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CRÔNICA
Celebridades
Ivan
Angelo
Não
é necessário fazer alguma coisa relevante para ser
o que se chama hoje de celebridade. Tirando os que têm mérito,
qualquer cantor ou atriz de terceiro escalão vale, qualquer
novo-rico ou bestalhão de Big Brother, qualquer garota
que freqüente passarelas, qualquer apresentador de televisão,
qualquer dona de padaria que dê festa em aniversário
de cachorro. Essa ampliação do conceito é necessária,
senão as matérias girariam em torno do mesmo grupinho,
as revistas não agüentariam a falta de assunto.
A
síndrome da fama é um mal associado à angústia
do anonimato. Famosos têm horror à penumbra; desconhecidos
buscam as luzes. A imprensa é o lugar das cotações
da fama, a bolsa de valores da celebridade. Antes dela, 500 anos
atrás, os notórios tinham um espaço pequeno;
foi ela que ampliou a circulação de um nome e do diz-que-diz
(que até então era moeda miúda passando de
mão em mão, tostões da fama) por toda uma cidade,
um país, o mundo.
O
escritor português Eça de Queirós, 120 anos
atrás, observava que já não se buscava o sorriso
do príncipe, como acontecia nos regimes aristocráticos,
mas o nome no jornal: "Nas nossas democracias, a ânsia da
maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor
do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens
praticam todas as ações mesmo as boas". Piorou.
Agora temos as fotos, as revistas coloridas, a televisão.
Para
algumas pessoas, a visibilidade é a afirmação
do ser: você só "é" se falam de você;
a "galera" é que dá existência ao célebre.
Na telenovela, a moça que busca ser famosa está caricata,
mas é no fundo verdadeira. Quer a fama não por algum
mérito ou feito heróico, mas para ser conhecida. Ser
"alguém". E quer chegar de catapulta. Lembra aquela outra,
real, que ao ser eliminada da Casa dos Artistas a primeira
coisa que perguntou lá fora, ansiosa, foi: "Eu estou famosa?"
Vale
tudo. Atacar pessoas com beijos, como o beijoqueiro, atirar no papa,
matar um beatle, pular nas cataratas de Niágara, botar coleira
de brilhantes na cachorrinha. Até bandidos se deliciam: repararam
no sorriso irônico do Beira-Mar para as câmeras, durante
o depoimento na Câmara Federal? Onde alguns viram deboche
estava, lá no fundo, a vaidade. Famigerado, termo usado hoje
como adjetivo de bandido, não significa outra coisa senão
famoso, célebre. Guimarães Rosa tem um conto delicioso
sobre a palavra.
Fama
dá trabalho: aquelas festas todo ano, gastos que se tornam
notícia, patrocínio, silicone, troca de companhia,
passarela do samba com muita coisa de fora e pouca de dentro, vernissage,
estréia, fatos novos. A celebridade e a imprensa caminham
juntas, uma precisa da outra, entre tapas e beijos, como diz a canção.
E
uma coisa curiosa acontece no Brasil: celebridades posam nuas para
revistas. Na Europa e na América do Norte elas são
surpreendidas nuas pelos paparazzi, em barcos ou em casas de veraneio.
Não tem cabimento, por exemplo, Sharon Stone posar nua para
revistas o que já fizeram não poucas estrelas
do nosso cinema e da televisão. Lá, elas podem tê-lo
feito antes da fama, ou no despontar dela, como Marilyn Monroe,
mas não depois. Até socialites brasileiras já
mostraram seus íntimos ex-segredos.
É
também curioso: os números que trazem celebridades
despidas vendem mais. Nem a meia-idade as impede, antes parece que
as encoraja a provar que ainda valem sonhos, as Veras, Ângelas,
Maitês, Brunas. O que o público quer é ver a
intimidade das famosas, não de qualquer bela, ainda que dez
vezes mais bela.
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