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BEBIDA
Caçadores de vinhos
Quem são os responsáveis
pelos
tintos e brancos que chegam à cidade
Roberto Gerosa
Fotos Heudes Regis
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Otávio Piva de Albuquerque
foi o responsável pela onda do vinho branco da garrafa
azul nos anos 1990. Dono da maior importadora do país,
a Expand, com dez lojas em São Paulo, ele está
promovendo uma reviravolta em seus negócios. Desde 2004
exporta vinhos próprios produzidos no Nordeste.
Rótulos que comercializa: 2 000
De quantos países: 13 |
No início dos anos 1990,
a moda era tomar vinho branco alemão da garrafa azul. Dos
2 milhões de caixas que entraram no país em 1994,
1,2 milhão era dessa bebida adocicada e enjoativa. Os paulistanos
contavam nos dedos as opções disponíveis nas
cartas dos restaurantes, nas prateleiras dos supermercados e mesmo
nas lojas especializadas. A situação mudou muito de
lá para cá. Hoje, as grandes importadoras brasileiras
oferecem juntas mais de 6.000 rótulos, de quinze diferentes
países, que somaram 3,5 milhões de caixas no ano passado.
É uma variedade que não se vê em países
produtores como França, Portugal e Itália, que praticamente
só consomem safras locais. São Paulo se transformou
assim em uma cidade privilegiada para quem gosta de experimentar
vinhos de todas as partes do mundo. "Só ficamos atrás
de Londres e de Nova York", afirma o comerciante Gaston Hamaoui,
que há 31 anos acompanha de perto o mercado.
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Nos anos 90, Elídio Lopes Cavalcanti
ajudou a Expand a formar seu catálogo. Em 2000, montou
a própria importadora, a Terroir, especializada em pequenos
produtores de qualidade. Apresenta um programa de TV no qual
exerce sua melhor habilidade: a de contar histórias sobre
os vinhos que vende. "Sou um cara que entende de mercado
e da emoção do consumidor", diz Cavalcanti.
Rótulos que comercializa: 900
De quantos países: 9 |
O tal vinho branco alemão
praticamente desapareceu. Mas iniciou muita gente nos prazeres da
bebida. A facilidade de importação e, mais recentemente,
a desvalorização do dólar ajudaram na multiplicidade
de ofertas. Elídio Lopes Cavalcanti, diretor-geral da importadora
Terroir, conta que em 1995 o Brasil não figurava nem entre
os cinqüenta principais destinos de vinhos de primeira linha.
"Hoje, ocupamos o sétimo ou oitavo lugar", diz. O consumidor
também passou a reconhecer uma boa bebida. "Alguns dos vinhos
mais vendidos em nossas lojas acabam premiados por especialistas
em concursos mundiais", afirma Otávio Piva de Albuquerque,
presidente da Expand. Cartas com centenas de opções,
adegas climatizadas e serviço em taças adequadas são
freqüentes em vários restaurantes. No Rubaiyat, por
exemplo, uma seleção de 1.000 rótulos faz a
festa dos apreciadores. A rede de supermercados Pão de Açúcar
exibe até 750 tipos em alguns de seus endereços. Os
importadores, por sua vez, abriram lojas vistosas, onde promovem
cursos e degustações.
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O empresário Ciro Lilla transformou
uma paixão em negócio quando adquiriu a Mistral,
em 1993. Tem um dos catálogos mais variados e completos
do país. Nele, um simpático personagem, Mister
All não por acaso muito semelhante a Lilla ,
dá dicas aos clientes e tira suas dúvidas.
Rótulos que comercializa: 2 500
De quantos países: 15 |
A doce tarefa de encontrar os
vinhos que irão abastecer as adegas da cidade cabe a profissionais
que agem como verdadeiros caçadores. Eles vasculham grandes
feiras na Europa, consultam publicações especializadas
e, em alguns casos, viajam pelas vinícolas ao redor do planeta.
"É importante visitar os vinhedos, ver as instalações
e checar a qualidade das safras", explica Manoel Beato, sommelier
do restaurante e da Enoteca Fasano. "Em 2004 andei 6.800 quilômetros
de carro em Portugal", calcula Manuel Chicau, da Adega Alentejana,
especializada em vinhos portugueses. Algumas vinícolas mais
artesanais exigem um trabalho corpo a corpo. Celso La Pastina, da
World Wine, levou dez anos para convencer um produtor de Borgonha,
na França, a vender seus tintos por aqui. Muitas vezes eles
têm a ajuda da sorte. Ciro Lilla, proprietário da Mistral,
conta que experimentou uma taça de vinho branco do hoje aclamado
argentino Nicolás Catena durante uma feira realizada na França
em 1994. Gostou. Pediu um tinto e perguntou se ele tinha representante
no Brasil. Diante da negativa, apressou-se: "Pois agora tem".
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Descendente de uma família do sudeste
da Itália, Celso La Pastina pode ser considerado
o mais francês dos italianos do mundo do vinho. "Ninguém
tem a quantidade de Bordeaux que nós oferecemos",
diz. Em 1999, ele criou a World Wine só para cuidar dos
fermentados de qualidade. Vai inaugurar uma moderna loja nos
Jardins em agosto.
Rótulos que comercializa: 1 200
De quantos países: 14 |
Na briga para conquistar o paladar
e, principalmente, o bolso dos consumidores, esses caçadores
também precisam farejar tendências. "O brasileiro já
está cansado dos vinhos sul-americanos", aposta Antoine Zahil,
da Wine House/Zahil, uma empresa de menor porte. "Depois de experimentar
todos os cabernet chilenos e os malbec argentinos, ele vai mudar
para os europeus." A grande procura por garrafas do Velho Mundo
nas liquidações promovidas recentemente por algumas
importadoras da cidade é um sinal de que Zahil pode estar
certo e que o consumidor, ao lado da qualidade, busca sempre
preços justos, ou seja, a boa relação custo-benefício.
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