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CRÔNICA Juventude
além dos anos Walcyr Carrasco
Dia
desses peguei um táxi que presta serviços a uma editora. Havia muito
tempo não via o motorista. Estranhei:
Que houve? Você sumiu! Agora presto
serviços principalmente para a terceira idade ele explicou.
Contou que tinha várias clientes, já idosas. Quando chamado, ia
até a casa delas, buscava, levava para a casa de amigas, ao shopping, ao
médico. Nenhum parente tem tempo
de levá-las para passear. Mas elas não têm necessidade de
ficar presas dentro de casa. Contou que um amigo
comprou uma van. Leva grupos para o teatro, e depois a um restaurante. Já
havia notado a presença constante de idosos em minha peça. Esbaldam-se
nos momentos maliciosos. Saem rindo. O mesmo acontece com outros espetáculos,
na maior parte comédias. Fui à exposição
dos tesouros dos czares russos, recentemente encerrada. Em plena quinta-feira
à tarde, notei dois grupos distintos: adolescentes e idosos. Ambos animadíssimos.
Uma senhora à minha frente comentou, diante de uma vestimenta de veludo,
toda bordada: Já tive um vestido
parecido! Observei-a. Deve ter ficado parecida
com um tapete! Outras se encantavam com bules, saleiros, ícones. Puxei
conversa: Está gostando? perguntei
a uma delas. Ah, sempre é bom conhecer
coisas novas! Surpreendi-me. Fui criado com a idéia
de que as pessoas se aposentam e se lamentam por tudo que não fizeram.
Diante de mim estava uma senhora cheia de vida, disposta a aprender, apesar dos
cabelos grisalhos. Lembrei-me da mãe de
um amigo que, ao ficar viúva, mudou completamente. Deu todos os móveis.
E também os porta-retratos, medalhas, jogos de louça, faqueiros,
copos. Até presentes que guardava da época do casamento! Alugou
seu apartamento de classe média. Foi para um bem menor, mais fácil
de cuidar. Com a renda, passou a viajar em excursões. Encontrei-a há
pouco tempo. Rejuvenescida. Cabelinhos curtos, roupas práticas e alegres.
Agora que meus filhos estão criados,
quero aproveitar! Resultado: seus netos a adoram!
Soube de uma matinê dançante que se
realiza todos os fins de semana em um clube. Elas se enfeitam, botam roupas mais
ousadas, maquiam-se. Eles voltam aos tempos de mocinhos. Fazem charme, piscam,
convidam para dançar e, quem sabe, para se ver outro dia. Não faz
muito, uma jovem mãe de família notou que a mãe, freqüentadora
dos bailes, andava se arrumando melhor. Usando batom e sombra. Levou um susto
ao descobrir que estava namorando. Mas quem
é ele? Nós nos conhecemos
há três semanas... Tão
pouco tempo? Faça o favor, você
começou a namorar seu marido no dia em que se conheceram.
É diferente! contrapôs a filha.
Diferente por quê? Houve uma espécie
de Romeu e Julieta às avessas. A filha tentou investigar o pretendente.
Quis saber quais eram suas intenções. Afinal, morava nos Jardins.
Era um velhinho do subúrbio. Mãe,
ele é só um aposentado. Sem grana!
Você acha que me importo com essas coisas? respondeu a velha senhora,
desprendida. Inverteu-se a situação.
A moça quis proibir a mãe de namorar. Esta ameaçou ir morar
sozinha, para ficar em paz. Um autêntico choque de gerações.
Hoje, almoçam todos juntos aos domingos. A jovem reconhece:
Ela remoçou, parece outra!
O fato é que ninguém costuma achar que alguém mais velho
tem direito a namorar, a se divertir. Os idosos da grande cidade estão
provando que a juventude não tem época para acontecer. A terceira
idade tornou-se uma nova fase da vida, tão glamourosa quanto outra qualquer.
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