos com a informação, como se ouvissem algo
fantástico, e mais ainda ao ficar sabendo que os esperados
eram um casal. Suspeito que se imagine algo de mágico nos
gêmeos.
Quando
fui ver a duplazinha no ultra-som, maravilhou-me sua encantatória
movimentação naquele ambiente aquático, em
lentíssima dança, marcada por alguns bocejos dos próprios
artistas. Tocavam-se, roçavam a mão ou o pé
na bolha do outro. Um bonito pas de deux que tomara se prolongue
ao longo da vida. Feliz ano, meninos, feliz século.
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