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5 de novembro de 2003
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Celebridades

Ivan Angelo


Não é necessário fazer alguma coisa relevante para ser o que se chama hoje de celebridade. Tirando os que têm mérito, qualquer cantor ou atriz de terceiro escalão vale, qualquer novo-rico ou bestalhão de Big Brother, qualquer garota que freqüente passarelas, qualquer apresentador de televisão, qualquer dona de padaria que dê festa em aniversário de cachorro. Essa ampliação do conceito é necessária, senão as matérias girariam em torno do mesmo grupinho, as revistas não agüentariam a falta de assunto.

A síndrome da fama é um mal associado à angústia do anonimato. Famosos têm horror à penumbra; desconhecidos buscam as luzes. A imprensa é o lugar das cotações da fama, a bolsa de valores da celebridade. Antes dela, 500 anos atrás, os notórios tinham um espaço pequeno; foi ela que ampliou a circulação de um nome e do diz-que-diz (que até então era moeda miúda passando de mão em mão, tostões da fama) por toda uma cidade, um país, o mundo.

O escritor português Eça de Queirós, 120 anos atrás, observava que já não se buscava o sorriso do príncipe, como acontecia nos regimes aristocráticos, mas o nome no jornal: "Nas nossas democracias, a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as ações – mesmo as boas". Piorou. Agora temos as fotos, as revistas coloridas, a televisão.

Para algumas pessoas, a visibilidade é a afirmação do ser: você só "é" se falam de você; a "galera" é que dá existência ao célebre. Na telenovela, a moça que busca ser famosa está caricata, mas é no fundo verdadeira. Quer a fama não por algum mérito ou feito heróico, mas para ser conhecida. Ser "alguém". E quer chegar de catapulta. Lembra aquela outra, real, que ao ser eliminada da Casa dos Artistas a primeira coisa que perguntou lá fora, ansiosa, foi: "Eu estou famosa?"

Vale tudo. Atacar pessoas com beijos, como o beijoqueiro, atirar no papa, matar um beatle, pular nas cataratas de Niágara, botar coleira de brilhantes na cachorrinha. Até bandidos se deliciam: repararam no sorriso irônico do Beira-Mar para as câmeras, durante o depoimento na Câmara Federal? Onde alguns viram deboche estava, lá no fundo, a vaidade. Famigerado, termo usado hoje como adjetivo de bandido, não significa outra coisa senão famoso, célebre. Guimarães Rosa tem um conto delicioso sobre a palavra.

Fama dá trabalho: aquelas festas todo ano, gastos que se tornam notícia, patrocínio, silicone, troca de companhia, passarela do samba com muita coisa de fora e pouca de dentro, vernissage, estréia, fatos novos. A celebridade e a imprensa caminham juntas, uma precisa da outra, entre tapas e beijos, como diz a canção.

E uma coisa curiosa acontece no Brasil: celebridades posam nuas para revistas. Na Europa e na América do Norte elas são surpreendidas nuas pelos paparazzi, em barcos ou em casas de veraneio. Não tem cabimento, por exemplo, Sharon Stone posar nua para revistas – o que já fizeram não poucas estrelas do nosso cinema e da televisão. Lá, elas podem tê-lo feito antes da fama, ou no despontar dela, como Marilyn Monroe, mas não depois. Até socialites brasileiras já mostraram seus íntimos ex-segredos.

É também curioso: os números que trazem celebridades despidas vendem mais. Nem a meia-idade as impede, antes parece que as encoraja a provar que ainda valem sonhos, as Veras, Ângelas, Maitês, Brunas. O que o público quer é ver a intimidade das famosas, não de qualquer bela, ainda que dez vezes mais bela.

         
     
 
 
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