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PERFIL O senhor
cemitério Quanto vale um jazigo? Qual é
o caixão mais caro da cidade? Quantas pessoas já foram
sepultadas na Vila Formosa? O professor de geografia Eduardo Rezende,
especialista em cemitérios, responde Rodrigo
Brancatelli
Fernando Moraes  |
| Rezende, no Cemitério da Consolação: "Vem gente aqui
fazer piquenique, namorar..." |
Empinar pipa, correr atrás de balão, jogar pião, bater uma
bolinha com os amigos, subir naquele pé de amora de mais de 7 metros para
pegar frutas fresquinhas. A infância do professor de geografia Eduardo Morgado
Rezende, de 35 anos, só não era mais trivial porque o pião,
a bola de futebol e as suculentas amoras teimavam em cair em covas abertas no
meio do gramado. "Cresci brincando entre os jazigos do Cemitério da Vila
Formosa, na Zona Leste", conta ele, sem mostrar o menor estranhamento. "As pessoas
acham meio mórbido, mas tenho uma relação de afeto com esses
lugares." Depois de interromper funerais para pegar seus balões, Rezende
transformou a curiosidade em profissão. Hoje, ele é um dos maiores
conhecedores de cemitérios da cidade. Já visitou 600 deles, no Brasil
ou no exterior. E sabe quase tudo sobre a história e particularidades desses
lugares, do preço dos jazigos ao número de lápides famosas.
Quanto custa um caixão, por exemplo? "O mais barato, feito de um papelão
resistente, sai por 200 reais", esclarece. "Mas já vi um de 12 000 reais,
com controle remoto, para o caso de paralisação momentânea
dos órgãos vitais, o que faz a pessoa ser dada como morta, embora
não esteja."
Os cemitérios
mais caros? "Nos da Consolação, Morumbi, Araçá e Vila
Mariana, um terreno de 3 metros quadrados tem preço por volta de 10 000
reais." Bem, o número de túmulos do Cemitério da Vila Formosa,
o maior do país, ele nunca contou, certo? "Dois milhões de cadáveres
já foram ali enterrados", informa. "Uma média de dez pessoas por
dia, 300 por mês. E há sempre 200 covas abertas, prontinhas, para
o caso de acontecer alguma catástrofe por aí."
São Paulo tem hoje 22 cemitérios municipais, dezoito particulares
e um crematório, localizado na Vila Alpina. Alguns são conhecidos
pelas obras de arte e pelos túmulos de figuras famosas que abrigam, caso
do Cemitério da Consolação. Lá, numa área de
76 000 metros quadrados, estão enterrados o escritor Monteiro Lobato, o
engenheiro Ramos de Azevedo, o governador Ademar de Barros e a marquesa de Santos,
amante de dom Pedro I. Na visita, podem ser vistas esculturas de Bruno Giorgi
e Victor Brecheret. Rezende começou
a se dedicar ao assunto quando fez um trabalho de conclusão do curso de
geografia na USP, em 1999. O projeto virou o livro Metrópole da Morte,
Necrópole da Vida (Carthago Editorial), que reúne curiosidades
dos cemitérios da região metropolitana. Descobriu, por exemplo,
que não era o único que nutria uma relação especial
com a chamada última morada. "Tem muita gente que vai lá fazer piquenique,
praticar cooper, namorar, tirar fotos ou simplesmente rezar", diz.
Rezende, que atualmente participa de encontros internacionais sobre o tema, acabou
descobrindo que a especulação impera nos cemitérios mais
conhecidos. Por isso, ser enterrado perto de uma celebridade custa caro. "Anunciaram
um jazigo por 15.000 reais no Cemitério do Morumby só porque era próximo
ao de Ayrton Senna", conta. "Eu ainda prefiro ser enterrado na Vila Formosa, longe
da confusão e bem perto do pé de amora." |