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COMPORTAMENTO
Heudes Regis
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| Ala
restrita da Abadia
São Geraldo, no Morumbi: monges
usam hábitos pretos com capuz |
O
cotidiano de advogados, engenheiros e
psicólogas que abriram mão dos confortos
do mundo moderno para viver trancafiados
nos oito mosteiros da cidade
Lúcia
Monteiro e Orlando Margarido
São
4h40 da manhã e está escuro. O soar do gongo é
o sinal de que vai começar a primeira oração
do dia. Vestidas com hábitos cinza e em jejum, as 21 irmãs
da Abadia Nossa Senhora da Paz, em Itapecerica da Serra, se organizam
em duas filas e entram na igreja a passos lentos. A abadessa Martha
Lúcia fica na frente. Assim que ela toca o diapasão,
espécie de gaita para afinar as vozes, o coro principia.
Depois de uma hora, o sino soa em louvor à Virgem Maria.
Elas então se dirigem para o refeitório ao som de
Bach, Mozart e Beethoven. Na hora do café, leite, pão
caseiro, manteiga e mel, a música cessa e começam
as leituras religiosas. Até a noite, esse ritual se repetirá
outras seis vezes. Momentos de reza são intercalados com
refeições e pequenos lanches. Nos intervalos, elas
dedicam-se a tarefas como lavar, passar, cozinhar, estudar ou fazer
artesanato, sempre em silêncio. Conversar mesmo, só
no recreio, depois do almoço ou do jantar.
Renata Ursaia
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| Um
dos sete momentos de oração do dia na Abadia Nossa Senhora da
Paz, em Itapecerica da Serra: ritual coreografado |
É assim a rotina dos 170 homens e mulheres enclausurados
que vivem num dos oito mosteiros da cidade. Seguidores de rígidas
regras de comportamento, eles dormem em celas denominação
para quartos de simplicidade espartana , não comparecem
a casamentos, batizados nem aniversários da família
e, para ir ao médico ou visitar um parente enfermo, precisam
de autorização. Até um simples telefonema requer
permissão. Invenção da Idade Média,
quando os religiosos, em busca de paz, ficavam atrás das
grades para se proteger de invasões bárbaras, a clausura
surpreendentemente sobrevive no tumulto da metrópole. A tradição
é cumprida à risca: estranhos não entram nas
dependências dos mosteiros. Preza-se a restrição
como forma de garantir privacidade e tranqüilidade aos internos.
"Temos total liberdade. Os limites são para quem está
do lado de fora", acredita Martha Lúcia Ribeiro Teixeira,
enclausurada há 21 anos.
Heudes Regis
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Renata Ursaia
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| Dom
Egídio: 55 anos de recolhimento |
Ateliê
de cerâmica: fonte de renda |
Carioca,
ela foge dos clichês que se possam fazer de uma madre superiora.
Além de jovem (tem 43 anos e aos 38 se tornou a abadessa
mais nova do Brasil), é extrovertida, anda de bicicleta pelos
jardins e toca violão, flauta, bongô e atabaque. Estava
no 4º ano de direito quando, numa viagem de férias pelo
Rio Grande do Sul, se hospedou num convento. "A partir daquele momento,
fiquei diferente", conta. Na linguagem dos monges e monjas, o que
Martha Lúcia sentiu foi um "chamado". Abandonou o estágio,
deixou os biquínis no armário e veio para São
Paulo, trazendo na mala apenas roupa de cama. "Como havia terminado
um noivado, muita gente achou que era desilusão amorosa",
afirma. "Não é verdade. Já tinha esquecido
o namorado." Outra irmã, por exemplo, percebeu a vocação
em plena terça-feira de Carnaval, depois de ter pulado quatro
noites com uma fantasia de cetim azul e meias arrastão. "Olhei
o céu pela janela do clube e senti um vazio...", conta ela.
Os primeiros anos de recolhimento são os mais complicados.
Para desabafar e registrar suas impressões sobre a nova vida,
Martha Lúcia fazia um diário. Depois queimou tudo.
Noviça há três anos, Heloísa Azevedo
ou irmã Hildegardes (uma das tradições da vida
monástica é a adoção de um nome santo)
conta que foi muito difícil se acostumar a não assistir
a filmes de terror. "Era fã de A Volta dos Mortos Vivos
e títulos do gênero." Sua colega, irmã Maria
Letícia, ainda sente saudade da época em que ouvia
Tom Jobim. "Mas as orações preenchem nosso tempo e
nosso coração", diz Maria Letícia. Amigos e
ex-namorados ocupam um espaço cada vez menor em sua mente.
"Temos tanta coisa para fazer que nem dá tempo de pensar
no passado."
Heudes Regis
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| Cela
São José, em Itapecerica da Serra: novatos ficam um ano sem
ver a família e só saem com autorização |
Vaidades como batom, perfume e hidratante têm de ser abandonadas
desde o início. Não há penalidades estipuladas
para quem se maquiar. Mesmo assim, ninguém arrisca. Os enclausurados
fazem voto de pobreza e as únicas posses das freiras são
hábitos, agasalhos e sapatos surrados. Quando ganham presentes,
são obrigadas a dá-los à monja responsável
pela despensa. Depois, para usar alguma coisa, é preciso
deixar um bilhete, justificando a necessidade. Nada de xampu para
cabelo seco ou cacheado. Creme, só em caso de pele muito
ressecada. "Uso para as mãos, depois de trabalhar no jardim",
explica Cláudia Hodecker, há quinze anos no tradicional
Mosteiro da Imaculada Conceição da Luz, na Avenida
Tiradentes. Em comum com as mulheres do lado de fora, apenas a relutância
em revelar a própria idade. Catarinense, Cláudia tornou-se
freira ainda menina, mas só se enclausurou aos 41. Antes
disso, fez curso técnico de enfermagem, faculdade de psicologia
e trabalhou em hospitais. Penou até se adaptar à rigidez
do mosteiro. "Foi difícil me acostumar ao silêncio.
Podemos conversar no recreio, das 19h45 às 20h45", diz ela,
que, neste ano, viu a rua em quatro ocasiões, sempre para
levar idosas ao hospital. Diferentemente das mais velhas, que só
vão ao médico em caso de doença, Cláudia
se submete a check-ups periódicos. Sua função
na casa é responder às cartas dos fiéis
cerca de vinte por dia e ajudar na confecção
das pílulas de Frei Galvão (pedacinhos de orações
que devem ser ingeridos). Fundado em 1774, o mosteiro conserva sólidos
símbolos para demarcar a separação do mundo
externo. Amigos e familiares são recebidos nos "locutórios",
salas frias, pouco iluminadas e com grades de ferro que vão
até o teto.
Heudes Regis
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| Luciano:
o engenheiro que faz sorvete |
Ao contrário das freiras, aos monges não são
impostas regras tão rígidas. Eles podem sair
com autorização e bom senso e beber até
250 mililitros de vinho por dia. No São Bento, de origem
alemã, consente-se também cerveja. Encravado no centro
velho, o mosteiro tem áreas abertas aos visitantes, como
a igreja, o colégio, a biblioteca com 100.000 títulos
e a padaria. Mas o público não entra no bloco de três
andares que circunda o claustro propriamente dito pátio
interno com arcos, jardim e fonte d'água destinado à
meditação. Pessoas comuns pisam nesse quadrado santo
em duas situações: em feriados religiosos como Dia
de Finados e Corpus Christi ou quando morre um monge. No restante
do ano, os 48 beneditinos são protegidos por pesadas portas
de ferro e pelo pastor alemão Igor.
"Tudo
me é permitido, mas nem tudo me convém", ensina dom
Hildebrando, reitor do Colégio São Bento. Trata-se
de uma sentença muito falada aos recém-chegados, mas
desnecessária para quem passou boa parte da vida numa pequena
cela, caso de dom Egídio, monge húngaro da Abadia
São Geraldo, no Morumbi. Aos 82 anos, desde os 27 no Brasil,
ele não se lembra da última vez que pegou um congestionamento,
passeou na Avenida Paulista ou foi a um cinema. "Foi bom ir ao mosteiro,
casamento é mesmo um abacaxi", brinca. Seu cotidiano é
pintar ícones religiosos e confeccionar terços para
a comunidade, além de rezar, claro.
Renata Ursaia
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| Martha
Lúcia à frente das irmãs na hora de entrar
na igreja: aos 43 anos, é uma das abadessas mais jovens
do Brasil |
Com tantas restrições, é de imaginar que esses
homens e mulheres vivam infelizes e pensem em fugir de lá.
Nos seis primeiros anos de clausura, eles até podem desistir.
Na Nossa Senhora da Paz, um terço das candidatas novas abandona
a idéia. "Há dois casos: ou a pessoa não se
sente feliz ou então a comunidade percebe que a noviça
não está bem e recomenda a saída", explica
Martha Lúcia. O período introdutório é
dividido em três fases. Começa com um ano de postulado,
em que se espera a aceitação do superior. Depois,
inicia-se a formação no noviciado. Seguem-se três
anos de trabalho, prorrogáveis por outros três, antes
de proferir o "voto solene", ou seja, manifestar o compromisso de
ficar ali para sempre. Sair depois do tal voto depende da permissão
do Vaticano. Isso já aconteceu, mas ninguém gosta
de tocar no assunto. Também há exigências para
entrar. A idade mínima é 18 anos. No caso dos homens,
não são admitidos arrimos de família, e quem
estudou tem preferência. "Aconselhamos que o candidato tenha
exercido alguma profissão", aponta dom Geraldo, da Abadia
São Geraldo. Ex-advogado, ele foi aluno do Colégio
Santo Américo, pertencente ao mosteiro, e deve muito de sua
descoberta ao filme Irmão Sol, Irmã Lua, um
clássico franciscano do italiano Franco Zeffirelli.
Heudes Regis
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| Danillo:
um dos dezessete noviços
do São Bento |
Para os homens, a iniciação é quando se quebram
tabus, como o do homossexualismo entre os internos. "É da
natureza humana. Discutimos abertamente esse assunto com um conselheiro
espiritual, o que jamais aconteceria na Igreja de antigamente",
afirma o gaúcho Renato Silveira Messa, de 25 anos, ou noviço
Miguel. "É um pecado, mas falar sobre o assunto é
melhor." Ele chegou ao Mosteiro de São Bento com um currículo
prestigioso, junto com seu irmão gêmeo, que segue os
mesmos passos. Militar, tornou-se enfermeiro no hospital do Exército,
onde prestava auxílio espiritual aos doentes. Apaixonado
por música, estudou violino clássico. As duas habilidades
levaram-no a se ocupar da enfermagem na clausura e do famoso órgão
de 7.000 tubos que emociona as celebrações da igreja.
"Tinha uma vida de jovem normal, saía com amigos, namorava,
torcia pelo Grêmio, estudava; mas tudo começou a ficar
sem sentido", explica. Formado em engenharia elétrica, Luciano
Couto Ferreira Leite também chegou a abandonar um emprego
no Citibank e surpreendeu os colegas ao entrar no Mosteiro São
Geraldo. "Ninguém se conformava."
Parece um contra-senso pessoas saudáveis, com diploma e bons
empregos, de repente decidirem se isolar e abdicar de qualquer conforto.
Mas elas existem e, em número, mantêm-se estáveis
ao longo dos anos. Cada mosteiro recebe um ou dois candidatos por
ano. "Eles não são uma contradição nem
tendem a desaparecer", acredita Rafael Rodrigues da Silva, professor
de teologia da PUC. "Quanto mais a sociedade se torna individualista,
mais se buscam espaços isolados para cultuar Deus."
Renata Ursaia
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Heudes Regis
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| Irmã
Cláudia: há cinco anos no Mosteiro da Luz |
O
ex-advogado dom Geraldo: incentivo dos pais |
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Ele
renunciou pela família e pelo sexo
Heudes Regis
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| O
ex-noviço Fábio:
sinos em vez de abstinência |
O
agrônomo Fábio Leite de Moura Fonseca nem chegou
a escolher o nome com que gostaria de ser conhecido na vida
monástica. Em 1996, ele optou por viver na clausura
do Mosteiro de São Bento. Entrou durante a Quaresma,
mas logo depois da Páscoa comemorada com os novos irmãos
decidiu abandonar o claustro. Nos quarenta dias de rotina
rigorosa, estudos e tarefas domésticas, Fábio
cedeu às pressões familiares e a algumas dúvidas
que abalaram sua certeza em se tornar um monge. "Minha família
nunca concordou e para piorar eu tinha perdido um irmão
havia pouco tempo; aí mesmo que meus pais não
aceitaram minha escolha", diz o ex-postulante de 32 anos.
Também havia outro desafio. Para se enclausurar, Fábio
terminou um noivado. "Não sei como seria a prova da
abstinência sexual; isso gera muitas fantasias lá
dentro." Em sua curta passagem pelo São Bento, Fábio
se tornou responsável pela manutenção
dos sinos graças à formação em
engenharia. Conhecido dos beneditinos pela freqüência
com que acompanhava missas e encontros na abadia, ele mantém
esse trabalho até hoje como vínculo, além
de dar aula de ciência no colégio da instituição.
"Perdi a namorada, mas herdei a disciplina e a regra de horários
para sempre."
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