| |
|
|
 |
|
NOITE
Todos
querem ser DJ
A
fama de Marky, Patife
e Mau Mau
em casas noturnas internacionais atrai
uma legião de jovens para a discotecagem
Marcella
Centofanti
Heudes Regis
 |
| A
modelo e DJ Denise Konsen, 20 anos: "Os caras dão em cima mesmo.
Fui até agarrada enquanto tocava" |
Tempos
atrás, DJ era quase um joão-ninguém. Entrava
pela porta de serviço das casas noturnas, recebia uns trocados
pelo serviço e nem os garçons sabiam seu nome. Era
considerado um mero t(r)ocador de discos. A partir da década
de 90, com a propagação da música eletrônica,
a situação mudou. O DJ ganhou a condição
de dono da noite, transformando-se em um dos responsáveis
pelo sucesso ou fracasso de qualquer festa. Pode ser aplaudido
ou vaiado. Alguns se tornaram grifes. Ao entrar nos clubes, boates
e discotecas agora pela porta da frente , atraem os
olhares e recebem saudações. Parecer amigo deles é
o máximo. Seus nomes aparecem em destaque nos folhetos de
divulgação das baladas. Até a arquitetura dos
lugares em que atuam mudou por causa deles. Antes confinadas a espaços
minúsculos, longe das pistas de dança, suas cabines
passaram a ser posicionadas em pontos de alta visibilidade.
Seus
cachês subiram. Os principais nomes podem ganhar 3.000
reais por duas horinhas de serviço. Ilustram colunas sociais,
gravam discos, têm programas em rádio e aparecem na
TV casos de Zé Pedro, Théo Werneck e Érica
Li. O trabalho deles extrapolou a noite e chegou a restaurantes,
bares, festas particulares, academias e lojas chiques. Calcula-se
que a cidade tenha cerca de 500 profissionais. Com tanto destaque,
a discotecagem virou uma febre e contagiou muitos jovens. E não
apenas fãs de música eletrônica. Há gente
especializada em gêneros como black music, disco, rock e MPB.
Vez ou outra, famosos como Luciano Huck, Carolina Ferraz e Fernanda
Young são vistos no comando do som. "Antes, o legal era ter
uma banda de rock. Agora, os jovens querem aprender a manusear os
pick-ups", diz Mauricio Fernando Bischain, o badaladérrimo
Mau Mau.
Heudes Regis
 |
Renato Chaui
 |
| Felipe
Venancio: "O DJ conhece todo mundo, entra onde quer e sua cabine
é o melhor lugar da festa" |
Marky,
o nº 1 do planeta, segundo a revista Knowledge: exibições
de drum'n'bass em mais de vinte países |
Entre
os astros da discotecagem, nenhum resplandece tanto quanto o paulistano
Marco Antonio da Silva, o Marky (ex-Marky Mark), de 29 anos. É
a fera brasileira mais conhecida no exterior. Em 2000, Marky foi
eleito o melhor do mundo pela revista especializada inglesa Knowledge.
No ano passado, ilustrou a capa da DJ Magazine, a bíblia
dos amantes da música eletrônica. Seus pick-ups já
ecoaram o drum'n'bass (batidas fortes e aceleradas, inspiradas na
mistura de reggae com hip hop) em mais de vinte países. Filho
de um ex-monitor da Febem e de uma costureira, Marky nasceu e foi
criado na Penha. Aos 11 anos, era responsável por embalar
festinhas de amigos. Aos 19, foi trabalhar na Toco, mítica
danceteri Aos 11 anos, era responsável por embalar
festinhas de amigos. Aos 19, foi trabalhar na Toco, mítica
danceteria da Vila Matilde. Ficou quatro anos por lá, até
ser convidado a se apresentar na Lov.e., onde virou ídolo
do povo da noite. "Tem gente que só quer tocar para beijar
mulher bonita, e isso desvaloriza nosso trabalho", diz ele, que
anda de tênis e boné, dirige um Astra, continua morando
na Zona Leste e, segundo os colegas, faz de tudo para não
ostentar, embora seja o mais bem pago e aclamado DJ brasileiro.
Os
DJs realmente exercem fascínio sobre o público. Sempre
há alguma garota que se posiciona em frente à cabine,
dança de forma provocante, dispara olhares e puxa conversa.
Na gíria deles, é a "maria-pick-up". Quando o som
é comandado por mulheres, o assédio cresce. Que o
diga a modelo Denise Konsen, 20 anos. A presença de seu namorado,
o DJ argentino Gabriel Edenburg, o Gabo, inibe os mais saidinhos.
Mas, quando está sozinha, as atitudes mudam. "Já fui
agarrada por um cara em João Pessoa, na Paraíba",
conta. As incursões de Denise na discotecagem começaram
há três anos, quando conheceu Gabo. Atualmente, faz
parte de uma agência especializada, a Hypno, toca de duas
a três vezes por semana e está gravando um CD. Neste
ano, ela e Gabo ocuparam uma das quatro tendas do Skol Beats, evento
que reuniu 40.000 pessoas, em abril,
no Autódromo de Interlagos. "Quando uma garota comanda o
som, a cabine ganha um charme especial", diz a DJ Mônica Soldan,
especialista em lounge (versão eletrônica e moderninha
da música de elevador). Ela abriu uma agência e uma
escola para ensinar a técnica a mulheres. No mês passado,
fechou uma parceria com a agência de modelos Ford para ensinar
a profissão às meninas.
Heudes Regis
 |
| O
estilista Alexandre Herchcovitch e o modelo Johnny Luxo, DJs
nas horas vagas: doze apresentações até
o fim do ano |
Esse
glamour veio na carona do êxito estrondoso que alguns DJs
fazem aqui e fora do país. Ao lado de Marky, Wagner Ribeiro
de Souza, o Patife, de 25 anos, é um dos maiores expoentes
brasileiros, especialmente do drum' n'bass. A música Só
Tinha de Ser com Você, de Tom Jobim, gravada por Fernanda
Porto e mixada por Patife, depois de virar tema de novela na Globo,
estourou nas rádios e pistas de dança fora do meio
underground. Patife, que foi entregador de pizza e office-boy, está
em turnê na Europa. Outro que lota as casas a que vai é
o carioca Felipe Venancio. Ele se mudou para São Paulo quando
casou com a colunista da noite e editora de moda Erika Palomino
fato que, para certos linguarudos, explicaria seu sucesso
na cidade. Venancio leva seu som house (batida inspirada no soul
e na black music) para a Disco, o Mood Club e o Xingu. "É
compreensível que os jovens queiram ser DJs", afirma. "É
uma profissão muito legal. Você conhece todo mundo,
entra em qualquer lugar e sua cabine é o espaço mais
bem freqüentado da festa."
Ricardo Benichio
 |
Heudes Regis
 |
| Patife,
agora em turnê pela Europa: sucesso nas rádios ao mixar Só
Tinha de Ser com Você, de Tom Jobim |
Mau
Mau: "Dez anos atrás, o legal era ter uma banda de rock. Hoje,
é arrasar nos pick-ups" |
O primeiro
a ver seu nome sair dos limites do circuito eletrônico underground
foi Mau Mau. Ele tocou no Hell's Club, o pioneiro entre os clubes
after-hours, aqueles que abrem no fim da madrugada. Com cinco CDs
gravados, é um dos responsáveis por espalhar o tecno
(o consagrado bate-estaca) por boates e rádios. Em setembro,
ao lado de Renato Lopes e Anderson Noise, esteve na Techno Parade,
que reuniu 80.000 pessoas em Paris. Calcula
ter 10.000 vinis (os DJs mais radicais
desprezam CDs), a maior parte de música eletrônica.
Mau Mau estreou no Madame Satã, em 1987, depois de conhecer
os DJs da casa, Marquinhos MS e Magal. Durante dois anos, conciliou
a discotecagem com o curso de publicidade na PUC e o ganha-pão
como caixa do Bradesco numa agência da Freguesia do Ó,
onde morava. Hoje vive a um quarteirão da Avenida Paulista.
"As pessoas acham que é fácil, só festa", reclama.
"Mas eu batalhei muito antes de ser reconhecido."
Heudes Regis
 |
| Paulinho
Boghosian, residente da boate Living Room: dividido entre os
toca-discos e o curso de administração |
Além
dos que vivem exclusivamente de tocar, há milhares de outros
que encaram a atividade como segunda fonte de renda ou hobby. Há
três meses, o estilista Alexandre Herchcovitch iniciou-se
no mundinho dos pick-ups. Ele e seu inseparável Johnny Luxo
foram convidados para tocar numa noite na boate Ultralounge. Desde
então, fizeram dez apresentações. Até
o fim do ano, outras doze estão agendadas. Para eles, o humor
do repertório explica o sucesso. "Escolhemos músicas
de bandas que rondam o imaginário das pessoas, como Menudo
e New Kids on the Block", diz Johnny.
Heudes Regis
 |
| Produtora
de filmes, Camila, de 24 anos, é especialista em música brasileira:
"Só não coloco axé, sertanejo nem pagode" |
Alguns
chegam a ficar divididos entre as funções diurnas
e noturnas. O estudante Paulinho Boghosian, de 21 anos, ainda não
sabe como conciliar o curso de administração com os
pick-ups. Toca três ou quatro vezes por semana. No ano que
vem, quando pretende arrumar um estágio, sua rotina deve
ficar mais puxada. "Quero unir a faculdade com a música",
sonha ele, para preocupação dos pais, que gostariam
de ver a discotecagem apenas como uma brincadeira. Combinar as atividades
é igualmente complicado para a produtora de filmes Camila
Kfouri. Camila, de 24 anos, tenta não tocar durante a semana
para não atrapalhar sua rotina profissional, mas nem sempre
consegue. "É um barato controlar as pistas e animar as pessoas",
diz ela, uma autodidata que ganha entre 500 e 700 reais por apresentação.
Camila foge do padrão eletrônico. Seu repertório
é inteiramente brasileiro. Apenas axé, pagode e sertanejo
passam longe da seleção musical.
Poliana de Souza Pinto
 |
| A
Parada da Paz, o maior evento de música eletrônica do país,
no ano passado: sua sexta edição, no próximo domingo, reunirá
100 DJs |
Como
Camila, a maior parte começa a tocar sozinha. Invariavelmente
são pessoas que gostam de música e freqüentam
festas. Aos poucos, fazem amizade com o pessoal do ramo, compram
discos e logo partem para os scratchs (movimento que os DJs fazem
com as mãos sobre os discos). Vários recorrem a cursos
especializados. O mais famoso é o de Iraí Campos.
Foi aberto em 1988, custa 340 reais, com oito aulas, e formou cerca
de 2.500 paulistanos. "No começo,
fui criticado, pois achavam que a concorrência iria crescer
demais com as escolas", lembra. Um negócio mais recente são
as agências, que surgiram há quatro anos. Elas agendam
trabalhos e cuidam da burocracia. Em troca, abocanham de 10% a 20%
do cachê. "Nós ajudamos a profissionalizar a atividade",
acredita Renato Lopes, sócio da SmartBiz. Neste momento,
as agências de DJs estão atribuladas com os preparativos
da Parada da Paz, marcada para o próximo domingo (10), nos
arredores do Parque do Ibirapuera. Na sexta edição
do evento, considerado o Carnaval da música eletrônica
brasileira, cerca de 100 DJs (o dobro do que havia no ano passado)
devem exibir-se em dezenove trios elétricos, das 11 às
22 horas. Todos os grandes nomes estarão lá. Será
um festival de egos, badalação e muito, muito tum-tchi-tum.
|