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6 de novembro de 2002
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NOITE

Todos querem ser DJ

A fama de Marky, Patife e Mau Mau
em casas noturnas internacionais atrai
uma legião de jovens para a discotecagem

Marcella Centofanti


Heudes Regis
A modelo e DJ Denise Konsen, 20 anos: "Os caras dão em cima mesmo. Fui até agarrada enquanto tocava"



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Ouça trechos de músicas mixadas por DJs

Tempos atrás, DJ era quase um joão-ninguém. Entrava pela porta de serviço das casas noturnas, recebia uns trocados pelo serviço e nem os garçons sabiam seu nome. Era considerado um mero t(r)ocador de discos. A partir da década de 90, com a propagação da música eletrônica, a situação mudou. O DJ ganhou a condição de dono da noite, transformando-se em um dos responsáveis pelo sucesso ou fracasso de qualquer festa. Pode ser aplaudido – ou vaiado. Alguns se tornaram grifes. Ao entrar nos clubes, boates e discotecas – agora pela porta da frente –, atraem os olhares e recebem saudações. Parecer amigo deles é o máximo. Seus nomes aparecem em destaque nos folhetos de divulgação das baladas. Até a arquitetura dos lugares em que atuam mudou por causa deles. Antes confinadas a espaços minúsculos, longe das pistas de dança, suas cabines passaram a ser posicionadas em pontos de alta visibilidade.

Seus cachês subiram. Os principais nomes podem ganhar 3.000 reais por duas horinhas de serviço. Ilustram colunas sociais, gravam discos, têm programas em rádio e aparecem na TV – casos de Zé Pedro, Théo Werneck e Érica Li. O trabalho deles extrapolou a noite e chegou a restaurantes, bares, festas particulares, academias e lojas chiques. Calcula-se que a cidade tenha cerca de 500 profissionais. Com tanto destaque, a discotecagem virou uma febre e contagiou muitos jovens. E não apenas fãs de música eletrônica. Há gente especializada em gêneros como black music, disco, rock e MPB. Vez ou outra, famosos como Luciano Huck, Carolina Ferraz e Fernanda Young são vistos no comando do som. "Antes, o legal era ter uma banda de rock. Agora, os jovens querem aprender a manusear os pick-ups", diz Mauricio Fernando Bischain, o badaladérrimo Mau Mau.


Heudes Regis
Renato Chaui
Felipe Venancio: "O DJ conhece todo mundo, entra onde quer e sua cabine é o melhor lugar da festa" Marky, o nº 1 do planeta, segundo a revista Knowledge: exibições de drum'n'bass em mais de vinte países

Entre os astros da discotecagem, nenhum resplandece tanto quanto o paulistano Marco Antonio da Silva, o Marky (ex-Marky Mark), de 29 anos. É a fera brasileira mais conhecida no exterior. Em 2000, Marky foi eleito o melhor do mundo pela revista especializada inglesa Knowledge. No ano passado, ilustrou a capa da DJ Magazine, a bíblia dos amantes da música eletrônica. Seus pick-ups já ecoaram o drum'n'bass (batidas fortes e aceleradas, inspiradas na mistura de reggae com hip hop) em mais de vinte países. Filho de um ex-monitor da Febem e de uma costureira, Marky nasceu e foi criado na Penha. Aos 11 anos, era responsável por embalar festinhas de amigos. Aos 19, foi trabalhar na Toco, mítica danceteri Aos 11 anos, era responsável por embalar festinhas de amigos. Aos 19, foi trabalhar na Toco, mítica danceteria da Vila Matilde. Ficou quatro anos por lá, até ser convidado a se apresentar na Lov.e., onde virou ídolo do povo da noite. "Tem gente que só quer tocar para beijar mulher bonita, e isso desvaloriza nosso trabalho", diz ele, que anda de tênis e boné, dirige um Astra, continua morando na Zona Leste e, segundo os colegas, faz de tudo para não ostentar, embora seja o mais bem pago e aclamado DJ brasileiro.

Os DJs realmente exercem fascínio sobre o público. Sempre há alguma garota que se posiciona em frente à cabine, dança de forma provocante, dispara olhares e puxa conversa. Na gíria deles, é a "maria-pick-up". Quando o som é comandado por mulheres, o assédio cresce. Que o diga a modelo Denise Konsen, 20 anos. A presença de seu namorado, o DJ argentino Gabriel Edenburg, o Gabo, inibe os mais saidinhos. Mas, quando está sozinha, as atitudes mudam. "Já fui agarrada por um cara em João Pessoa, na Paraíba", conta. As incursões de Denise na discotecagem começaram há três anos, quando conheceu Gabo. Atualmente, faz parte de uma agência especializada, a Hypno, toca de duas a três vezes por semana e está gravando um CD. Neste ano, ela e Gabo ocuparam uma das quatro tendas do Skol Beats, evento que reuniu 40.000 pessoas, em abril, no Autódromo de Interlagos. "Quando uma garota comanda o som, a cabine ganha um charme especial", diz a DJ Mônica Soldan, especialista em lounge (versão eletrônica e moderninha da música de elevador). Ela abriu uma agência e uma escola para ensinar a técnica a mulheres. No mês passado, fechou uma parceria com a agência de modelos Ford para ensinar a profissão às meninas.


Heudes Regis
O estilista Alexandre Herchcovitch e o modelo Johnny Luxo, DJs nas horas vagas: doze apresentações até o fim do ano

Esse glamour veio na carona do êxito estrondoso que alguns DJs fazem aqui e fora do país. Ao lado de Marky, Wagner Ribeiro de Souza, o Patife, de 25 anos, é um dos maiores expoentes brasileiros, especialmente do drum' n'bass. A música Só Tinha de Ser com Você, de Tom Jobim, gravada por Fernanda Porto e mixada por Patife, depois de virar tema de novela na Globo, estourou nas rádios e pistas de dança fora do meio underground. Patife, que foi entregador de pizza e office-boy, está em turnê na Europa. Outro que lota as casas a que vai é o carioca Felipe Venancio. Ele se mudou para São Paulo quando casou com a colunista da noite e editora de moda Erika Palomino – fato que, para certos linguarudos, explicaria seu sucesso na cidade. Venancio leva seu som house (batida inspirada no soul e na black music) para a Disco, o Mood Club e o Xingu. "É compreensível que os jovens queiram ser DJs", afirma. "É uma profissão muito legal. Você conhece todo mundo, entra em qualquer lugar e sua cabine é o espaço mais bem freqüentado da festa."


Ricardo Benichio
Heudes Regis
Patife, agora em turnê pela Europa: sucesso nas rádios ao mixar Só Tinha de Ser com Você, de Tom Jobim Mau Mau: "Dez anos atrás, o legal era ter uma banda de rock. Hoje, é arrasar nos pick-ups"

O primeiro a ver seu nome sair dos limites do circuito eletrônico underground foi Mau Mau. Ele tocou no Hell's Club, o pioneiro entre os clubes after-hours, aqueles que abrem no fim da madrugada. Com cinco CDs gravados, é um dos responsáveis por espalhar o tecno (o consagrado bate-estaca) por boates e rádios. Em setembro, ao lado de Renato Lopes e Anderson Noise, esteve na Techno Parade, que reuniu 80.000 pessoas em Paris. Calcula ter 10.000 vinis (os DJs mais radicais desprezam CDs), a maior parte de música eletrônica. Mau Mau estreou no Madame Satã, em 1987, depois de conhecer os DJs da casa, Marquinhos MS e Magal. Durante dois anos, conciliou a discotecagem com o curso de publicidade na PUC e o ganha-pão como caixa do Bradesco numa agência da Freguesia do Ó, onde morava. Hoje vive a um quarteirão da Avenida Paulista. "As pessoas acham que é fácil, só festa", reclama. "Mas eu batalhei muito antes de ser reconhecido."


Heudes Regis
Paulinho Boghosian, residente da boate Living Room: dividido entre os toca-discos e o curso de administração

Além dos que vivem exclusivamente de tocar, há milhares de outros que encaram a atividade como segunda fonte de renda ou hobby. Há três meses, o estilista Alexandre Herchcovitch iniciou-se no mundinho dos pick-ups. Ele e seu inseparável Johnny Luxo foram convidados para tocar numa noite na boate Ultralounge. Desde então, fizeram dez apresentações. Até o fim do ano, outras doze estão agendadas. Para eles, o humor do repertório explica o sucesso. "Escolhemos músicas de bandas que rondam o imaginário das pessoas, como Menudo e New Kids on the Block", diz Johnny.


Heudes Regis
Produtora de filmes, Camila, de 24 anos, é especialista em música brasileira: "Só não coloco axé, sertanejo nem pagode"

Alguns chegam a ficar divididos entre as funções diurnas e noturnas. O estudante Paulinho Boghosian, de 21 anos, ainda não sabe como conciliar o curso de administração com os pick-ups. Toca três ou quatro vezes por semana. No ano que vem, quando pretende arrumar um estágio, sua rotina deve ficar mais puxada. "Quero unir a faculdade com a música", sonha ele, para preocupação dos pais, que gostariam de ver a discotecagem apenas como uma brincadeira. Combinar as atividades é igualmente complicado para a produtora de filmes Camila Kfouri. Camila, de 24 anos, tenta não tocar durante a semana para não atrapalhar sua rotina profissional, mas nem sempre consegue. "É um barato controlar as pistas e animar as pessoas", diz ela, uma autodidata que ganha entre 500 e 700 reais por apresentação. Camila foge do padrão eletrônico. Seu repertório é inteiramente brasileiro. Apenas axé, pagode e sertanejo passam longe da seleção musical.


Poliana de Souza Pinto
A Parada da Paz, o maior evento de música eletrônica do país, no ano passado: sua sexta edição, no próximo domingo, reunirá 100 DJs

Como Camila, a maior parte começa a tocar sozinha. Invariavelmente são pessoas que gostam de música e freqüentam festas. Aos poucos, fazem amizade com o pessoal do ramo, compram discos e logo partem para os scratchs (movimento que os DJs fazem com as mãos sobre os discos). Vários recorrem a cursos especializados. O mais famoso é o de Iraí Campos. Foi aberto em 1988, custa 340 reais, com oito aulas, e formou cerca de 2.500 paulistanos. "No começo, fui criticado, pois achavam que a concorrência iria crescer demais com as escolas", lembra. Um negócio mais recente são as agências, que surgiram há quatro anos. Elas agendam trabalhos e cuidam da burocracia. Em troca, abocanham de 10% a 20% do cachê. "Nós ajudamos a profissionalizar a atividade", acredita Renato Lopes, sócio da SmartBiz. Neste momento, as agências de DJs estão atribuladas com os preparativos da Parada da Paz, marcada para o próximo domingo (10), nos arredores do Parque do Ibirapuera. Na sexta edição do evento, considerado o Carnaval da música eletrônica brasileira, cerca de 100 DJs (o dobro do que havia no ano passado) devem exibir-se em dezenove trios elétricos, das 11 às 22 horas. Todos os grandes nomes estarão lá. Será um festival de egos, badalação e muito, muito tum-tchi-tum.

         

 



Fotos Sergio Sade/Nellie Solitrenick/Rubens Chaves

     
 
 
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