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CRIMINALIDADE
Por que se mata menos em São Paulo Embora ainda
seja alto, o número de homicídios caiu 40,6% na cidade em
cinco anos. Investimentos na polícia e trabalho de ONGs na periferia
são as principais causas da queda Rodrigo Brancatelli Eduardo
Knapp/Folha Imagem
 | | Favela
de Heliópolis, na Zona Sul, com visual novo: cinqüenta assassinatos por ano na
década de 1990 e dezenove em 2004 |
Os índices de criminalidade na cidade de
São Paulo são alarmantes há muito tempo. Durante toda a década
de 1990, as taxas de homicídio paulistanas estiveram entre as mais altas
do mundo. O distrito do Jardim Ângela, na Zona Sul, chegou a ser considerado,
em 1996, o mais violento do planeta pela Organização das Nações
Unidas. Mas estudos recentes sobre a ocorrência de assassinatos na capital
trazem finalmente uma notícia animadora nessa área. De acordo com
a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade),
do governo do estado, foram registrados 6.638 assassinatos em 1999. No ano passado,
foram 3.944. Trata-se de uma redução expressiva de 40,6%. Além
da conscientização da sociedade para o problema, essa mudança
é fruto de dois trabalhos distintos e complementares. De um lado, houve
incremento nos investimentos em segurança pública. A polícia
está, além de mais presente, mais bem equipada que dez anos atrás.
De outro, cresceu na periferia da metrópole a atuação de
organizações não-governamentais que oferecem alternativas
econômicas e de lazer à população de baixa renda.
Pelo
menos 130 ONGs atuam nas regiões mais pobres de São Paulo. Montam
cursos profissionalizantes, oficinas para crianças e adolescentes, centros
de convivência para idosos e creches onde mães podem deixar os filhos
enquanto trabalham. "A melhora no aparelhamento da polícia é notável,
mas só a repressão não funciona", diz Jorge Werthein, representante
no Brasil da Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Pesquisa realizada
pela Unesco mostra que os assassinatos em São Paulo caíram 19% entre
1999 e 2003. A diferença em relação aos dados do Seade pode
ser explicada porque o estudo da ONU não leva em conta os números
de 2004. Pelos dados da fundação estadual, entre 2003 e 2004 a queda
nos assassinatos foi de 21%. Heudes
Régis
 | Alexandre
Schneider
 | | Disque-Denúncia:
14 000 casos solucionados | Hip hop no Jardim Ângela: diversão
para adolescentes |
"Sem uma parceria efetiva
com a comunidade, o governo pode fazer muito pouco", reconhece o secretário
de Segurança Pública do Estado, Saulo de Castro Abreu Filho. Segundo
ele, foram investidos cerca de 80 milhões de reais em equipamentos nos
últimos três anos. Isso significou um acréscimo de 8 300 viaturas
para as polícias Civil e Militar, além da contratação
de mais 18.000 policiais. Houve também a formação de um imenso
banco de dados com os índices de criminalidade de cada bairro, e o atendimento
foi informatizado. Nos últimos dois anos, o número de prisões
cresceu 5%. Um acordo com a ONG Instituto São Paulo contra a Violência
possibilitou a criação, em 2000, do Disque-Denúncia, um serviço
gratuito pelo telefone 181 para receber denúncias anônimas. Neste
ano, foram mais de 41.000 ligações. "Por causa das informações
prestadas pela população, conseguimos dobrar o número de
operações em locais perigosos", diz o secretário. Até
hoje, o Disque-Denúncia calcula ter sido responsável pela solução
de 14.000 casos. Há ainda a campanha de desarmamento, que tirou de circulação,
desde julho do ano passado, 87.000 armas em todo o estado (estima-se que haja
1,5 milhão de armas apenas na cidade). "Nesse caso, é muito cedo
para sabermos se essas campanhas irão surtir algum efeito", afirma o pesquisador
Fernando Salla, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade
de São Paulo. Fotos
Heudes Régis
 | | Informatização
da polícia: sistema compila dados sobre crimes em tempo real |
O levantamento do Seade aponta a taxa de homicídios por 100.000 habitantes
em cada um dos 96 distritos da capital. É aí que aparecem as enormes
disparidades paulistanas. Enquanto no distrito da Consolação essa
taxa é de 1,96 assassinato igual à de Paris , no Brás
salta para 91,36. A estatística leva em conta a população
de cada bairro. É uma matemática complicada. A Sé, por exemplo,
tem praticamente a mesma taxa de homicídios por 100.000 habitantes que
Parelheiros (60,09 e 65,89, respectivamente). Em números absolutos, no
entanto, na Sé (com 18.307 habitantes) houve onze assassinatos em 2004,
enquanto Parelheiros (121.414 habitantes) teve oitenta.  | | Curso
de informática em Heliópolis: oportunidades para crianças e jovens |
Os bairros com mais motivos para comemorar são justamente aqueles que,
nos anos 1990, sofreram os piores índices de criminalidade. No Jardim Ângela,
as mortes vêm caindo ano a ano. Em 1996, foram registrados ali 385 assassinatos.
Em 2004, 172. É uma queda de 55%. "Não adianta ficar rezando para
o problema desaparecer", diz o padre irlandês Jaime Crowe, responsável
pela paróquia Santos Mártires. "Os crimes só diminuem após
um longo trabalho com a população." Com a ajuda de moradores, foram
criados uma creche, um centro para idosos, cursos profissionalizantes para donas-de-casa
e diversas atividades para adolescentes, de aulas de hip hop a oficinas de pizzaiolo.
"Aqui na região há cerca de 58.000 jovens, e pelo menos 18.000 deles
estão abaixo da linha de miséria. Se não fizermos nada, são
candidatos a uma vaga na Febem ou no cemitério." Com o alerta da ONU, a
polícia passou a prestar mais atenção no Jardim Ângela.
Para ganhar a confiança da população, a PM investiu no policiamento
comunitário. Cada novo policial que chega para trabalhar ali é apresentado
à vizinhança. Até a última terça-feira, nenhum
assassinato havia sido registrado na região por setenta dias seguidos.
 | | Entrega
de viaturas em outubro de 2004: 80 milhões de reais em equipamentos |
Em
Heliópolis, favela que surgiu em meados dos anos 1970, a situação
é parecida. Na década de 1990, cerca de cinqüenta pessoas morriam
assassinadas na área anualmente. Em 2004, foram dezenove. Um dos líderes
mais atuantes é o metalúrgico João Isaías. Fundador
da União de Núcleos, Associações e Sociedades de Moradores
de Heliópolis e São João Clímaco (Unas), ele teve
um dos filhos morto pelo tráfico. "Busquei o corpo dele na rua, cheio de
buraco de bala", lembra. "Podia chorar em casa, mas resolvi trabalhar para que
outras famílias não sofressem o mesmo." Atualmente, a Unas oferece
oficinas profissionalizantes, cursos para adolescentes e creches com capacidade
para atender 471 crianças. O único posto policial da favela foi
implantado com insistentes pedidos da entidade. No ano passado, Isaías
conseguiu mais uma vitória. Depois de um telefonema para o arquiteto Ruy
Ohtake, um grupo de empresários e uma fabricante de tintas patrocinaram
a pintura de 150 casas. Hoje, duas ruas exibem novo visual. É claro que,
isoladamente, uma medida como essa não é capaz de fazer com que
os crimes caiam. Mas tem um efeito positivo sobre a auto-estima dos moradores
e pode desencadear outras ações semelhantes.  | "Meu
filho foi assassinado pelo tráfico. Em vez de ficar em casa chorando, continuei
no trabalho comunitário para que outras famílias não sofressem o mesmo."
João Isaías, morador
de Heliópolis |
A boa notícia
da diminuição no número de assassinatos não deve servir
para mascarar um problema que continua sendo grave. Se comparada com a de outras
grandes cidades do mundo, a taxa de homicídios em São Paulo permanece
altíssima. No ano passado, foram assassinadas 36,93 pessoas a cada 100.000
habitantes. Em Nova York, esse número é de sete. Em Bogotá,
que dez anos atrás registrava setenta homicídios por 100.000 habitantes,
é de 24. Crimes como seqüestros e roubo de veículos também
caíram. Já o tráfico de drogas, os roubos e os furtos aumentaram.
"Estamos longe de uma situação ideal", diz Fernando Salla, da USP.
"Temos várias questões para resolver antes de comemorar, como a
lentidão e a ineficácia da Justiça." Para o sociólogo
Caio Secci Vasconcelos, que estudou a queda da criminalidade na Colômbia,
é preciso centrar as ações nos jovens com idade entre 15
e 24 anos. "Eles são os mais afetados", afirma. Se analisada somente essa
faixa etária, a taxa de homicídios por 100.000 pessoas em São
Paulo sobe para 110. É um índice três vezes maior que a média
da população. Ou seja, ainda há muito, muito para fazer
mas o importante é constatar, como mostram os trabalhos da Unesco e do
Seade, que a situação já foi bem pior.  | "Os
crimes só diminuem após um longo trabalho de conscientização. Não adianta ficar
rezando para o problema desaparecer." Padre
Jaime Crowe, do Jardim Ângela |
Quanto
se mata em outras cidades
Valdemir
Cunha
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TÓQUIO 1,4
assassinato por 100 000 habitantes Nos últimos quatro
anos ocorreram, em média, 190 homicídios em Tóquio, que tem
uma população de 13 milhões de pessoas. Estima-se que em
todo o Japão não existam mais do que 100 000 armas de fogo, só
concedidas com licença especial.
Vinicius
Romanini
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PARIS 2
assassinatos por 100 000 habitantes Os números relativos à
criminalidade na capital francesa, baixos desde a década de 1990, caem
há 32 meses consecutivos. A principal medida apontada pelas autoridades
é o reforço da presença policial nas ruas.
André
Penner
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NOVA
YORK 7 assassinatos por 100 000 habitantes De
1993 a 2000, graças à política de "tolerância zero"
do ex-prefeito Rudolph Giuliani, o índice de crimes caiu 46%. Nova York
é considerada hoje a cidade americana mais segura entre as que têm
população acima de 1 milhão de pessoas.
Milton
Sussumo Shirata
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BOGOTÁ 24
assassinatos por 100 000 habitantes Há dez anos, a
capital da Colômbia registrava setenta homicídios a cada 100 000
habitantes. Os índices foram reduzidos com a realização de
campanhas pedagógicas, investimentos na modernização e profissionalização
da polícia e uma política de inclusão social.
Valdemir
Cunha
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RIO
DE JANEIRO 48 assassinatos por 100 000 habitantes De
acordo com a Unesco, entre jovens de 15 a 24 anos a taxa de homicídios
por grupo de 100 000 habitantes sobe para 141,1. A capital brasileira mais violenta
é Recife, com 67,4 assassinatos por 100 000 habitantes.
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