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LAZER
Ele mudou o jeito paulistano de ver cinema Valmir Fernandes,
presidente da rede Cinemark, é o principal responsável por
trazer à cidade a platéia no formato stadium, o som digital,
a tela grande... Alessandro Duarte Fernando
Moraes
 | | Fernandes,
na bilheteria do Market Place: "Quando muitas salas de exibição
viraram templos evangélicos, brinquei que, se o negócio de cinema
não desse certo, eu viraria pastor" |
A
executiva Meissa Negrelli reclama sempre que assiste a algum filme na rede Cinemark.
Não que ache a projeção ruim ou se incomode com o barulho
dos saquinhos de pipoca dos vizinhos. Noiva do presidente da cadeia americana
no Brasil, Valmir Fernandes, Meissa diz que costuma ser abandonada no escurinho
para que ele resolva problemas da empresa. "Certa vez, estávamos vendo
Penetras Bons de Bico e o Valmir falou que precisava ir ao banheiro", conta.
"Protestei, claro, mas ele garantiu que não iria trabalhar. Na saída,
o gerente chamou a gente de lado e entregou: 'Pode ficar tranqüilo, já
providenciei tudo o que o senhor pediu'." Faz dez anos que Fernandes, paulista
de São Caetano do Sul e morador dos Jardins, não consegue relaxar
quando está de frente para a telona. Formado em engenharia química,
ele largou a carreira de consultor em 1996 para revolucionar o mundo das salas
escuras da cidade. Na primeira metade da década
de 90, os cinemas paulistanos estavam, por assim dizer, com o filme queimado.
As platéias viviam vazias, muitas salas tradicionais caíam aos pedaços
e os grandes espaços eram vendidos um atrás do outro. Foi quando
a Cinemark, a terceira maior exibidora dos Estados Unidos, chamou Fernandes para
comandar a operação brasileira. "Era uma época em que várias
salas estavam sendo transformadas em igrejas evangélicas", lembra. "Eu
brincava que, se o negócio de cinema não desse certo, eu viraria
pastor." A Cinemark foi a principal responsável por trazer o conceito multiplex,
em que um conjunto de salas de exibição com bilheteria centralizada
divide a área de espera, banheiros e lanchonete. Também investiu
em equipamentos de ponta (como som digital e telas maiores do que aquelas às
quais estávamos habituados), poltronas espaçosas e platéias
em formato stadium (tipo arquibancada). Hoje, a situação dos cinemas
paulistanos é muito melhor que uma década atrás, apesar de
sempre se encontrar quem lamente o desaparecimento de cineclubes como o Elétrico,
a morte dos cinemões do centro ou o fechamento dos elegantes Astor e Liberty,
na Avenida Paulista. Em 1996 os paulistanos se divertiam com blockbusters como
Twister, Independence Day e Missão Impossível em 113
salas de exibição comerciais. Atualmente são 240, mais que
o dobro. Além do número, mudou a localização. A concentração
nos shoppings, que há dez anos já era grande eles contavam
com 68 salas, contra treze no centro da cidade , se intensificou. Agora
203 salas estão em shoppings, e restou apenas uma no centro. Fotos
Fernando Moraes/Luis Ushirobira
 | | Dois
diferenciais: a sala Disney do Metrô Santa Cruz e o lobby bacanudo do Iguatemi
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"A entrada de capital estrangeiro fez
o mercado acordar", diz Adhemar de Oliveira, um dos sócios do Grupo Espaço,
que reúne o Espaço Unibanco, o Unibanco Arteplex e o Morumbi, entre
outros. "Havia um campo enorme para o cinema crescer e se modernizar no Brasil,
mas ninguém tinha dinheiro para isso." Foi justamente essa injeção
de capital que transformou a Cinemark na maior exibidora do país. Somente
na cidade de São Paulo, ela conta com 106 salas, 44% do total. É
mais do que têm seus quatro concorrentes diretos somados (veja
quadro). Para os próximos três anos, a rede planeja abrir
mais 34 salas num ritmo de quase uma por mês. O primeiro complexo
será no Eldorado e deve ficar pronto no fim de novembro. Os outros serão
nos shoppings Tatuapé 2, Paulista, Pátio Higienópolis, West
Plaza e Cidade Jardim (em construção), além do empreendimento
que o apresentador Silvio Santos pretende erguer no bairro da Bela Vista. Para
os demais exibidores, acompanhar essa corrida é uma tarefa mais complicada
do que ver filme iraniano sem legenda. "A UCI tem uma política que privilegia
a qualidade, e não a quantidade", afirma Carlos Marin, diretor executivo
da UCI Brasil, dona de dois complexos, no Shopping Jardim Sul e no Anália
Franco. "Tentamos nos diferenciar pelo serviço, que é mais personalizado",
diz Otelo Bettin Coltro, vice-presidente executivo do grupo nacional Playarte.
"É impossível competir em velocidade com uma rede estrangeira, que
dispõe de recursos a juros muito mais baixos que os nossos."
Mas como um engenheiro químico, hoje com 45 anos e pai de uma filha de
11 do primeiro casamento, foi parar na presidência de uma exibidora de cinema
que só no ano passado faturou 300 milhões de reais? Fernandes foi
apresentado aos representantes do grupo americano por um conhecido comum. Quando
recebeu o convite, estranhou a idéia de abandonar as conversas sobre polietilenos
e propenos para tratar das novidades acerca de Julia Roberts, Tom Cruise e Uma
Thurman. "Falaram que era ótimo eu nunca ter me envolvido com cinema",
afirma. "Para os americanos, tudo o que se fazia no Brasil até então
estava errado." Antes de abrir seu primeiro multiplex, em São José
dos Campos, em 1997, Fernandes reuniu mais cinco funcionários e foi participar
de um treinamento em Dallas, no Texas, cidade em que a Cinemark está sediada.
Todos os seis trabalharam durante quatro meses em complexos da rede, nas mais
diferentes funções. "Lembro de um dia em que estava encarregado
de servir pipoca e, como não tinha muito serviço, me encostei no
balcão", conta. "Tomei uma bronca da gerente, pois aquela não era
uma postura adequada." Divulgação
 | | Perspectiva
do hall do novo cine no Eldorado: nove salas em novembro |
Aos poucos, Fernandes deixou de lado o receio com a nova empreitada. Além
de não conseguir assistir a filmes sem arrumar serviço, ele é
do tipo que supervisiona obras e dá palpites em tudo. "Já enviei
um e-mail ao Valmir e recebi a resposta de madrugada", diz a cineasta Carla Camurati,
que organiza em parceria com a Cinemark o Festival Internacional de Cinema Infantil.
Segundo ela, o fato de não ter vindo do meio o ajuda em alguns momentos:
"Ele tem uma visão mais prática e menos emocional do cinema". Além
de comandar a Cinemark, Fernandes é presidente da Abraplex, associação
que congrega os cinemas multiplex no Brasil, e vice-presidente da Associação
Brasileira dos Exibidores de Cinema (Abracine). Como representante de classe,
suas maiores queixas são a meia-entrada para estudante ("Com a quantidade
de carteirinhas falsificadas que há por aí, temos de aumentar o
preço dos ingressos normais para não tomar prejuízo") e a
pirataria ("É um absurdo que na frente do cinema tenha gente vendendo DVDs
de filmes em cartaz por 5 reais e ninguém faça nada"). Umas
cinco vezes por ano, Valmir Fernandes vai aos Estados Unidos para participar de
reuniões com seus chefões americanos. Mas as viagens que mais gosta
de fazer são aquelas a convite de estúdios e distribuidoras para
acompanhar filmagens e lançamentos que podem ocupar diversas de suas salas.
Já viu James Bond em ação de pertinho, foi à avant-première
de Pearl Harbor em um porta-aviões no Oceano Pacífico e em
abril estava em Vancouver, no Canadá, dentro do set de filmagens de Uma
Noite no Museu, fita estrelada por Ben Stiller com estréia prevista
por aqui em janeiro. "Quando, trabalhando como engenheiro químico, eu teria
oportunidades como essas?" As
maiores redes da cidade Cinemark - 106
salas Playarte - 26 salas Grupo
Espaço - 21 salas UCI -
20 salas Haway - 16 salas |
Números
e uma novidade da Cinemark
Fernando Moraes
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10 milhões de
espectadores passaram nas catracas dos doze complexos no último ano. Pagaram
pela entrada entre 8 (às quartas no Shopping Metrô Tatuapé)
e 20 reais (de sexta a domingo, após as 17h no Iguatemi) Divulgação
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1,8
milhão Os ingressos comprados
pela internet para as poltronas numeradas do Iguatemi não precisarão
mais ser impressos. A partir do fim do mês, uma maquininha (à
dir.) lerá um código que será enviado ao celular do cliente
de ingressos foram vendidos para Homem-Aranha, de 2002, o maior sucesso
da rede na cidade Luis
Ushirobira
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797 funcionários
trabalham para a cadeia em São Paulo. Os bilheteiros em início de
carreira ganham em torno de um salário mínimo |
Pipoca
pouca é bobagem
Fernando
Moraes
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Que ninguém reclame do cheiro de pipoca amanteigada perto de Valmir
Fernandes. Para ele, quase tão importante quanto escolher o filme que vai
entrar em cartaz e quanto tempo ele ficará em exibição
é manter os saquinhos dos espectadores sempre cheios nos complexos
da Cinemark. É da bonbonnière que saem até 25% do faturamento
da rede e, ainda por cima, a renda auferida com pipoca, refrigerante e
afins não precisa ser dividida com distribuidores. "Entre 30% e 40% do
nosso lucro, dependendo do complexo, vem da venda de guloseimas", afirma Fernandes.
Os funcionários são treinados no melhor estilo McDonald's: atendimento
rápido e eficiente, com a missão de sempre oferecer a porção
mega, maior e mais cara, e só depois as menores e mais baratas. Os números
são de arrasar quarteirão. Todos os meses, 560 000 pacotes de pipoca
e 630 000 copos de refrigerante são vendidos na rede em São Paulo.
E há muito tempo pipoca deixou de ser um tira-gosto de preço baixo.
No Villa-Lobos, o saquinho pequeno custa 5,25 reais e a tal porção
mega um balde com 3 litros que pode ser reabastecido quantas vezes o cliente
quiser durante a sessão é vendida a 10,50 reais. |
O
que vem por aí Fotos
divulgação
 | Simulação
de um filme no sistema Imax (no alto) e poltronas no estilo das usadas
nas salas vip nos Estados Unidos e México: os cinemas paulistanos em um
novo patamar |
Duas boas notícias
prometem mexer com os cinéfilos paulistanos. Para os que toparem pagar
um ingresso mais caro e assistir aos filmes cercados por mimos, a Cinemark vai
trazer à cidade uma luxuosa inovação: as salas vip. Em funcionamento
nos Estados Unidos e no México, elas contam com poltronas de couro que
lembram as da classe executiva dos aviões, serviço de bar com garçons
e elevador exclusivo direto do estacionamento com manobristas. As entradas podem
ser compradas com antecedência para a poltrona escolhida assim como
acontece hoje no Iguatemi. Três dessas salas vip devem ser inauguradas em
dois anos, com a expansão do Shopping Paulista. Depois, serão levadas
para mais dois centros de compras do grupo Victor Malzoni, o Pátio Higienópolis
e o West Plaza. Outra novidade é a chegada
do sistema Imax. Presente em 38 países, o cinema com tela ligeiramente
curva de 25 metros de altura (contra 8 metros da de uma sala convencional) dá
ao espectador a impressão de estar dentro do filme. Alguns dos títulos
em cartaz contam com tecnologia 3D. A sala, cuja inauguração está
prevista para setembro de 2007, será construída dentro do Shopping
Bourbon Pompéia, ao lado do Parque Antarctica, a um custo estimado de 3
milhões de reais. Uma das características do Imax é sua programação,
que mescla campeões de bilheterias adaptados para a tela gigante com documentários
educativos de cinqüenta minutos. "O período da manhã é
reservado a grupos de escolares, e o fim da tarde e a noite, para o espectador
comum", diz Adhemar de Oliveira, do grupo Espaço, responsável pelo
projeto. |
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