Publicidade
 
 

 
 


6 de julho de 2005
CRIMINALIDADE
SERVIÇO
BEBIDA
VALE A VIAGEM
DEZ MOTIVOS PARA...
Portal Veja São Paulo
AS BOAS COMPRAS
MISTÉRIOS DA CIDADE
TERRAÇO PAULISTANO
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
  

CRÔNICA

Juventude além dos anos

Walcyr Carrasco

Dia desses peguei um táxi que presta serviços a uma editora. Havia muito tempo não via o motorista. Estranhei:

– Que houve? Você sumiu!

– Agora presto serviços principalmente para a terceira idade – ele explicou.

Contou que tinha várias clientes, já idosas. Quando chamado, ia até a casa delas, buscava, levava para a casa de amigas, ao shopping, ao médico.

– Nenhum parente tem tempo de levá-las para passear. Mas elas não têm necessidade de ficar presas dentro de casa.

Contou que um amigo comprou uma van. Leva grupos para o teatro, e depois a um restaurante. Já havia notado a presença constante de idosos em minha peça. Esbaldam-se nos momentos maliciosos. Saem rindo. O mesmo acontece com outros espetáculos, na maior parte comédias.

Fui à exposição dos tesouros dos czares russos, recentemente encerrada. Em plena quinta-feira à tarde, notei dois grupos distintos: adolescentes e idosos. Ambos animadíssimos. Uma senhora à minha frente comentou, diante de uma vestimenta de veludo, toda bordada:

– Já tive um vestido parecido!

Observei-a. Deve ter ficado parecida com um tapete! Outras se encantavam com bules, saleiros, ícones. Puxei conversa:

– Está gostando? – perguntei a uma delas.

– Ah, sempre é bom conhecer coisas novas!

Surpreendi-me. Fui criado com a idéia de que as pessoas se aposentam e se lamentam por tudo que não fizeram. Diante de mim estava uma senhora cheia de vida, disposta a aprender, apesar dos cabelos grisalhos.

Lembrei-me da mãe de um amigo que, ao ficar viúva, mudou completamente. Deu todos os móveis. E também os porta-retratos, medalhas, jogos de louça, faqueiros, copos. Até presentes que guardava da época do casamento! Alugou seu apartamento de classe média. Foi para um bem menor, mais fácil de cuidar. Com a renda, passou a viajar em excursões. Encontrei-a há pouco tempo. Rejuvenescida. Cabelinhos curtos, roupas práticas e alegres.

– Agora que meus filhos estão criados, quero aproveitar!

Resultado: seus netos a adoram!

Soube de uma matinê dançante que se realiza todos os fins de semana em um clube. Elas se enfeitam, botam roupas mais ousadas, maquiam-se. Eles voltam aos tempos de mocinhos. Fazem charme, piscam, convidam para dançar e, quem sabe, para se ver outro dia. Não faz muito, uma jovem mãe de família notou que a mãe, freqüentadora dos bailes, andava se arrumando melhor. Usando batom e sombra. Levou um susto ao descobrir que estava namorando.

– Mas quem é ele?

– Nós nos conhecemos há três semanas...

– Tão pouco tempo?

– Faça o favor, você começou a namorar seu marido no dia em que se conheceram.

– É diferente! – contrapôs a filha.

– Diferente por quê?

Houve uma espécie de Romeu e Julieta às avessas. A filha tentou investigar o pretendente. Quis saber quais eram suas intenções. Afinal, morava nos Jardins. Era um velhinho do subúrbio.

– Mãe, ele é só um aposentado. Sem grana!

– Você acha que me importo com essas coisas? – respondeu a velha senhora, desprendida.

Inverteu-se a situação. A moça quis proibir a mãe de namorar. Esta ameaçou ir morar sozinha, para ficar em paz. Um autêntico choque de gerações. Hoje, almoçam todos juntos aos domingos. A jovem reconhece:

– Ela remoçou, parece outra!

O fato é que ninguém costuma achar que alguém mais velho tem direito a namorar, a se divertir. Os idosos da grande cidade estão provando que a juventude não tem época para acontecer. A terceira idade tornou-se uma nova fase da vida, tão glamourosa quanto outra qualquer.

     
   
 
 
VEJA on-line | Veja São Paulo
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados