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CRÔNICA
Cuidado
com o dono
Histórias
de cachorros,
cachorrinhos e cachorrões
Walcyr
Carrasco
Pincher.
A mãe de um amigo tinha um cãozinho dessa raça.
Tamanho mínimo. Tormento máximo. Ficava solto na sala.
Bastava eu chegar para uma visita, começava a latir. Passava
horas soltando latidinhos estridentes. Mordia meus dedos com os
dentinhos afiados. A dona sorria.
Não é uma gracinha?
Eu
tinha vontade de morder a tal senhora.
Quando
morava em uma chácara, tive um vizinho cujo cachorro latia
a noite toda. Adoro cães, tenho três. Mas aquele! Mudei
de quarto. Coloquei algodão no ouvido. Um dia, a surpresa.
Levaram o barulhento para a cidade contou a empregada.
Aliviado,
suspirei. Alívio inútil. Na mesma noite, iniciou-se
uma sinfonia de ganidos. Não um, mas vários cãezinhos
juntos! O número parecia aumentar diariamente. Achei que
era psicológico. Impressão? Exagero? Estaria endoidando?
Ih! Ele montou um pet shop disse minha funcionária.
Exatamente.
Trazia os filhotes para dormir em casa. Um número crescente
de cachorrinhos, todos ganindo de saudade da mãe. Eu tinha
vontade de abrir a janela e uivar. Foi quando descobri que a vida
no campo nem sempre é tão repousante quanto apregoam.
Voltei para a cidade.
Uma
amiga possui cinco cachorros. Basta um carro passar a 200 metros
para dispararem latindo furiosamente. Com freqüência,
fogem. Atacam os calcanhares alheios. São pequenos e peludinhos.
Machucar, não machucam. A dona sai no portão e grita:
Voltem, voltem!
Se
alguém reclama, fica brava.
Imagine, eles não fazem nada.
Além
de ser mordida, a pessoa quase é obrigada a pedir desculpa.
Os vizinhos já puseram a casa à venda várias
vezes. É o maior movimento de corretores da região.
Eu me pergunto: cachorros não se cansam de latir? Tento,
para fazer a experiência:
Au, au!
No
elevador do meu prédio é comum dar de encontro com
algum cachorrão. O proprietário sempre avisa:
Não se preocupe, é manso.
Será?
Fico encolhido em um canto. E se justamente agora resolver experimentar
o sabor de uma mordida? Donos adoram dizer que seu bichinho de estimação
é angelical, mesmo com provas em contrário. Tive uma
amiga carioca com uma cadela dobermann. Nas poucas vezes em que
me hospedei em sua casa, acordava com a princesa me farejando. Eu,
deitado em um colchão no assoalho. O focinho molhado na minha
nuca. Rígido. Não mexia nem os cílios. Horas
depois, a moça ouvia meu gemido e vinha:
Está com medo do quê?
Medo não. Apavorado eu respondia sem voz.
Que bobagem!
Atirava
um osso. A bonitona agarrava no ar e saía mastigando que
nem chiclete. Eu punha as mãos no pescoço, pensando
quantas horas faltavam para pegar o ônibus.
Mais
me dói verificar que, volta e meia, são os cães
que levam a culpa. Está no auge o tema da proibição
de criar certas raças, como o mastim napolitano, o pit bull
e o rottweiler. Um ator que conheço foi atacado por um pit
bull. Teve de fazer plástica. Ficou anos fora da televisão.
Mas cachorros de linhagem reconhecidamente feroz podem se tornar
meigos com a criação. Um casal de amigos tinha um
rottweiler chamado "Xico". Era um doce. Abanava o rabo. Pulava e
lambia. É triste pensar que o Xico não existiria.
Não sou um especialista em raças. Se autoridades da
área garantem que algumas são perigosíssimas,
sou o primeiro a aceitar. Tudo bem que se limite à criação
das feras. E os portões abertos, o ,
sou o primeiro a aceitar. Tudo bem que se limite à criação
das feras. E os portões abertos, o descaso, a imprudência?
Muitas vezes, é preciso cuidado com o dono! Nas mãos
de alguém imprudente, até um pincher é capaz
de enlouquecer meio mundo!
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