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CRÔNICA
Novas famílias
Walcyr Carrasco
Dia desses estava em uma loja
de roupas infantis e brinquedos. Encontrei uma conhecida enchendo
sacolas e sacolas. Surpreendi-me. Na casa dos 40, ela vive com uma
amiga há uns quinze anos. Fiquei ardendo de curiosidade,
é claro. Que vontade de formular todas as perguntas que coçavam
na minha língua! Aproximei-me.
Fazendo compras?
perguntei, para puxar conversa.
Ah, é para minha
filha! sorriu ela. Está com 2 anos, é
uma loucura como cresce sem parar! De um dia para o outro, nada
serve!
Olhou uma boneca de pano, bem
molinha.
Vou levar esta também.
Ah, não sabia que
você tinha uma menina!
Adotei!
Feliz da vida, entregou o cartão
de crédito. Enquanto pagava, com os olhos brilhando de alegria,
pensei: "Como é amada essa garotinha!".
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Muita gente poderia se escandalizar.
Dizer que não seria bom para a menina ser criada por duas
mulheres. Digo o contrário. Vi acontecer. Quando era muito
jovem, tornei-me amigo de um casal. Ela, de saúde frágil,
faleceu cedo. Deixou três filhos pequenos, o último
quase bebê. Ele saiu do armário, como costumam dizer.
Assumiu ser gay. Não recorreu às avós. Fez
questão de criar os filhos. Assisti a sua luta. Não
era rico. Trabalhava muito para pagar boas escolas, sempre com bolsa
parcial. Quando faltava dinheiro, dava um jeito. Ia para o exterior
e voltava com a mala cheia de roupas para vender. Montou um pequeno
restaurante. Não podia contar com as facilidades que o dinheiro
traz. Tinha uma empregada para ajudar. Mas pegava no batente após
o trabalho, cuidando dos meninos. Educava. Ajudava nos deveres escolares.
Também não deixou de lado sua vida amorosa. Os garotos
cresceram conhecendo a identidade do pai e seus relacionamentos.
Sempre com muito respeito entre todos.
O tempo passou. Os filhos tornaram-se
amigos e confidentes do pai. Mais tarde, os três tornaram-se
bons profissionais. Nenhum partiu para as drogas, ou para qualquer
tipo de vida desestruturada. Foram trabalhar, para contribuir com
a renda familiar. Dois já se casaram. O terceiro está
a caminho. Os primeiros têm filhos, e o pai agora ajuda a
cuidar dos netinhos. Nenhum dos três é gay. Não
por receio ou preconceito. Simplesmente, não é o caminho
de cada um deles.
Isso derruba a suposição
de que filhos criados por pais gays teriam a mesma identidade. Sempre
duvidei da possibilidade. Já conheci gays provenientes de
lares onde até falar do tema é tabu. Talvez não
seja fácil perceber, porque muitas das novas famílias
preferem agir com discrição. Evitam confrontos na
vida profissional. Ou na escola. São mães aparentemente
solitárias, que na verdade têm uma companheira. Pais
muitas vezes empenhados em aparentar o que não são.
Medo da reação social, que poderia atingir os filhos.
Tenho certeza: o número
de lares não tradicionais é cada vez maior. Aos poucos,
não são mais os pais ou mães, mas famílias
inteiras que saem do armário. Problemas certamente existem.
Como em todas as outras. Jovens problemáticos surgem em famílias
conservadoras, por que não vão aparecer nas gays?
Sou muito curioso, não
nego. Uma vez tomei coragem. Perguntei ao pai da história
que contei:
Como você conseguiu
criar filhos tão certinhos, tão bem ajustados, apesar
da falta de tempo, da pressão social e, não vamos
negar, do falatório?
Ele sorriu e me deu uma lição
de vida:
Só existe um segredo.
Amor. E amor, eu juro, nunca faltou na minha casa!
e-mail: walcyr@abril.com.br
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