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6 de agosto de 2003
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Heudes Regis
Ala restrita da Abadia São Geraldo, no Morumbi: monges usam hábitos pretos com capuz

O cotidiano de advogados, engenheiros e
psicólogas que abriram mão dos confortos
do mundo moderno para viver trancafiados
nos oito mosteiros da cidade

Lúcia Monteiro e Orlando Margarido

São 4h40 da manhã e está escuro. O soar do gongo é o sinal de que vai começar a primeira oração do dia. Vestidas com hábitos cinza e em jejum, as 21 irmãs da Abadia Nossa Senhora da Paz, em Itapecerica da Serra, se organizam em duas filas e entram na igreja a passos lentos. A abadessa Martha Lúcia fica na frente. Assim que ela toca o diapasão, espécie de gaita para afinar as vozes, o coro principia. Depois de uma hora, o sino soa em louvor à Virgem Maria. Elas então se dirigem para o refeitório ao som de Bach, Mozart e Beethoven. Na hora do café, leite, pão caseiro, manteiga e mel, a música cessa e começam as leituras religiosas. Até a noite, esse ritual se repetirá outras seis vezes. Momentos de reza são intercalados com refeições e pequenos lanches. Nos intervalos, elas dedicam-se a tarefas como lavar, passar, cozinhar, estudar ou fazer artesanato, sempre em silêncio. Conversar mesmo, só no recreio, depois do almoço ou do jantar.

Renata Ursaia
Um dos sete momentos de oração do dia na Abadia Nossa Senhora da Paz, em Itapecerica da Serra: ritual coreografado

É assim a rotina dos 170 homens e mulheres enclausurados que vivem num dos oito mosteiros da cidade. Seguidores de rígidas regras de comportamento, eles dormem em celas – denominação para quartos de simplicidade espartana –, não comparecem a casamentos, batizados nem aniversários da família e, para ir ao médico ou visitar um parente enfermo, precisam de autorização. Até um simples telefonema requer permissão. Invenção da Idade Média, quando os religiosos, em busca de paz, ficavam atrás das grades para se proteger de invasões bárbaras, a clausura surpreendentemente sobrevive no tumulto da metrópole. A tradição é cumprida à risca: estranhos não entram nas dependências dos mosteiros. Preza-se a restrição como forma de garantir privacidade e tranqüilidade aos internos. "Temos total liberdade. Os limites são para quem está do lado de fora", acredita Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, enclausurada há 21 anos.

 
Heudes Regis
Renata Ursaia
Dom Egídio: 55 anos de recolhimento Ateliê de cerâmica: fonte de renda

Carioca, ela foge dos clichês que se possam fazer de uma madre superiora. Além de jovem (tem 43 anos e aos 38 se tornou a abadessa mais nova do Brasil), é extrovertida, anda de bicicleta pelos jardins e toca violão, flauta, bongô e atabaque. Estava no 4º ano de direito quando, numa viagem de férias pelo Rio Grande do Sul, se hospedou num convento. "A partir daquele momento, fiquei diferente", conta. Na linguagem dos monges e monjas, o que Martha Lúcia sentiu foi um "chamado". Abandonou o estágio, deixou os biquínis no armário e veio para São Paulo, trazendo na mala apenas roupa de cama. "Como havia terminado um noivado, muita gente achou que era desilusão amorosa", afirma. "Não é verdade. Já tinha esquecido o namorado." Outra irmã, por exemplo, percebeu a vocação em plena terça-feira de Carnaval, depois de ter pulado quatro noites com uma fantasia de cetim azul e meias arrastão. "Olhei o céu pela janela do clube e senti um vazio...", conta ela.

Os primeiros anos de recolhimento são os mais complicados. Para desabafar e registrar suas impressões sobre a nova vida, Martha Lúcia fazia um diário. Depois queimou tudo. Noviça há três anos, Heloísa Azevedo ou irmã Hildegardes (uma das tradições da vida monástica é a adoção de um nome santo) conta que foi muito difícil se acostumar a não assistir a filmes de terror. "Era fã de A Volta dos Mortos Vivos e títulos do gênero." Sua colega, irmã Maria Letícia, ainda sente saudade da época em que ouvia Tom Jobim. "Mas as orações preenchem nosso tempo e nosso coração", diz Maria Letícia. Amigos e ex-namorados ocupam um espaço cada vez menor em sua mente. "Temos tanta coisa para fazer que nem dá tempo de pensar no passado."


Heudes Regis
Cela São José, em Itapecerica da Serra: novatos ficam um ano sem ver a família e só saem com autorização


Vaidades como batom, perfume e hidratante têm de ser abandonadas desde o início. Não há penalidades estipuladas para quem se maquiar. Mesmo assim, ninguém arrisca. Os enclausurados fazem voto de pobreza e as únicas posses das freiras são hábitos, agasalhos e sapatos surrados. Quando ganham presentes, são obrigadas a dá-los à monja responsável pela despensa. Depois, para usar alguma coisa, é preciso deixar um bilhete, justificando a necessidade. Nada de xampu para cabelo seco ou cacheado. Creme, só em caso de pele muito ressecada. "Uso para as mãos, depois de trabalhar no jardim", explica Cláudia Hodecker, há quinze anos no tradicional Mosteiro da Imaculada Conceição da Luz, na Avenida Tiradentes. Em comum com as mulheres do lado de fora, apenas a relutância em revelar a própria idade. Catarinense, Cláudia tornou-se freira ainda menina, mas só se enclausurou aos 41. Antes disso, fez curso técnico de enfermagem, faculdade de psicologia e trabalhou em hospitais. Penou até se adaptar à rigidez do mosteiro. "Foi difícil me acostumar ao silêncio. Podemos conversar no recreio, das 19h45 às 20h45", diz ela, que, neste ano, viu a rua em quatro ocasiões, sempre para levar idosas ao hospital. Diferentemente das mais velhas, que só vão ao médico em caso de doença, Cláudia se submete a check-ups periódicos. Sua função na casa é responder às cartas dos fiéis – cerca de vinte por dia – e ajudar na confecção das pílulas de Frei Galvão (pedacinhos de orações que devem ser ingeridos). Fundado em 1774, o mosteiro conserva sólidos símbolos para demarcar a separação do mundo externo. Amigos e familiares são recebidos nos "locutórios", salas frias, pouco iluminadas e com grades de ferro que vão até o teto.



Heudes Regis
Luciano: o engenheiro que faz sorvete


Ao contrário das freiras, aos monges não são impostas regras tão rígidas. Eles podem sair – com autorização e bom senso – e beber até 250 mililitros de vinho por dia. No São Bento, de origem alemã, consente-se também cerveja. Encravado no centro velho, o mosteiro tem áreas abertas aos visitantes, como a igreja, o colégio, a biblioteca com 100.000 títulos e a padaria. Mas o público não entra no bloco de três andares que circunda o claustro propriamente dito – pátio interno com arcos, jardim e fonte d'água destinado à meditação. Pessoas comuns pisam nesse quadrado santo em duas situações: em feriados religiosos como Dia de Finados e Corpus Christi ou quando morre um monge. No restante do ano, os 48 beneditinos são protegidos por pesadas portas de ferro e pelo pastor alemão Igor.

"Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém", ensina dom Hildebrando, reitor do Colégio São Bento. Trata-se de uma sentença muito falada aos recém-chegados, mas desnecessária para quem passou boa parte da vida numa pequena cela, caso de dom Egídio, monge húngaro da Abadia São Geraldo, no Morumbi. Aos 82 anos, desde os 27 no Brasil, ele não se lembra da última vez que pegou um congestionamento, passeou na Avenida Paulista ou foi a um cinema. "Foi bom ir ao mosteiro, casamento é mesmo um abacaxi", brinca. Seu cotidiano é pintar ícones religiosos e confeccionar terços para a comunidade, além de rezar, claro.


Renata Ursaia
Martha Lúcia à frente das irmãs na hora de entrar na igreja: aos 43 anos, é uma das abadessas mais jovens do Brasil


Com tantas restrições, é de imaginar que esses homens e mulheres vivam infelizes e pensem em fugir de lá. Nos seis primeiros anos de clausura, eles até podem desistir. Na Nossa Senhora da Paz, um terço das candidatas novas abandona a idéia. "Há dois casos: ou a pessoa não se sente feliz ou então a comunidade percebe que a noviça não está bem e recomenda a saída", explica Martha Lúcia. O período introdutório é dividido em três fases. Começa com um ano de postulado, em que se espera a aceitação do superior. Depois, inicia-se a formação no noviciado. Seguem-se três anos de trabalho, prorrogáveis por outros três, antes de proferir o "voto solene", ou seja, manifestar o compromisso de ficar ali para sempre. Sair depois do tal voto depende da permissão do Vaticano. Isso já aconteceu, mas ninguém gosta de tocar no assunto. Também há exigências para entrar. A idade mínima é 18 anos. No caso dos homens, não são admitidos arrimos de família, e quem estudou tem preferência. "Aconselhamos que o candidato tenha exercido alguma profissão", aponta dom Geraldo, da Abadia São Geraldo. Ex-advogado, ele foi aluno do Colégio Santo Américo, pertencente ao mosteiro, e deve muito de sua descoberta ao filme Irmão Sol, Irmã Lua, um clássico franciscano do italiano Franco Zeffirelli.



Heudes Regis
Danillo: um dos dezessete noviços do São Bento


Para os homens, a iniciação é quando se quebram tabus, como o do homossexualismo entre os internos. "É da natureza humana. Discutimos abertamente esse assunto com um conselheiro espiritual, o que jamais aconteceria na Igreja de antigamente", afirma o gaúcho Renato Silveira Messa, de 25 anos, ou noviço Miguel. "É um pecado, mas falar sobre o assunto é melhor." Ele chegou ao Mosteiro de São Bento com um currículo prestigioso, junto com seu irmão gêmeo, que segue os mesmos passos. Militar, tornou-se enfermeiro no hospital do Exército, onde prestava auxílio espiritual aos doentes. Apaixonado por música, estudou violino clássico. As duas habilidades levaram-no a se ocupar da enfermagem na clausura e do famoso órgão de 7.000 tubos que emociona as celebrações da igreja. "Tinha uma vida de jovem normal, saía com amigos, namorava, torcia pelo Grêmio, estudava; mas tudo começou a ficar sem sentido", explica. Formado em engenharia elétrica, Luciano Couto Ferreira Leite também chegou a abandonar um emprego no Citibank e surpreendeu os colegas ao entrar no Mosteiro São Geraldo. "Ninguém se conformava."

Parece um contra-senso pessoas saudáveis, com diploma e bons empregos, de repente decidirem se isolar e abdicar de qualquer conforto. Mas elas existem e, em número, mantêm-se estáveis ao longo dos anos. Cada mosteiro recebe um ou dois candidatos por ano. "Eles não são uma contradição nem tendem a desaparecer", acredita Rafael Rodrigues da Silva, professor de teologia da PUC. "Quanto mais a sociedade se torna individualista, mais se buscam espaços isolados para cultuar Deus."

 
Renata Ursaia
Heudes Regis
Irmã Cláudia: há cinco anos no Mosteiro da Luz O ex-advogado dom Geraldo: incentivo dos pais

 

 

Ele renunciou pela família e pelo sexo

 
Heudes Regis
O ex-noviço Fábio: sinos em vez de abstinência

O agrônomo Fábio Leite de Moura Fonseca nem chegou a escolher o nome com que gostaria de ser conhecido na vida monástica. Em 1996, ele optou por viver na clausura do Mosteiro de São Bento. Entrou durante a Quaresma, mas logo depois da Páscoa comemorada com os novos irmãos decidiu abandonar o claustro. Nos quarenta dias de rotina rigorosa, estudos e tarefas domésticas, Fábio cedeu às pressões familiares e a algumas dúvidas que abalaram sua certeza em se tornar um monge. "Minha família nunca concordou e para piorar eu tinha perdido um irmão havia pouco tempo; aí mesmo que meus pais não aceitaram minha escolha", diz o ex-postulante de 32 anos. Também havia outro desafio. Para se enclausurar, Fábio terminou um noivado. "Não sei como seria a prova da abstinência sexual; isso gera muitas fantasias lá dentro." Em sua curta passagem pelo São Bento, Fábio se tornou responsável pela manutenção dos sinos graças à formação em engenharia. Conhecido dos beneditinos pela freqüência com que acompanhava missas e encontros na abadia, ele mantém esse trabalho até hoje como vínculo, além de dar aula de ciência no colégio da instituição. "Perdi a namorada, mas herdei a disciplina e a regra de horários para sempre."

         
     
 
 
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