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6 de novembro de 2002
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CRÔNICA
   

CRÔNICA

Cuidado com o dono

Histórias de cachorros,
cachorrinhos e cachorrões

Walcyr Carrasco


Pincher. A mãe de um amigo tinha um cãozinho dessa raça. Tamanho mínimo. Tormento máximo. Ficava solto na sala. Bastava eu chegar para uma visita, começava a latir. Passava horas soltando latidinhos estridentes. Mordia meus dedos com os dentinhos afiados. A dona sorria.

– Não é uma gracinha?

Eu tinha vontade de morder a tal senhora.

Quando morava em uma chácara, tive um vizinho cujo cachorro latia a noite toda. Adoro cães, tenho três. Mas aquele! Mudei de quarto. Coloquei algodão no ouvido. Um dia, a surpresa.

– Levaram o barulhento para a cidade – contou a empregada.

Aliviado, suspirei. Alívio inútil. Na mesma noite, iniciou-se uma sinfonia de ganidos. Não um, mas vários cãezinhos juntos! O número parecia aumentar diariamente. Achei que era psicológico. Impressão? Exagero? Estaria endoidando?

– Ih! Ele montou um pet shop – disse minha funcionária.

Exatamente. Trazia os filhotes para dormir em casa. Um número crescente de cachorrinhos, todos ganindo de saudade da mãe. Eu tinha vontade de abrir a janela e uivar. Foi quando descobri que a vida no campo nem sempre é tão repousante quanto apregoam. Voltei para a cidade.

Uma amiga possui cinco cachorros. Basta um carro passar a 200 metros para dispararem latindo furiosamente. Com freqüência, fogem. Atacam os calcanhares alheios. São pequenos e peludinhos. Machucar, não machucam. A dona sai no portão e grita:

– Voltem, voltem!

Se alguém reclama, fica brava.

– Imagine, eles não fazem nada.

Além de ser mordida, a pessoa quase é obrigada a pedir desculpa. Os vizinhos já puseram a casa à venda várias vezes. É o maior movimento de corretores da região. Eu me pergunto: cachorros não se cansam de latir? Tento, para fazer a experiência:

– Au, au!

No elevador do meu prédio é comum dar de encontro com algum cachorrão. O proprietário sempre avisa:

– Não se preocupe, é manso.

Será? Fico encolhido em um canto. E se justamente agora resolver experimentar o sabor de uma mordida? Donos adoram dizer que seu bichinho de estimação é angelical, mesmo com provas em contrário. Tive uma amiga carioca com uma cadela dobermann. Nas poucas vezes em que me hospedei em sua casa, acordava com a princesa me farejando. Eu, deitado em um colchão no assoalho. O focinho molhado na minha nuca. Rígido. Não mexia nem os cílios. Horas depois, a moça ouvia meu gemido e vinha:

– Está com medo do quê?

– Medo não. Apavorado – eu respondia sem voz.

– Que bobagem!

Atirava um osso. A bonitona agarrava no ar e saía mastigando que nem chiclete. Eu punha as mãos no pescoço, pensando quantas horas faltavam para pegar o ônibus.

Mais me dói verificar que, volta e meia, são os cães que levam a culpa. Está no auge o tema da proibição de criar certas raças, como o mastim napolitano, o pit bull e o rottweiler. Um ator que conheço foi atacado por um pit bull. Teve de fazer plástica. Ficou anos fora da televisão. Mas cachorros de linhagem reconhecidamente feroz podem se tornar meigos com a criação. Um casal de amigos tinha um rottweiler chamado "Xico". Era um doce. Abanava o rabo. Pulava e lambia. É triste pensar que o Xico não existiria. Não sou um especialista em raças. Se autoridades da área garantem que algumas são perigosíssimas, sou o primeiro a aceitar. Tudo bem que se limite à criação das feras. E os portões abertos, o , sou o primeiro a aceitar. Tudo bem que se limite à criação das feras. E os portões abertos, o descaso, a imprudência? Muitas vezes, é preciso cuidado com o dono! Nas mãos de alguém imprudente, até um pincher é capaz de enlouquecer meio mundo!

         
     
 
 
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